4 de junho de 2026

PT mira o interior paulista

Por Marco Antonio L.

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Do Valor

Interior paulista será desafio do PT em 2012

As cidades de Campinas e Ribeirão Preto sintetizam dificuldades eleitorais do partido em São Paulo

Cristiane Agostine, Samantha Maia e Vandson Lima, no Valor Econômico

No comando de apenas 10% das prefeituras de São Paulo, que concentram 17% do eleitorado estadual, o PT enfrentará dificuldades na eleição de 2012 para avançar no interior. Ao iniciar a articulação para as disputas municipais no Estado, o partido esbarra em dois polos estratégicos eleitoral e economicamente: Campinas e Ribeirão Preto. A aposta petista continua sendo na região metropolitana, que nesta eleição servirá de palco para uma disputa acirrada com o PSDB.

Em Campinas, maior cidade do interior paulista, com o terceiro maior eleitorado do Estado, o escândalo envolvendo a gestão de Hélio de Oliveira Santos, o Dr. Hélio (PDT), respinga diretamente no PT, com a suspeita de participação do vice-prefeito, o petista Demétrio Vilagra, em um suposto esquema de fraude em licitações. O PT nacional, estadual e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva acompanham de perto o caso e temem que as investigações do Ministério Público Estadual inviabilizem o partido na cidade, pela terceira vez.

Vilagra era cotado como pré-candidato para a sucessão de Dr. Hélio, mas as denúncias, que levaram o vice à prisão temporária, reduziram as chances de o PT ter candidato próprio. O diretório municipal está fragmentado e parte do comando apoia o lançamento do deputado estadual Gerson Bittencourt (PT), ex-secretário de Dr. Hélio. Outra ala do partido, minoritária, cogita o lançamento do presidente do Ipea, Marcio Pochmann. A avaliação de dirigentes de Campinas, no entanto, é pessimista quanto ao cenário eleitoral para o PT.

O escândalo envolvendo Vilagra é mais um revés na história do PT em Campinas, cidade com 765 mil eleitores. O município foi emblemático para o partido nos anos 80, com uma das primeiras vitórias em uma grande cidade do país. O sindicalista e fundador do PT Jacó Bittar foi eleito em 1988, mas no terceiro ano do mandato foi pressionado a deixar a legenda, acusado de cometer irregularidades na construção do metrô com o então governador Orestes Quércia (PMDB), morto em 2010.

O partido passou por anos de desarticulação e derrotas e só voltou ao governo em 2000, com a vitória de Antonio da Costa Santos, o Toninho do PT, ex-vice-prefeito de Bittar e responsável pelas denúncias contra ele. O segundo revés veio menos de dois anos depois da eleição de Toninho, com o assassinato do prefeito em 2001. A vice Izalene Tiene, também petista, foi criticada do início ao fim da gestão e não tentou se reeleger. Seu grupo no PT se enfraqueceu e perdeu espaço para petistas da capital paulista, que tomaram o diretório e o aproximaram de Dr. Hélio e da chamada “República do Mato Grosso do Sul” (veja mais nesta página). Na prefeitura, com a vice e cargos, o partido enfrenta seu terceiro desafio.

O diretório municipal quer deixar a gestão, na qual participa com duas secretarias e cerca de 80 cargos de confiança, mas o comando nacional petista resiste. O presidente estadual do PT, deputado Edinho Silva, age para tentar amenizar o conflito e postergar a saída do governo. Dirigentes da sigla, no entanto, temem um desgaste maior para o partido e o que “está por vir com as investigações do MP”.

Na região, o PSDB tem se articulado para buscar ligações das denúncias de Campinas com cidades vizinhas consideradas fortalezas petistas, como Sumaré e Hortolândia. “Essas cidades não têm eleitorado muito grande, mas influenciam o entorno. Conquistar esses municípios seria derrubar um ‘bunker’ do PT”, diz um dirigente do PSDB no Estado.

Em Ribeirão Preto, polo do agronegócio do interior paulista e berço político do ex-ministro Antonio Palocci, o PT está minguando. Desde que Palocci saiu da política municipal, em 2002, o diretório não conseguiu se reestruturar. A votação na disputa local caiu de 56%, quando Palocci elegeu-se prefeito pela segunda vez em 2000, com votação recorde, para 8% em 2008. Em 2010, o diretório não lançou candidato à Câmara dos Deputados. A cidade tem 407 mil eleitores.

