4 de junho de 2026

Relembrando Rubem Braga

Eu e Bebu na hora neutra da Madrugada –

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Crônica de Rubem Braga

Muitos homens, e até senhoras, já receberam a visita do Diabo, e conversaram com ele de um modo elegante e paradoxal. Centenas de escritores sem assunto inventaram uma palestra com o Diabo. Quanto a mim, o caso é diferente. Ele não entrou subitamente em meu quarto, não apareceu pelo buraco da fechadura, nem sob a luz vermelha do abajur. Passou um dia inteiro comigo. Descemos juntos o elevador, andamos pelas ruas, trabalhamos na Redação do Jornal e comemos juntos.

A principio confesso que estava um pouco inquieto. Quando fui comprar cigarros, receei que ele dirigisse algum galanteio baixo à moça da tabacaria. É uma senhorita de olhos (cor) de garapa e cabelos castanhos muito simples, porém muito bonitos que eu conheço e que me conhece, embora a gente não se cumprimente. Mas o Diabo se comportou honestamente. O dia todo – era um sábado – correu sem novidade. Ele esteve ao meu lado na mesa de trabalho na Redação, no restaurante, no engraxate, no salão do barbeiro. Eu lhe paguei o cafezinho; ele me pagou um refrigerante.

AtarÀ tarde, eu já não o chamava de “Belzebu”, mas apenas de “Bebu”, e ele me chamava simplesmente de “Rubem”. Nossa intimidade caminhava rapidamente, mesmo sem a gente esperar. Quando um cego nos pediu esmola, dei dois reais. É meu hábito, sempre dou dois reais. Ele deu uma nota de dez reais, não sei se por veneta ou porque não tinha mais miúdo. Conversamos pouco; não havia assunto.

À noite, depois do jantar, fomos ao cinema. . . Outra vez me voltou a inquietude que sentira pela manhã. Por coincidência, ele ficou sentado junto a duas mocinhas que eu conhecia vagamente, por serem amigas de uma prima que tenho no subúrbio. Temi que ele fosse inconveniente; eu é que ficaria constrangido. Vigiei-o durante a metade da fita, mas ele estava sossegado em sua cadeira; tranqüilizei-me. Foi então que reparei que ao meu lado esquerdo sentara-se uma moça que me pareceu muito bonita. Observei-a na penumbra. A sua pele era morena, e os cabelos lisos, negros e longos. Sentia a tepidez de seu corpo. Ela acompanhava o filme com muita atenção. Lentamente, toquei o seu braço com o meu; era fácil e natural; isto sempre acontece por acaso as pessoas que estão sentadas juntas no cinema. Mas aquela caricia banal me encheu as veias de desejo. Suavemente, deslizei a minha mão para a esquerda. A moça continuava olhando para o filme. Achei-a linda e tive a impressão de que ela sentia como eu estava emocionado, e que isto lhe dava prazer.

Mas neste momento, ouço um pequeno riso e viro-me. Bebu está me olhando. Na verdade não está rindo; está sério. Mas em seus olhos há qualquer malicia. Envergonhei-me como uma criança. O filme acabou e não falamos no incidente. Eu fui para a redação, e comecei a escrever alguma coisa, ele sentou-se ao meu lado – calado.

Só voltamos a conversar à vontade pela madrugada. A madrugada tem uma hora neutra que há muito tempo observo. É quando passo a tarde toda trabalhando, sem parar, e depois ainda trabalho até a meia-noite na redação. Estou fatigado, mas não me agrada dormir. E aí que vem, não sei como, a “tal hora neutra” da madrugada. Depois, eu e Bebu ficamos diante de uma garrafa de cerveja em um bar qualquer. Bebemos lentamente sem prazer e sem aborrecimento. Na minha cabeça havia uma vaga sensação de efervescência, alguma coisa morna, como um pequeno peso.  Isto sempre me acontece: é a madrugada, depois de um dia de trabalheiras cacetes. Conversamos não me lembro sobre o quê. Pedimos outra cerveja. Muitas vezes pedimos outra cerveja. Houve um momento em que olhei sua cara banal, seu ar de burocrata avariado, e disse:

– Bebu, você não parece o Diabo. É apenas, como se costuma dizer, um pobre-diabo.

– Ele me fitou com seus olhos escuros e flamejantes e disse:

– Um pobre-diabo é um pobre DEUS que fracassou.

