Comentários do post “”País carece de amplo projeto de desenvolvimento”
Caros navegantes,
Começei escrever uma comentário (e foi se avolumando) sobre o pensamento do Prof. Odilon Guedes (post: País carece de amplo projeto de desenvolvimento), com a qual tendo a concordar em parte com suas idéias, mas não no todo, e aí virou um outro post.
O Brasil ainda não discutiu e ainda não tem mesmo um projeto de desenvolvimento para a nação, e mais, o Brasil nunca teve um projeto de desenvolvimento de nação que inclui-se o povo brasileiro em toda sua história. As elites dessa nação, seja de direita e também de esquerda (de esquerda sim senhor), até os anos 70’s nunca se pensou o país com o seu povo, o povo sempre foi um “estorvo”, essa é nossa vergonhosa história, mesmo para um pensador marxista como Caio Prato, um dos nossos “demiurgo”, como disse Antônio Cândido.
“O II Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), lançado em 1974, foi o último plano de longo prazo”, assim como tivemos no império, de 1840 à 1870, cinco planos viários de integração nacional, escritos e desenhados por engenheiros, um deles negro, hoje lembrado apenas como avenida, Rebouças (André), é meus caros, já fomos império, o único ao sul do equador, mas em nenhum momento se tinha como objetivo incluir o povo, repito, isso nunca fez parte de nossa história
A nação que inclui o povo (timidamente), de modo geral nasceu com a constituição de 1988, dentro de um processo da história que conhecemos, junto com uma consolidação de uma classe sindical que criou um partido nos moldes da Europa no início do século XX, que a elite de direita e da esquerda virulenta e burra odiou, o PT e o Lula. Não sou anti-Lula não, para lembrar outra frase do Prof. Antônio Cândido sobre Oswald de Andrade, que foi vetado pela elite acadêmica paulista de São Paulo por duas vezes, como professor na Filosofia-USP e Letras-USP, disse o Prof. Antônio Cândido, “Ele vale mil escolas”, diria que Lula é dessa linhagem, vale milhares de políticos e acadêmicos, mas essa elite jamais vai engolir esse ‘sapo barbudo’, embora hoje seja um mito vivo para o povo, mas ele também não é deus não.
O manifesto antropofágico (1928) de Oswald de Andrade de devorar as culturas européias e abrasileirá-las, ainda ficou no sonho, assim como sua frase genial de Shakespeare à brasileira: “Tupi or not tupi – that is the question”.
Em nossa realidade ainda vale aquela frase de Joaquim Nabuco, do império, “em mim só o sentimento é brasileiro, a minha imaginação é européia”, mas prefiro uma outra frase, hoje no mito da cultura popular, mas também derivada de um pensamente de Joaquim Nabuco, “O povo brasileiro é melhor que suas elites”.
Por isso quando ouço que nossas escolas não têm os mesmos grau e índices da Coréia, do Japão, etc, do pós guerra, fico pensado, claro que não, o país pela primeira vez na sua história, nas últimas duas décadas, fez um projeto que se incluiu escola básica para todos, de baixa qualidade, dizem, o que também é verdade, mas caracas, o nosso desafio é que temos que construir uma nação e isso não se constrói da noite para o dia. O Prof. Milton Santos, disse anos atrás, “esse país nunca foi um país de leis, não existe cidadão no Brasil, ou direitos do cidadão, o que existe são privilégios” (estou citando de memória, ver doc. sobre ele na rede),
Em 2009, quando voltei ao Brasil, depois de seis anos fora, e de uma fase de euforia, escrevi este post em Agosto de 2009:
Dobrando à aposta de JK (50 anos em 5): Crescer 100 anos numa geração
Na qual concluí no final: Mas quem sou eu, onde estão os lideres estadistas desses país para dizer isso ao povo?
A fase de euforia passou e fui caindo na real, sim, temos mais de 50% de classe ‘C’, mas a qualidade dessa classe é discutível, pois uma percentagem não desprezível ainda mora nas inúmeras favelas que temos, mas com TV Plana e agora carro zero.
Creio que não posso ficar totalmente pessimista, pelo contrário, hoje mesmo escrevi este post, depois de ler o encarte de CartaCapital, que tem como titulo:
-Por um projeto nacional: O pré-sal é a chance de robustecer a indústria brasileira e corrigir as históricas desigualdades do desenvolvimentos do país.
-Oportunidade do século: Promover um crescimento menos concentrador e estimular a indústria nacional. Eis os desafios do pré-sal.
