Texto de Marcelo Cia
O caso que envolve o deputado federal Jair Bolsonaro e a cantora Preta Gil é exemplar por mostrar de forma prática os motivos que levam evangélicos e conservadores serem contra o PLC122 (a lei que equiparia delitos de racismo aos de homofobia). Se você não acompanhou o caso, leia a seguir. Se acompanhou, pule o parágrafo.
O deputado Jair Bolsonoro (PP-RJ) foi o convidado do quadro “O Povo quer Saber” do programa CQC, exibido nesta segunda-feira, 27. O deputado, como de costume, criticou Dilma, Lula e FHC, disse ter saudades dos militares no poder (Jair é militar), mas se estrepou mesmo ao discriminar gays e negros. Ao ser perguntado sobre o que faria se tivesse um filho gay, Jair disparou: “isso nem passa pela minha cabeça, porque tiveram uma boa educação. Fui um pai presente, então não corro esse risco”. No fim do bloco, a cantora Preta Gil perguntou: “se seu filho se apaixonasse por uma negra, o que você faria?” E ele: “Preta, não vou discutir promiscuidade com quer que seja. Não corro esse risco porque meus filhos foram muito bem educados e não viveram no ambiente como o lamentavelmente é o seu”.
Na manhã desta terça-feira, depois de ser informado que sua declaração foi criminosa (afinal, racismo é crime no Brasil, graças a deus), Jair tentou se defender desta acusação dizendo que não entendeu a pergunta corretamente. À repórter Marcela Rocha, do Terra, Jair disse: “Eu entendi que ela me perguntou o que eu faria se meu filho namorasse um gay (…) Se eu tivesse entendido assim (da forma como a pergunta foi feita), eu diria: ‘meu filho pode namorar qualquer uma, desde que não seja uma com o teu comportamento’. Se eu fosse racista, eu não seria maluco de declarar isso numa televisão”.
Quédizê: ele não é louco de cometer um crime (o de racismo) na TV (como comteu, aliás). Mas ser homofóbico tudo bem, afinal não há lei nenhuma que o puna e ele pode falar qualquer impropério sobre gays que ninguém vai poder fazer nada. Na TV, na rua, no Congresso, na Igreja, na escola. Ele e todos. Quer xingar gay? Pode. Quer falar que homossexualidade é encosto de pomba-gira. Pode. Quer chamar gay de boiola? Pode. Quer agredir? Não pode, mas ninguém vai esquentar muito a cabeça por conta disso. Quer chamar gay de preto fedido? Não pode (graças a deus, mais uma vez). De promíscuo? Também não pode (e será bom que o deputado pague por isso de maneira exemplar). Mas chamar gay de promíscuo ele já chamou um milhão de vezes. De pedófilo também. E o que aconteceu ao deputado? Nada. Ele e tantos. Porque no Brasil a homofobia é tolerada. Muito mais tolerada que o racismo.
Temos que dar o braço a torcer: a defesa do deputado é brilhante. Se o juiz engolir essa de que ele não entendeu a pergunta e imaginou que era sobre ter um filho gay, não existirá lei para puni-lo. Não é à toa que Jair é uma das vozes mais atuantes contra o PLC 122. Ele e mais um monte de pastores e conservadores que vão a público dizer que gay é pedófilo, promíscuo ou tem o demônio no corpo.
Preta Gil vai processar Bolsonaro por racismo e homofobia. Mas já sabe que pelo crime de homofobia ele não poderá ser punido. Pelo menos não até que esse PLC seja aprovado.
Escrito por Marcelo Cia às 18:00:24
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