Vinculado à força política de Palocci, o partido se enfraqueceu na cidade à medida que o ex-ministro se afastou da política local e, posteriormente, se desgastou no plano nacional. A queda do petista do Ministério da Fazenda, em 2006, por denúncia de quebra de sigilo do caseiro Francenildo Costa, e a recente saída da Casa Civil, com a divulgação de que seu patrimônio foi multiplicado por 20 em quatro anos, se refletiram em Ribeirão Preto e diminuíram as chances eleitorais do PT local para 2012.

O presidente estadual do PT analisa que a situação do partido na cidade é “muito difícil”. “O PT não vai se recuperar da noite para o dia. A direção nacional está consciente. Perto do que já tivemos, perdemos muito”, diz Edinho.

Um dos nomes cogitados para 2012 representaria uma derrota a Palocci: o do juiz aposentado João Agnaldo Donizeti Gandini, que abriu processo contra Palocci para investigar o suposto superfaturamento na compra de molho de tomate com ervilha. O caso foi emblemático contra o petista, mesmo depois de Palocci livrar-se da acusação no âmbito criminal. Outros nomes cogitados pelo PT local são o do ex-secretário de Palocci e presidente da Fundação Biblioteca Nacional, Galeno Amorim, e de Feres Sabino, petista derrotado em 2008 na disputa municipal.

O PT monitora outro problema no interior paulista. O prefeito de Taubaté, Roberto Peixoto (PMDB), preso na semana passada pela Polícia Federal, tem como vice a petista Vera Saba, política considerada “obtusa” pela direção petista. Mesmo ao assumir o comando da cidade estratégica do Vale do Paraíba, com 207 mil eleitores, Vera não deve ter o respaldo do PT. A petista tem uma relação turbulenta não só com o PT, mas também com o PMDB.

Apesar das dificuldades em São Paulo, o PT estadual minimiza os problemas. Segundo recente pesquisa realizada pelo diretório, o partido tem a preferência de 30% da população na maior parte do Estado. O percentual é semelhante ao registrado pelo candidato do PT ao governo do Estado em 2010, ministro Aloizio Mercadante (Ciência e Tecnologia), que recebeu 35% dos votos.

A sigla definiu setembro como meta para escolher seus pré-candidatos para 2012. Segundo o presidente do diretório estadual, o PT melhorou e ampliou sua estrutura no Estado, ao acabar com 140 comissões provisórias e criar diretórios em 23 cidades onde não existia. “É impossível não crescer em 2012″, diz Edinho.

Apesar da dificuldade registrada nas eleições passadas de conquistar o eleitor de classe média, o objetivo petista no próximo ano é a nova classe média, que ascendeu economicamente durante o governo Lula. Na lista de cidades com esse perfil, Edinho Silva destaca São José do Rio Preto, São Carlos, Araçatuba e Registro, além dos municípios da região metropolitana.

Para tentar avançar no Estado, a legenda busca alianças mais conservadoras, com o PMDB, PR e PSD – articulado pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab. Com a morte do ex-governador Orestes Quércia, que comandava o PMDB paulista e resistia à aproximação com o PT, os petistas miram nas parcerias com pemedebistas. O PT quer usar a capilaridade do aliado para entrar no interior e conta com o apoio do vice-presidente Michel Temer (PMDB), principal influência no diretório paulista do PMDB.

O PT está à frente de 65 prefeituras, mas apenas 15 delas têm mais de 100 mil habitantes. Esse grupo está concentrado na região metropolitana.

Região metropolitana é alvo de disputa

O PSDB intensificou a ofensiva em busca de votos na região metropolitana de São Paulo, área em que está concentrado 47,7% do eleitorado, e levará como bandeira para a eleição de 2012 a expansão do Bilhete Único Metropolitano. De olho no reduto petista, o governador Geraldo Alckmin definiu como meta a unificação do transporte intermunicipal da maioria das 39 cidades da região com os trens do metrô e da CPTM até o fim do ano, às vésperas do início das disputas municipais.

