A polícia escondeu o serviço sujo do News of the World
Paulo Moreira Leite
Um dos aspectos essencias do jornalismo indecente praticado pelas publicações de Robert Murdoch ainda não foi investigado de forma completa. Já se sabe que os jornais de Murdoch sustentavam uma equipe de repórteres e editores que faziam escutas telefonicas para bisbilhotar a vida de personalidades públicas.
Falta explicar por que esse esquema, descoberto em 2005, seguiu sem ser investigado durante muitos anos, como se fosse um episódio isolado e sem maior gravidade.
A verdade é outra. Nos arquivos da Scotland Yard há uma lista de 4 000 pessoas que foram alvo das escutas dos jornalistas. Compilada por um ex-jogador de futebol que se tornou detetive particular e ganhava a vida fazendo grampos telefonicos, a relação é um trabalho meticuloso e detalhado. Possui 11 000 páginas com nomes das vítimas — e, em cada página, o nome do repórter e/ou editor a quem se destinava o serviço. Entre os alvos, há membros da família real, celebridades, políticos.
A maioria dessas pessoas nem tinha idéia que estava sendo grampeada. A polícia sequer fez a gentileza de informar as vítimas de que estavam sob risco. Tampouco avançou em investigações para estabelecer conexões entre os grampos, os detetives particulares e os jornalistas, num comportamento cúmplice que, conforme um reporter que segue o caso, pode ser descrito de duas formas. Numa visão benigna, pode-se definir como preguiçoso e incompetente. Numa visão maligna, como criminoso e corrupto.
Mesmo autoridades de primeiro escalão, como o então ministro da Fazenda Gordon Brown, chegaram a suspeitar de que estivessem sob escuta — mas, embora tenha solicitado formalmente esclarecimentos a polícia, o próprio Brown jamais recebeu uma resposta conclusiva.
Nos primeiros dias do escandalo, a polícia procurou explicar seu comportamento com desculpas conhecidas em várias latitudes. Além de reclamar da falta de verbas, também disse que tinha outras prioridades — como combater o terrorismo. Conversa.
Sabe-se agora que o trabalho sujo do News of the World foi protegido por uma rede de interesses obscuros e relações incestuosas que impediu toda investigação séria sobre o que ocorria, revela uma reportagem do correspondente do New York Times em Londres. O jornal descreve uma complexa teia de amizades, troca de favores e de prestígio entre jornalistas e policiais para garantir um ambiente de confiança e impunidade entre as partes.
Esse trabalho incluia o pagamento de propinas para o trabalho de escuta. Também envolveu troca de favores e técnicas clássicas de aproximação. Um dos figurões da polícia inglesa chegou a partilhar 18 refeições com o pessoal do jornal durante uma das fases delicadas da investigação. Um editor asssistente do News of the World chegou a ser contratado para trabalhar como estrategista de comunicação da Scotland Yard. Em compensação, um alto funcionário da polícia ganhou uma coluna no The Times, que pertence ao mesmo grupo, onde chegou a escrever artigos em defesa do trabalho da antiga corporação.
Sabe-se que Murdoch investiu perto de US$ 50 milhões na última década nos Estados Unidos para conseguir favores de lobistas e políticos que poderiam ajudá-lo a modificar leis que controlam a concentração de propriedade na área de comunicação. Os beneficiários prediletos de suas contribuições foram os políticos republicanos, mas Bill e Hillary Clinton encontram-se em sua lista.
A investigação sobre sua atuação nos meios políticos ingleses está apenas no começo, sabe-se agora.
Pegue o link para a reportagem do New York Times aqui:
http://www.nytimes.com/2011/07/17/world/europe/17police.html?emc=na
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