– Disse isso sem solenidade nenhuma, como se não tivesse feito uma frase. De repente me perguntou se eu acreditava no Bem e no Mal. Não respondi; eu não acreditava.

Mas a nossa conversa estava ficando ridícula. Desagradava-me falar sobre esses assuntos vagos e solenes. Disse-lhe isto, mas ele não me deu a menor atenção. Grunhiu apenas:

– Existem.

– Depois afrouxou o laço da gravata e falou:

– Há o Bem e o Mal, mas não é como você pensa. Afinal quem é você? Em que você pensa? Com certeza naquela moça que vende cigarros, de olhos de garapa, de cabelos castanhos…

Estas palavras de Bebu me desagradaram. Ele dissera exatamente como por acaso: aquela moça de olhos de garapa. . . Era assim que eu me exprimia mentalmente, era esta a imagem que me vinha à cabeça sempre que pensava nos olhos daquela linda moça.

Sei que não é uma comparação nova; há muitos olhos que tem aquela mesma cor meio verde, meio escura, de caldo de cana; eu já vi essa imagem em uma poesia, não lembro de quem. Mas a coincidência era alarmante; não podia ser coincidência. O Bebu lia o meu pensamento, e, o que era pior, lia sem nenhum interesse, como se lê um “jornal de anteontem”. Isso me irritou profundamente:

– Ora, Bebu, não se trata de mim. Você estava falando do Bem e do Mal. Uma conversa besta. . .

– Ele não ligou… – e disse:

– Está bem, Rubem: o Bem e o Mal existem, fique sabendo. Você morou muito tempo em São José do Rio Branco, não morou?

– Estive lá quase dois anos – respondi. Trabalhava com meu Tio. Um lugarzinho parado. .

– Bem – disse – Bebu – Lá havia um Prefeito, um velho Prefeito, o Coronel Barbirato. Mas o nome não tem importância. Imagine isto: uma cidade pequena onde há sempre um Prefeito, o mesmo Prefeito. Esse Prefeito nunca será deposto, nunca deixará de ser reeleito, sempre será ele o Prefeito. E há também um homem que lhe faz oposição. Esse homem uma vez quis depor o Prefeito, mas foi derrotado e o será sempre. O povo da cidade teme, aborrece, estima, odeia o Prefeito; não importa. Pois é isto.

– Bebu pôs mais um pouco de cerveja no copo e continuou falando:

– É isto: o Bem e o Mal. O Prefeito acha que os bancos do jardim devem ser colocados diante da Igreja: isto é o Bem. O homem da oposição acha que eles devem ficar em volta do coreto? Isto é o Mal. Entretanto. . .

– Bebu – deixe de ser chato – rebati.

– Ele retruca – Não amole. Você sabe a minha história. Fiz uma revolução contra DEUS. Perdi, fui vencido, fui exilado; nunca tive e nem implorei anistia. DEUS me venceu para todos os séculos, para a eternidade. É o Prefeito eterno, ninguém pode fazer nada. Agora, se tem coragem, imagine isto: eu saio de meu inferno uma bela tarde, junto todo o meu pessoal, faço uma campanha de radiodifusão, arranjo armamento, vou até o Paraíso e derroto aquele patife. Expulso de lá aquela canalhada toda, todas aquelas onze mil virgens, aquela santaria imunda que vocês tanto falam. O que acontece?

– Eu não respondi. Irritava-me aquele modo de Bebu de falar. Aí Bebu continuou com mais veemência:

– Acontece isto – seu animal: não acontece nada! Você reparou quando uma revolução vence? Os homens se renderão diante do fato consumado. O Bem será o Mal, e o Mal será o Bem. Quem passou a vida adulando DEUS irá para o inferno para deixar de ser imbecil. Eu farei a derrubada: em vez de Anjinhos, os capetinhas; em vez de Santos, os demônios. Tudo será a mesma coisa, mas exatamente o contrário. Não precisarei nem modificar as religiões. Só mudar uma palavra nos Livros Santos: onde estiver “não”, escrever “sim”, onde estiver “pecado”, escrever “virtude”. E o mundo tocará para frente. Vocês não seguirão a minha Lei, assim como nunca seguiram e não seguem a DELE; não importa, será sempre a Lei.

– Eu me sentia atordoado. Percebi que lá fora, na rua, as lâmpadas se apagavam e murmurei: já são seis horas! – Bebu falava com um ar de desconsolo:

– Mas não pense nisto. Aquele patife, o teu DEUS, está firme. É possível depô-lo? Não! É impossível! Impossível! . .