O bilhete único faz parte de um pacote de projetos estratégicos politicamente para o governo tucano. O PSDB tem dois objetivos: construir vitrines eleitorais na região dominada pelo PT e obter mais recursos do governo federal para o Estado. Na região metropolitana, excluída a capital, 57% do eleitorado está em cidades comandas por petistas.

No fim do próximo mês, Alckmin deve lançar a primeira etapa da integração do sistema de transporte estadual, com o teste do uso do bilhete único nos ônibus intermunicipais e em uma estação de metrô. Em seguida, expandirá a conexão às demais estações do metrô e da CPTM. A previsão do governo é de que haja desconto nas passagens para a população. “No fim vai ficar mais barato”, diz o secretário de Desenvolvimento Metropolitano, Edson Aparecido. “O subsídio virá do Estado e dos municípios. Não tem muito jeito”.

Alckmin concentrou ações no ABC paulista, berço político do PT e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Há dez dias, o governador anunciou investimentos de R$ 6,3 bilhões na região, com obras de grande escala em mobilidade urbana e combate às enchentes.

Ao assumir o governo, Alckmin já havia acenado à região ao criar a Secretaria de Desenvolvimento Metropolitano para a Grande São Paulo, Grande Campinas e Baixada Santista. Entre os planos, está o de levar o metrô para fora da capital paulista. Em 2014, quando Alckmin poderá tentar a reeleição, o governo estadual deverá anunciar as obras de expansão da linha 4 do metrô até Taboão da Serra.

Em Guarulhos, segunda cidade mais populosa do Estado, o prefeito Sebastião Almeida (PT) diz que a aproximação com o governo estadual é “bem-vinda”: “Precisamos de ações integradas e acho louvável que o governo tenha acordado e passado a pensar de uma forma coletiva”. O PT está em sua terceira gestão consecutiva na cidade. “Falta investimento estadual em tudo. Na área de segurança, os problemas ficam com a prefeitura. Em drenagem, as obras realizadas pelo Estado em outro município trazem impacto aqui sem que a gente saiba do planejamento”, diz.

O Bilhete Único Metropolitano é prioridade para o prefeito, para quem o projeto depende apenas de vontade política. “Temos tecnologia, o sistema de bilhete único já existe nos ônibus da cidade. Estamos preparados para integrar”, diz Almeida, que tentará a reeleição em 2012, mas diz não estar preocupado com a investida do governo estadual em cidades governadas pelo PT. “Acho que tudo o que o Estado fizer na cidade que lhe permita tirar dividendos políticos é natural. Tem que fazer isso”. No município, o PSDB deve lançar à disputa o deputado federal Carlos Roberto, que em 2008 saiu da condição de azarão e quase venceu Almeida no segundo turno, amealhando 43,3% dos votos.

O secretário de Desenvolvimento Metropolitano considera natural a disputa nas eleições das obras feitas em parceria entre Estados e municípios. “O prefeito que obteve o benefício vai fazer propaganda da ação que teve. Nós também vamos fazer a nossa”, diz Aparecido.

“A ofensiva dos tucanos é forte, mas estamos nos preparando. Somos fortes nas regiões metropolitanas”, observa o presidente do PT de São Paulo, deputado Edinho Silva. “É onde está o eleitorado típico do PT e devemos crescer ainda mais, com essa nova classe C “. O PT investirá na reeleição de seus prefeitos, como Luiz Marinho, em São Bernardo do Campo, Mário Reali, em Diadema, Oswaldo Dias, em Mauá e Sebastião Almeida, em Guarulhos. Duas grandes apostas do partido são o deputado federal João Paulo Cunha, em Osasco, e o deputado estadual e sindicalista Carlos Grana, em Santo André. Na capital, o partido está dividido entre as candidaturas da senadora Marta Suplicy e do ministro Aloizio Mercadante (Ciência e Tecnologia). Corre por fora o ministro da Educação, Fernando Haddad.

Já o PSDB espera destronar o PT em São Bernardo com o deputado federal William Dib, que foi prefeito da cidade entre 2003 e 2008 pelo PSB. O deputado estadual Orlando Morando, segundo colocado na última eleição em 2008, também pleteia o posto. Outro ex-prefeito em quem os tucanos apostam é o deputado Celso Giglio, que tentará chefiar pela terceira vez a cidade de Osasco. Em Diadema, Santo André e Mauá, a situação do partido é mais complicada, sem candidatos que despontem como favoritos.