Pré-Sal: Setor investirá U$1 Trilhão até 2020
Para fazer um paralelo no tempo, tenho em mente um livro de John Kenneth Galbraith, do pós guerra, de 1958, com o título, “The Afluent Society”, uma livro que marcou gerações e época, que persiste até nossos dias como exemplo a ser pensado, livro lançado no mesmo ano que os livros de Celso Furtado, “Formação Econômica do Brasil”e de Raymundo Faoro, “Os Donos do Poder”.
Guardando as devidas proporções, pois os EUA nos anos 50’s, já tinham inúmeras gerações de filhos, pais e avós que freqüentaram escolas, de uma nação que nasceu com idéias republicanos, diria que temos um desafio dessa magnitude hoje, no mínimo, você pode estar pensando, ‘pé no chão mermão’, mas não se trata de pensar pequeno, é pensar grande e começar com o pé no chão,
Mas quem é que vai abrir um debate franco sobre um projeto de país, diante das oportunidades que temos hoje e nas próximas décadas, maior que os anos dourados (50’s), com Getúlio Vargas e J.K.?
Eu tenho minhas ressalvas, como diria Guimarães Rosa, “eu não sei de nada, mas desconfio de muita coisa”, acho que o nível de maturidade de nossa sociedade hoje, é a mesma que o nível de maturidade da sociedade global sobre o aquecimento do planeta, bem sintetizada nas palavras de Orlando Vilas Bôas, “Numa aldeia indígena o adulto é o dono da aldeia, o velho é o dono da história e o jovem é dono do mundo” , está todo mundo posando de adulto, mas somos uma sociedade de adolescentes querendo ser adultos. Uma sociedade adulta no Brasil, creio, que tem que vir com a formação de uma nova elite que está nascendo nessa efervescência.
Para que a pergunta do título desse post se torne uma realidade, como o foi nos EUA nos anos 50’s, e aspiramos a ser como os países nórdicos, temos que construí-la e consquistá-la.
Em que cremos mais, “Tristes Trópicos” ou “Terra da Boa Esperança” ?
Quem viver verá!
Sds,
Por Odilon Guedes
Conti-Bosso.
Fiquei satisfeito em ler que você concorda com parte das minhas idéias. Muitas das suas observações são procedentes. Gostaria de acrescentar dois livros importantes para entendermos a realidade brasileira: O Povo Brasileiro de Darci Ribeiro e Raízes do Brasil de Sergio Buarque de Holanda, ajudam a compreender os nossos problemas atuais.
É necessário destacar que nenhuma sociedade passa incólume após 350 anos de escravidão. Até hoje seus reflexos são enormes. Nesse sentido, o livro sobre Barão de Mauá de Jorge Caldeira, aborda em determinado trecho a vida no Rio de Janeiro em meados do século XIX retratando que os setores sociais que mais ganhavam dinheiro eram os “empresários” traficantes de escravos. Imagine a cabeça, os valores de um indivíduo desses a influência que tinham e que deixou raízes até hoje.
No Congresso dos Economistas realizado em Curitiba em 1983, participei de uma roda em que o saudoso e grande mestre Celso Furtado dizia que até 1930 o Brasil era uma grande fazenda em virtude da predominância da produção agrícola principalmente o café. Por todo esse passado nosso país enfrenta um enorme conjunto de problemas, somos reflexo disso.
Nosso papel hoje, pelo potencial de nosso país, é mostrar que é possível mudar essa realidade para melhor. Muitos dizem que não. Diante disso, muitas vezes eu me pergunto: quando no quatro de julho os revolucionários americanos desencadearam sua luta de libertação contra a Inglaterra setores da sociedade americana devem ter pensado que era uma luta inglória pois iriam enfrentar a maior potência do mundo. Esse desafio foi feito e conseguiram seu objetivo de liberdade.
Sobre Lula eu gostaria de dizer, que fui fundador do PT e conheço-o antes da fundação do partido. É uma pessoa muito inteligente e tem uma enorme liderança. Mas não posso medir o governo Lula com a mesma “régua” que meço o governo FHC. O PT, partido que acabei me desligando por não concordar com os rumos que tomou, foi fundado para mudar o país do ponto de vista entre outros, da distribuição de renda, da reforma agrária, desenvolvimento nacional autônomo, investimentos maciços em educação, saúde, transportes públicos, habitação, tudo isso com ampla participação popular. Também comprometia-se com a mudança de hábitos em relação as relações políticas, baseado em princípios e na ética.
O PT de hoje está muito distante daquele . O governo Lula e Dilma como disse na entrevista, no essencial continuaram com a mesma política macroeconômica de FHC. Não podemos ter como horizonte para o povo brasileiro, como Lula sempre afirma, um prato de comida no almoço e no jantar. A dignidade do trabalhador exige muito, muito mais que isso, e o Brasil não pode submeter-se a interesses internacionais que vão contra o futuro da nação
Um abraço,
Odilon Guedes

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