Por Assis Ribeiro
Nassif,
No post “Cultura e Aculturação na Bahia“, muitos comentaristas se reportaram à descaracterização da cultura da Bahia tomando como base o carnaval de Salvador. Estou indicando uma entrevista do prefeito no portal Terra, que demonstra como a indústria da cultura determina a sua pauta. Posso afirmar que boa parte dos soteropolitanos preferem um outro modelo do carnaval, daí a pergunta do reporter e a resposta constrangida e evasiva do prefeito.
Do Terra Magazine
Prefeito diz que é “inimaginável” mudar carnaval de Salvador
Esquivo a entrevistas e resguardado de perguntas incômodas sobre a especulação imobiliária e outras mazelas da primeira capital do Brasil, João Henrique é um dos prefeitos mais impopulares da história de Salvador. Na noite paulistana, depois de recusar-se a falar do rompimento com Maria Luíza, mas nitidamente contrariado, ele conversou com jornalistas. Acompanhava-o o presidente do órgão de turismo (Saltur), Claudio Tinoco, que tentou responder em lugar do prefeito, quando surgiram contestações ao modelo do carnaval baiano, cuja organização favorece os negócios de grandes grupos empresariais e musicais – dos camarotes à escolha dos horários dos desfiles nos circuitos.
Na pequena coletiva, Terra Magazine fez cinco perguntas a João Henrique, que vão reproduzidas nesta reportagem, com o acréscimo das intervenções de Tinoco e de um dos assessores do prefeito da Cidade da Bahia. Instigado a opinar sobre a necessidade de mudanças na estrutura da festa, que vai homenagear o centenário do escritor Jorge Amado em 2012, João Henrique revelou seu ânimo de nada mexer na pirâmide:
– Seria inimaginável nós fazermos uma intervenção mudando o modelo do carnaval…
Olhar fixo, ele desdobrou o argumento, enriquecido por mais uma confissão: não pretende fazer uma “intervenção branca” para democratizar a participação dos blocos populares, sem cordas:
– Sempre na medida do possível, o poder público intervém dessa forma: mediando, sugerindo, mas com muito cuidado. Porque, como disse Cláudio (Tinoco), não cabe uma intervenção branca. É uma festa tão linda, vem dando certo há tantos anos – sustentou.
O compositor Moraes Moreira, crítico do atual modelo, realizou um pocket-show no evento publicitário.
Confira o trecho da coletiva.
Terra Magazine – Os grandes empresários ainda dominam o carnaval de Salvador e controlam o Conselho do Carnaval. Tanto que, aqui, a trilha sonora é de grandes grupos, como Chiclete com Banana, Daniela Mercury… O carnaval popular não está presente no lançamento do carnaval de Salvador. O que o senhor tem feito para diminuir o domínio dos grandes blocos, da Central do Carnaval, do Chiclete com Banana?
Claudio Tinoco – Eu posso responder…
Terra Magazine – Mas perguntamos ao prefeito.
Claudio Tinoco – Mas eu posso responder…
Terra Magazine – A pergunta é pro prefeito.
Claudio Tinoco – Eu posso responder! Você fez uma pergunta muito específica sobre o Carnaval.
Terra Magazine – Mas é uma pergunta política ao prefeito.
Um assessor grita ao repórter:
– Ele é o técnico…!
Terra Magazine – Depois, o prefeito vai complementar? Prefeito?
(João Henrique balança a cabeça, afirmativamente)
Claudio Tinoco – Lógico! Ele pode complementar!… (E o presidente da Saltur responde por quatro minutos, enquanto o prefeito conversa com assessores).
Terra Magazine – E a visão do prefeito?
João Henrique – O Claudio (Tinoco) disse: nós estamos fazendo os esforços para sugerir aos grandes blocos, aos grandes artistas, músicos, pra que o Carnaval seja cada vez mais inclusivo. Eu diria que o abaixar das cordas já é uma medida inclusiva. Começou o Saulo (Fernandes) no ano passado. E esse ano já tem outros artistas que estão dizendo que vão baixar as cordas também nos últimos dias de Carnaval. O Carnaval nas ilhas também tem sido muito incentivado por nós, inclusive levando alguns artistas não tão famosos assim, mas que estão começando, se projetando ao levar alegria para as ilhas de Salvador. O encontro de trios, na praça Castro Alves, também era algo que tinha se perdido no tempo. E algo muito popular também. No ano passado, já retornou. Então, eu diria que medidas inclusivas têm sido tomadas, sim. Agora, como o Claudio diz, nós não vamos intervir, a festa é espontânea, a festa acontece por si só. Ela aconteceria sozinha, sem o poder público. Agora, na medida que o poder público pode ofertar um transporte coletivo melhor, segurança pública melhor, iluminação pública melhor, ordenamento de ambulantes melhor, saúde pública melhor, claro que isso vai vender melhor a imagem da cidade, pra que no próximo ano a gente possa atrair mais pessoas, aumentar a geração de empregos, aumentar a renda da cidade… Mas que a festa é espontânea, é. Que ela tem as suas características próprias, tem. Seria inimaginável nós fazermos uma intervenção mudando o modelo do carnaval.
Terra Magazine – Por que seria inimaginável?
João Henrique – Ele é muito próprio. Ele tem vida própria. O Carnaval tem vida própria.
Terra Magazine – É pra não ferir grandes interesses empresariais?
João Henrique – Não… Nós regulamos o Carnaval, como eu disse, com oferta cada ano melhor da qualidade dos serviços públicos. É o que a gente pode fazer. O carnaval tem o seu próprio conselho. O conselho municipal do Carnaval. É um conselho deliberativo. Eles tomam decisões e comunicam, muitas vezes, à prefeitura. Muitas das vezes nós fomos até supreendidos pelas decisões tomadas pelo Conselho Municipal do Carnaval. Ele foi criado pela Lei Orgânica há mais de 20 anos. E nós respeitamos a autoria e o caráter deliberativo do conselho. Claro que a gente procura conviver harmonicamente com o conselho, mas sempre respeitando a sua autonomia. E a festa, como eu disse, é espontânea, festa natural. A gente faz sugestão de medidas inclusivas. O tratamento dos cordeiros, por exemplo. Havia muitas queixas dos cordeiros em relação às condições de trabalho. Eles trabalhavam sem luvas, trabalhavam com pouca oferta de ingestão de líquidos. Tudo isso nós podemos mediar junto à Delegacia do Trabalho e os empresários. Hoje, os cordeiros trabalham com melhores condições de trabalho. Sempre na medida do possível, o poder público intervém dessa forma: mediando, sugerindo, mas com muito cuidado. Porque, como disse Cláudio, não cabe uma intervenção branca. É uma festa tão linda, vem dando certo há tantos anos. É a maior festa popular…
Terra Magazine – Essa não é a percepção dos blocos populares que participam da festa.
João Henrique – O (Filhos de) Gandhy partipa muito bem do carnaval de Salvador. Os afoxés participam muito bem. Os blocos de índios participam muito bem. Não sei de onde pode estar partindo alguma reclamação.
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