– Olhei a sua cara. Dentro de seus olhos, no fundo deles, muito longe, havia um brilho. Era uma pequena, miserável esperança, muito distante. Mas, todavia irredutível. Senti pena do Bebu. É estranho, eu não posso olhar uma pessoa assim, no fundo dos olhos, sem sentir pena. Fui consolando:

– Enfim, meu caro Bebu, não adiantaria coisa alguma. Você como está, vai bem. Tem seu prestigio. . .

– É – Eu estou bem? Canalha! Retrucou-me! – Pensa que, quando me revoltei, foi à toa? Conhece o meu Programa de Governo? Sabe qual foram os ideais que me levaram a luta? Pode explicar por que, através de todos os séculos e séculos, desde que o mundo não era mundo até hoje, até sempre, fui eu, Lúcifer, o único que teve peito pra se revoltar? Você sabe que, modéstia a parte, eu era o melhor da Turma? Eu era o mais brilhante, o mais feliz, o mais puro, era feito de Luz. Por que é que me levantei contra ELE, arriscando tudo? O Governo atual diz que eu fui movido pela ambição e pela vaidade. Mas todos os Governos do mundo dizem isto de todos os revolucionários fracassados! Olhe, você é tão burro que eu vou lhe dizer. Esta joça não ficava assim não. Eu podia lhe contar o meu Programa de Governo; não conto, não conto porque não sou nenhum desses políticos idiotas que vivem salvando a pátria com suas plataformas e o povo mais imbecil ainda – pois acredita! Mas reflita um pouco, meu animal. DEUS me derrotou, me esmagou, e nunca nenhum vencedor foi mais infame para com um vencido. Mas pelo amor que você tem a esse canalha, diga-me: o que é que ele fez até agora? A vida que ele organizou e que ele dirige não é uma miséria? – uma porca miséria? Você sabe perfeitamente disto. Os homens não sofrem, não se matam, não vivem fazendo burradas? É impossível esconder o fracasso. DEUS fracassou, fracassou mi-se-ra-vel-men-te! Vocês – os homens o fizeram fracassar! E agora, vamos, por pior que eu fosse, acha possível camarada, acha possível que eu organizasse um mundo tão ridículo, tão sujo, com homens dessa natureza – fazendo o que querem e o que lhes convêm?

– Não respondi a Bebu. Esvaziamos em silêncio o último copo de cerveja. Eu ia pedir outra, mas refleti amargamente que não tinha mais dinheiro no bolso. Ele, por sua vez, constatou o mesmo. Saímos. Lá fora já era dia:

– Puxa vida! Que sol claro, Bebu! Isto deve ser sete horas. Andamos até a esquina da Avenida.

– Ele me perguntou?

– Onde é que você vai?

– Respondi-lhe – vou dormir. E você?

– Bebu me olhou com seus olhos escuros e respondeu com um sorriso de anjo:

– Vou à missa. . .

      * * *                                         * * *                                   * * *

Trinta anos depois (1963) o amigo Carlos Drummond de Andrade descreve sobre Rubem Braga:

Pois um rapaz assim, apaixonado (à sua maneira) pela loura filha do Clarindo, um dia nos aparece correspondente do jornal no “front” da Revolução Constitucionalista de 1932, e logo se boqueja que ele era um espião terrível dos paulistas entre mineiros, espião que seria conveniente prender, submeter a corte marcial e, quem sabe, fuzilar. Oh, imaginação! (Mas a cara dele era meio russa, não sei.) Numa crônica, Braga confessa: “Eu era espião; era espião da vida no meio da morte. A guerra era demasiado estúpida para não me fazer sorrir, eu não reconhecia aliados nem inimigos; apenas via homens pobres se matando para bem dos homens ricos; apenas via o Brasil se matando com armas estrangeiras”. Quem via essas coisas, sem a névoa passional que perturbava tanta gente, era um mocinho de 19 anos, que escreveria aos 34: “Eu observo as coisas com dois olhos que, embora castanhos e mesmo tirantes a verde, vêem este mundo com bastante clareza”.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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  1. Erivelto Reis

    17 de dezembro de 2018 12:25 am

    Segue a versão original do texto

     

    Prezados (as) segue o texto revisado, conquanto o texto publicado contenha disparidades em relação ao original. Tais disparidades, muito mais do que possíveis “gralhas” de digitação, contém acréscimos de palavras e de frases inteiras, de aspas, do recurso da inicial maíuscula como e da caixa alta – não presentes no texto origial, supressões, desvios gramaticais, e diferenças em relação à pontuação e acentuação. Parabenizo pela publicação de uma crônica do grandioso  cronista brasileiro – um dos maiores escritores brasileiros em todos os tempos -, Rubem Braga. Saudações. Cordialmente, Erivelto Reis.

