Falecido em 2006, aos setenta anos de idade, o jornalista José Carlos Rego foi uma das mais queridas e admiradas personalidades do mundo do samba. Nascido em Miracema, no norte fluminense, iniciou sua trajetória em 1957 nos jornais Imprensa Popular, órgão do Partido Comunista Brasileiro (PCB), e Última Hora. Um dos maiores conhecedores do universo do samba carioca, Zé Carlos deixou para a posteridade pelo menos um trabalho original e único: o livro Dança do samba, exercício do prazer (1996), em que lista e descreve 165 passos da coreografia sambística, em depoimentos de cerca de uma centena de passistas famosos.
Consultando agora essa obra fundamental, temos de volta à nossa memória um dado histórico fundamental, que é a origem da performance masculina na dança solista do samba, nos terreiros e nos desfiles das escolas.
Segundo o livro, o nascimento da figura do passista de samba remonta à década de 40, quando o compositor Herivelto Martins resolveu levar criar no palco o que chamava de “mini-escola-de-samba”, composto por seu coro feminino e um pequeno grupo de percussionistas. Mas a ideia de incluir a dança nos números do conjunto não foi pacificamente aceita: com as mulheres, tudo bem; mas com os homens, ficou difícil.
O caso é que até então o samba dançado em solo, no meio da roda, era “coisa de mulher”. Como contou Herivelto em entrevista ao Zé Carlos, a ideia foi muito mal recebida entre seus sambistas. “Claudionor da Portela se aborreceu, parou de bater o pandeiro e se afastou do ensaio – narrava ele –; Bucy Moreira, de muita liderança no grupo, ficou pensativo, mas não disse nada. Mas no terceiro espetáculo, veio a surpresa: o ritmista Tibelo, no meio da apresentação, deixou o tambor e arriscou umas invenções com os pés. O público, apanhado de surpresa, primeiro começou a rir, mas aos pouquinhos soltou os aplausos. Incentivado, Tibelo ampliou a variedade de passos e o publico veio abaixo”.
Na década seguinte, três jovens portelenses, Candeia, Valdir 59 e Mazinho do Natal foram um dia convocados por Carlos Machado para o show The million dollar baby, no palco da boate Night and day. Mas seus passos eram convencionais e comportados. Então, da mesma Portela, Valdir levou um sambista tão inventivo que era tido como “maluco” – o legendário Tijolo, de nome civil Alexandre de Jesus. E foi a partir do sucesso e da criatividade de Tijolo no palco que a figura do passista foi institucionalizada, descendo do music hall para a avenida, num inusitado percurso, como também mostra o nosso saudoso Zé Carlos.
O magnífico livro publicado pela Editora Aldeia, então localizada na rua Cardoso de Morais, 399, sobrado, em Bonsucesso, infelizmente hoje é raridade. Como são também as performances ao jeito de Tijolo, Vitamina do Salgueiro, Gargalhada da Mangueira (antes, também salgueirense) e tantos outros, cada com um com seu estilo.
Mas não custa lembrar que o samba um dia já dançou muito bem, e no bom sentido. Como também não custa lembrarmos um pouquinho do grande profissional e ser humano que foi o nosso José Carlos Rego, imperiano apaixonado e compositor dos Unidos do Cabuçu..
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