O meu Thesouro da Juventude
11/11/2005
Aprendi a ler no Thesouro da Juventude, assim mesmo com “th”, da W. M. Jackson Editores, edição de 1925, com prefácio de Clóvis Bevilacqua. Era de meu avô Issa. Contava os minutos para chegar à farmácia do meu pai, subir as escadas externas que davam no andar de cima, onde morava vovô. Corria para a estante, tirava um volume, abria no chão forrado por um cobertor, e ficava de bruços devorando as páginas e as ilustrações a bico de pena.
Em 1957, quando entrei no primeiro ano da Escola Sete de Setembro, da dona Nicolina, escrevia um português escorreito… dos anos 20. Cavallo com dois eles, e assim por diante. Para que eu chegasse à reforma ortográfica, minha mãe comprou a edição de 1958 do Tesouro da Juventude. Mas não tinha a menor graça. Preferi migrar para a coleção de Monteiro Lobato, e sua estilização lingüística tão lógica, sem acentos desnecessários.
Mas o Thesouro me acompanhou a vida toda, e de toda a minha geração e de meus pais. Não chegou a meus filhos. Passou-nos informações da forma mais agradável possível, noção de astronomia, de geologia, de história, de literatura. Na “Introducção”. Clóvis Bevilacqua indicava a obra para “meninos, adolescentes e homens do povo que teem sede de saber”. Os editores definiam-no como uma enciclopédia popular, “um livro acerca de tudo para todos e especialmente para os jovens”.
Eram 18 volumes, todos contendo uma seqüência de temas. A primeira gravura do primeiro tomo era uma pintura do sistema solar, com astros de todos os tamanhos e trens se lançando ao espaço para alcançá-los. Um trem expresso, correndo a 1.600 km por minuto poderia dar a volta ao mundo em menos de vinte dias, dizia o texto. Mas levariam 177 anos para chegar ao sol.
De cara, éramos apresentados à nossa insignificância, passeando por todas as lições de “O Livro da Terra”. Em seguida, se entrava em “O Livro da Natureza”, que tratava especificamente da vida nos animais e das plantas. Uma página colorida, finamente ilustrada, mostrava “os seres mais interessantes da terra”, dos conhecidos, águia, gaivota, gavião, leopardo, aos menos votados sariguéa, python, maçarico e buccinum.
Depois, pelo “O Livro de Nossa Vida”, destinado a desvendar a maravilha da humanidade. Havia “O Livro do Novo Mundo”, que tratava desde os homens primitivos, até à construção da América, e “O Livro do Velho Mundo”, falando das antigas civilizações, com amplo relato sobre a China, sobre o seu isolamento que tirou-lhe a noção de progresso, e de como, pouco a pouco, voltava a se abrir para o mundo.
Em um período de grandes inovações, as invenções eram tratadas no capítulo “Cousas que Devemos Saber” e as curiosidades em “O Livro dos Porquês”, talvez o tema mais popular da enciclopédia.
Meu tema predileto eram os “Homens e Mulheres Célebres, Nobres Vidas, Nobres Feitos”. Marco Pólo inaugurava o primeiro tomo da coleção. Depois, abordava-se a criação da famosa Escola de Sagres em Portugal, e os navegadores portugueses.
Menos épico, mais infantil, era “O Livro dos Contos”, estreando com “Sindbad o Marinheiro”, e um bico de pena magnífico mostrando “A Ave Gigantesca e o Homem do Mar”.
Uma parte que não me interessava muito, dada minha invencível falta de habilidade para trabalhos manuais era o “Cousas que Podemos Fazer”, que ensinava desde a fazer uma caixa de madeira até a cortar o cordel mágico. Ensinava um modelo simples de desenhar um cão, e diversos desenhos possíveis de se fazer com palitos de fósforo.
E aí se entrava em outro dos meus temas prediletos, “O Livro das Bellas Acções, Heroes e Heroínas do Mundo”. A primeira história era “Irmãs pelo Sangue e pelo Heroísmo”, narrando um capítulo familiar da resistência portuguesa contra a invasão espanhola no século 17. Depois, “O Sacrifício do Padre Damien”, um belga que partiu para as Ilhas dos Mares do Sul para cuidar de leprosos.
Voltava-se para a literatura, com “O Livro da Poesia, o Bello Mundo dos Poetas”, com “O Gigante Adamastor”, trecho dos Lusíadas. Depois, a “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias, uma das paixões da minha infância. E “Manhã em Petrópolis”, de um certo José Maria Amaral, que “se não é dos maiores poetas brasileiros, ocupa um lugar muito honroso na nossa história literária”. Acho que houve alguma proteção em sua inclusão.
A maior honraria que recebi até hoje foi ter sido o herdeiro da coleção, quando vô Issa morreu. Minhas queridas tias, todas ciumentas do patriarca, não vacilaram um momento na hora de me entregar seu bem mais precioso, a Coleção que comprou em 1928, para aquecer o espírito de dona Teresa, que tinha completado dois anos de vida.
Joaquim Francisco Soares Guimaraes
24 de outubro de 2015 7:14 pmEnciclopédia Thesouro da Juventude
Olá!
Que texto lindo sobre suas memórias de infância! Sou um pesquisador apaixonado pela coleção Thesouro da Juventude e estou fazendo DOUTORADO EM EDUCAÇÃO e tenho como objeto de pesquisa “As estratégias e táticas de formação na Enciclopédia Thesouro da Juventude. Já estou construindo a minha tese e preciso entrevistar leitores dessa maravilha de obra. Tenho, pois interesse em fazer contato com possiveis leitores.
Maci Nogueira
16 de outubro de 2017 7:44 pmO Livro dos Contos – Thesouro da Juventude
Nassif, você foi a única pessoa que citou nominalmente os livros da coleção Thesouro da Juventude, que foi o meu “sonho de consumo” quando criança (e que se estende até hoje). Não pretendo investir na aquisição da coleção toda. Gostaria muito de comprar o Livro dos Contos, mas não sei qual é o número do volume para procurar nos “free market” da vida. Você pode me informar, por favor? E, muito obrigada pela atenção e carinho. Maci Nogueira