     

    DA OBRA UM PÉ DE MILHO

    EU E BEBU NA HORA NEUTRA DA MADRUGADA

    Rubem Braga

    BRAGA, Rubem. “Eu e Bebu na hora neutra da madrugada”. In.: ______. 200 crônicas escolhidas. (Seleção original de textos realizada por Fernando Sabino). 36. ed.. Rio de Janeiro: Record, 2013, p. 63-67.

    Muitos homens, e até senhoras, já receberam a visita do Diabo, e conversaram com ele de um modo elegante e paradoxal. Centenas de escritores sem assunto inventaram uma palestra com o Diabo. Quanto a mim, o caso é diferente. Ele não entrou subitamente em meu quarto, não apareceu pelo buraco da fechadura, nem sob a luz vermelha do abajur. Passou um dia inteiro comigo. Descemos juntos o elevador, andamos pelas ruas, trabalhamos na Redação do Jornal e comemos juntos.

    A princípio confesso que estava um pouco inquieto. Quando fui comprar cigarros, receei que ele dirigisse algum galanteio baixo à moça da tabacaria. É uma senhorita de olhos cor de garapa e cabelos castanhos muito simples, porém muito bonitos que eu conheço e que me conhece, embora a gente não se cumprimente. Mas o Diabo se comportou honestamente. O dia todo – era um sábado – correu sem novidade. Ele esteve ao meu lado na mesa de trabalho na Redação, no restaurante, no engraxate, no salão do barbeiro. Eu lhe paguei o cafezinho; ele me pagou o bonde.

    À tarde, eu já não o chamava de “Belzebu”, mas apenas de “Bebu”, e ele me chamava simplesmente de “Rubem”. Nossa intimidade caminhava rapidamente, mesmo sem a gente esperar. Quando um cego nos pediu esmola, dei duzentos réis. É meu hábito, sempre dou duzentos réis. Ele deu uma prata de dois mil réis, não sei se por veneta ou porque não tinha mais miúdo. Conversamos pouco; não havia assunto.

    À noite, depois do jantar, fomos ao cinema. . . Outra vez me voltou a inquietude que sentira pela manhã. Por coincidência, ele ficou sentado junto a duas mocinhas que eu conhecia vagamente, por serem amigas de uma prima que tenho no subúrbio. Temi que ele fosse inconveniente; eu é que ficaria constrangido. Vigiei-o durante a metade da fita, mas ele estava sossegado em sua cadeira; tranquilizei-me. Foi então que reparei que ao meu lado esquerdo sentara-se uma moça que me pareceu muito bonita. Observei-a na penumbra. A sua pele era morena, e os cabelos lisos, negros e longos. Sentia a tepidez de seu corpo. Ela acompanhava o filme com muita atenção. Lentamente, toquei o seu braço com o meu; era fácil e natural; isto sempre acontece por acaso as pessoas que estão sentadas juntas no cinema. Mas aquela caricia banal me encheu as veias de desejo. Suavemente, deslizei a minha mão para a esquerda. A moça continuava olhando para o filme. Achei-a linda e tive a impressão de que ela sentia como eu estava emocionado, e que isto lhe dava prazer.

    Mas neste momento, ouço um pequeno riso e viro-me. Bebu está me olhando. Na verdade não está rindo; está sério. Mas em seus olhos há qualquer malicia. Envergonhei-me como uma criança. A fita acabou e não falamos no incidente. Eu fui para a redação, e comecei a escrever alguma coisa, ele sentou-se ao meu lado – calado.

    Só voltamos a conversar à vontade pela madrugada. A madrugada tem uma hora neutra que há muito tempo observo. É quando passo a tarde toda trabalhando, sem parar, e depois ainda trabalho até a meia-noite na redação. Estou fatigado, mas não me agrada dormir. E aí que vem, não sei como, a hora neutra da madrugada. Depois, eu e Bebu ficamos diante de uma garrafa de cerveja em um bar qualquer. Bebemos lentamente sem prazer e sem aborrecimento. Na minha cabeça havia uma vaga sensação de efervescência, alguma coisa morna, como um pequeno peso.  Isto sempre me acontece: é a madrugada, depois de um dia de trabalheiras cacetes. Conversamos não me lembro sobre o quê. Pedimos outra cerveja. Muitas vezes pedimos outra cerveja. Houve um momento em que olhei sua cara banal, seu ar de burocrata avariado, e disse:

    ─ Bebu, você não parece o Diabo. É apenas, como se costuma dizer, um pobre-diabo.

