Sob o título de “MEC nega fechamento de escolas especiais” o blog discutiu sobre o fechamento, até o fim do ano, do Colégio de Aplicação do Instituto Nacional de Surdos (Ines), em Laranjeiras, e do serviço de ensino fundamental para deficientes visuais do Instituto Benjamin Constant, na Urca, ambos na cidade do Rio de Janeiro.
O assunto é recorrente, infelizmente, porém, é mais um grito de alerta sobre a marcha de insensatez que estamos trilhando.
Na minha modestíssima opinião, toda essa guerra entre a educação inclusiva X a “educação inclusiva” é um grande equívoco onde as únicas vítimas são as crianças.
A educação inclusiva sempre existiu. Aqui em São Paulo o Instituto Padre Chico para Cegos, a APAE entre outras entidades congêneres seriam o que se não executores competentes da educação inclusiva?
Em uma palestra em um curso de pós-graduação ouvi de uma jovem cega: “o único lugar onde me senti respeitada foi no Instituto Padre Chico”.
Fazem um trabalho excepcional, muito contando com o voluntariado e fortemente mantidas por doações. O problema é que as vagas nessas instituições, mesmo assim, são poucas e não atendem a totalidade das crianças deficientes, mormente as da periferia social e geográfica, tão carentes de tudo, inclusive de informações de a quem socorrer.
Era de se esperar, pelo nosso desenho social, que o estado aí interviesse fortemente. Suplementando a carência que a iniciativa particular não pode suprir. Mas, estranhamente, é desse mesmo estado, de bolsões instalados nos órgãos estatais que cuidam da educação, que se nota uma ação que, não seria exagero afirmar, trata-se da demonização dessas instituições – as escolas especiais.
Quem são eles? O pessoal da “educação inclusiva”.
Não conheço a fundo esse pessoal, mas não é difícil identificar em suas manifestações que entre ele estão os “patrulheiros do bem”.
O Günter aqui do blog que me desculpe, mas os patrulheiros do bem são uma distorção da ideologia do politicamente correto.
Qual a proposta da “educação inclusiva”?
As crianças deficientes só poderão ser incluídas socialmente se estiverem na escola pública.
Por quê?
Nunca obtive uma resposta técnica que me convencesse. Os argumentos apresentados quando não são românticos são de um radicalismo típico das paixões políticas.
Em um livro sobre educação inclusiva uma pedagoga, doutora, diga-se de passagem, defensora da inclusão via escola pública argumentava que ao fim esse modelo de inclusão faria com que a criança deficiente fosse vista apenas como mais um dos diferentes alunos que toda escola tem. Assim como o “quatro-olhos”, a “vareta” o “baleia”.
Romantismo pré-bulling, uma criança cega jamais será como o “quatro-olhos”. Este pode parecer estranho pelos seus “fundo-de-garrafa”, mas ele enxerga e ela não.
A cadeirante e a vareta? Coitadinha da vareta, alta, magrela e desajeitada, mas a menina cadeirante não anda. Há aí uma “sutil” diferença.
Quanto ao baleia… bem, sou pai de um garoto que foi o gordinho da classe, sei quanto ele odiava esse apelido.
Isso para não falar que um portador de Síndrome de Dow ou paralisia cerebral não se compara àquele garoto esquisitão e calado que senta no canto da classe.
E quanto ao radicalismo de parte desse pessoal, aqui mesmo em uma discussão, creio que ano passado, um dos debatedores apresentava as escolas especiais quase como ditaduras que buscavam cercear os direitos das crianças deficientes. Ao que a paixão política não nos leva?
No que acredita esse pessoal?
Acredita que basta a alocação de crianças especiais em escolas comuns e públicas para que tudo se resolva. A inclusão se faria pela simples convivência com as crianças ditas normais. A convivência teria assim uma “força estranha”, mágica. Usou-se até o figurado de piolhos inclusivos.
Em minha opinião, de leigo minimamente esclarecido, a escola inclusiva é a escola especial.
É ela que dá o ferramental que a criança necessitará quando adulta para se inserir num mundo criado para “normais”.
Quanto à convivência, ora, ela se dá na família da criança, convivendo com irmãos e primos. No condomínio ou na rua onde a criança mora, no parque, enfim, a família da criança é mais uma família, não é? Claro, por vezes não é tão simples assim.
Deficiências as vezes são vistas como aleijões e pessoas as vezes são cruéis em toda a sua bondade. Não estranharia se algumas famílias procurassem preservar suas crianças deficientes.
Mas, de qualquer sorte, o ferramental fornecido pelas escolas especiais auxiliaria, pela superação proporcionada por ele, a criança a ser vista como “normal”, na medida em que ela, bem qualificada e educada por especialistas dedicados, seria capaz, apesar da deficiência, de interagir com o mundo “normal”.
Então, por que não fazer isso na escola pública?
Alguém já ouviu a música “O Pulso” de Arnaldo Antunes? Quantos tipos específicos de deficiências temos?
Uma criança com atrofia dos membros superiores tem uma deficiência motora, uma criança cadeirante tem uma deficiência motora.
Ambas podem ser tratadas da mesma maneira? Não.
Cada uma delas precisa de uma abordagem específica para a cada uma das suas necessidades especiais.
Em relação a uma criança portadora da Síndrome de Dow, outra com paralisia cerebral ou autista poderia se classificar a deficiência como cognitiva. A abordagem pedagógica para superação dessas deficiências poderia, no entanto, ser a mesma para todas elas?
A escola pública tem como público alvo as crianças ditas normais, como e quando estaria ela, enquanto infra-estrutura, e seu corpo docente e de funcionários preparados para atender as tão variadas formas de necessidades especiais?
Teríamos ao final, caso conseguíssemos dotá-las de tais recursos, resultados significativamente melhores do que os que se obtêm hoje com os alunos que freqüentam as escolas especiais?
De quanto tempo necessitaríamos para isso, de quantos recursos dispomos para isso?
Ou, em outras palavras, o que faremos com as nossas crianças deficientes, enquanto brincamos irresponsavelmente entre o feijão e o sonho, enquanto a escola pública é o que é? E todos nós sabemos o que ela é?
Não seria mais eficaz e eficiente, reconhecermos que as escolas especiais são, como o nome já diz, as especializadas em prover a educação inclusiva e dotarmos de recursos tais escolas para que elas possam atender a demanda?
Mas não é isso que ocorre.
A ideologia dos “patrulheiros do bem” da “educação inclusiva” não permite discordância nem alternativa. Discordantes são inimigos. E aos inimigos se destrói. Se não fisicamente, com a aniquilação jurídica. Trata-se de impedir por meio legal as escolas especiais de existirem, nem que seja trazendo tal dificuldade para sua operação que elas simplesmente deixem de ser úteis a quem delas precisa.
O desmentido do MEC vem em função da indignação popular com a notícia do fechamento de uma escola especial renomada e tradicional.
Mas não nos enganemos, foi só um recuo tático dos “patrulheiros do bem”.
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