Do secretariado de Alckmin, pelo menos dois nomes devem ir às urnas em 2012. Em São José dos Campos, cidade comandada pelo PSDB desde 1996, o partido deve recorrer novamente a Emanuel Fernandes, secretário de Planejamento e prefeito da cidade entre 1997 e 2004, quando fez seu sucessor, Eduardo Cury (PSDB), em seu segundo mandato. Paulo Alexandre Barbosa, secretário de Desenvolvimento Econômico, provavelmente será o candidato em Santos.

Do secretariado estadual pode sair mais um candidato à prefeitura de São Paulo. Bruno Covas e José Aníbal, secretários de Meio Ambiente e Energia, respectivamente, são cotados caso o ex-presidenciável José Serra não concorra.

Situação em Campinas preocupa partido

Na tentativa de se manter no cargo, o prefeito de Campinas, Dr. Hélio (PDT), busca apoio no PT e cobra a fatura por ter apoiado o partido e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em crises do governo petista e nas eleições.

Como prefeito, Dr. Hélio defendeu a manutenção do PDT na base do governo Lula em 2003, quando o ex-governador Leonel Brizola, morto em 2004, se rebelou contra a gestão. Durante a crise do mensalão, em 2005, defendeu Lula e o então ministro da Casa Civil, José Dirceu. Em 2006, articulou a campanha de reeleição de Lula no interior paulista, ao comandar um comitê suprapartidário, ação repetida em 2010, para a eleição presidencial de Dilma Rousseff.

É respaldado por essa parceria que o prefeito alicerça sua defesa. Nesta semana, o presidente do PT paulista, Edinho Silva, prestará depoimento como testemunhas de defesa do pedetista. Dirceu defendeu Dr. Hélio depois que a gestão virou alvo de investigação do Ministério Público Estadual.

As denúncias indicam fraudes em licitações na empresa pública de saneamento Sanasa com a prefeitura. A primeira dama, Rosely Nassim Santos, e o vice-prefeito, Demétrio Vilagra (PT), seriam os mentores do esquema.

Espalhado pela prefeitura, está um grupo de mato-grossenses-do-sul que, segundo as investigações, sustentariam o esquema. Vários têm passagens por prefeituras do Mato Grosso do Sul – em especial de Corumbá, cidade natal de Dr. Hélio- e também pelo governo do Estado.

A chamada “República do MS”, no governo campineiro desde 2005, conta com o ex-presidente da Sanasa Luiz Aquino, delator do esquema e amigo de infância do prefeito; o diretor de Planejamento Ricardo Cândia, ex-prefeito de Corumbá, é apontado como braço-direito da primeira-dama nas fraudes; Francisco de Lagos, ex-secretário de Campo Grande na prefeitura de Lúdio Coelho (PSDB), era coordenador de Comunicação da prefeitura de Campinas; o ex-diretor técnico da Sanasa, Aurélio Cance Junior, que seria responsável pela arrecadação de dinheiro de obras, é irmão do atual superintendente de Gestão da Informação do governo de André Puccinelli (PMDB), André Luiz Cance, e foi vereador em Campo Grande.

Com o cenário desfavorável para o PDT e PT, projeta-se Jonas Donizette (PSB), deputado federal mais bem votado no município em 2010, com 16% dos votos. Donizette concorreu à prefeitura em 2004 e 2008.

No PSDB, o deputado federal Carlos Sampaio, que disputou a prefeitura nas últimas três eleições, é cotado, assim como a deputada estadual Célia Leão. O vereador Artur Orsi ganhou projeção como principal articulador do movimento pela saída do prefeito.

O ministro dos Esportes, Orlando Silva (PCdoB), que transferiu seu título eleitoral para Campinas, era considerado pré-candidato dos governistas antes do escândalo. Participou com regularidade de eventos na cidade em 2010 e sua esposa, a atriz Ana Petta, nasceu e mora em Campinas. Mas, segundo integrantes da sigla, dependeria do andamento tranquilo das obras para a Copa em 2014 e Olimpíada em 2016, além do apoio do prefeito, o que, dada a circunstância, não é desejo de nenhum candidato.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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