    ─ Ele me fitou com seus olhos escuros e flamejantes e disse:

    ­            ─ Um pobre-diabo é um pobre Deus que fracassou.

    Disse isso sem solenidade nenhuma, como se não tivesse feito uma frase. De repente me perguntou se eu acreditava no Bem e no Mal. Não respondi; eu não acreditava.

    Mas a nossa conversa estava ficando ridícula. Desagradava-me falar sobre esses assuntos vagos e solenes. Disse-lhe isto, mas ele não me deu a menor atenção. Grunhiu apenas:

    ─ Existem.

     Depois afrouxou o laço da gravata e falou:

    ─ Há o Bem e o Mal, mas não é como você pensa. Afinal quem é você? Em que você pensa? Com certeza naquela moça que vende cigarros, de olhos de garapa, de cabelos castanhos…

    Estas palavras de Bebu me desagradaram. Ele dissera exatamente como por acaso: aquela moça de olhos de garapa. . . Era assim que eu me exprimia mentalmente, era esta a imagem que me vinha à cabeça sempre que pensava nos olhos daquela senhorinha.

    Sei que não é uma comparação nova; há muitos olhos que têm aquela mesma cor meio verde, meio escura, de caldo de cana; e até eu já vi essa imagem em uma poesia, não lembro de quem. Mas a coincidência era alarmante: não podia ser coincidência. O Bebu lia no meu pensamento, e, o que era pior, lia sem nenhum interesse, como se lê um jornal de anteontem. Isso me irritou profundamente:

    ─ Ora, Bebu, não se trata de mim. Você estava falando do Bem e do Mal. Uma conversa besta. . .

     Ele não ligou… – e disse:

    ─ Está bem, Rubem: o Bem e o Mal existem, fique sabendo. Você morou muito tempo em São José do Rio Branco, não morou?

    ─ Estive lá quase dois anos – respondi. Trabalhava com meu Tio. Um lugarzinho parado. .

    – Bem – disse – Bebu – Lá havia um Prefeito, um velho prefeito, o Coronel Barbirato. Mas o nome não tem importância. Imagine isto: uma cidade pequena onde há sempre um prefeito, o mesmo prefeito. Esse prefeito nunca será deposto, nunca deixará de ser reeleito, sempre será ele o prefeito. E há também um homem que lhe faz oposição. Esse homem uma vez quis depor o prefeito, mas foi derrotado e o será sempre. O povo da cidade teme, aborrece, estima, odeia o prefeito; não importa. Pois é isto.

     Bebu pôs mais um pouco de cerveja no copo e continuou falando:

    ─ É isto: o Bem e o Mal. O prefeito acha que os bancos do jardim devem ser colocados diante da igreja: isto é o Bem. O homem da oposição acha que eles devem ficar em volta do coreto? Isto é o Mal. Entretanto. . .

    ─ Bebu, deixe de ser chato.

    ─ Não amole. Você sabe a minha história. Fiz uma revolução contra Deus. Perdi, fui vencido, fui exilado; nunca tive e nem implorei anistia. Deus me venceu para todos os séculos, para a eternidade. É o prefeito eterno, ninguém pode fazer nada. Agora, se tem coragem, imagine isto: eu saio de meu inferno uma bela tarde, junto todo o meu pessoal, faço uma campanha de radiodifusão, arranjo armamento, vou até o Paraíso e derroto aquele patife. Expulso de lá aquela canalhada toda, todas aquelas onze mil virgens, aquela santaria imunda. O que acontece?

    Eu não respondi. Irritava-me aquele modo de Bebu de falar. Aí Bebu continuou com mais veemência:

    ─ Acontece isto, seu animal: não acontece nada! Você reparou quando uma revolução vence? Os homens se renderão diante do fato consumado. O Bem será o Mal, e o Mal será o Bem. Quem passou a vida adulando Deus irá para o inferno para deixar de ser imbecil. Eu farei a derrubada: em vez de anjinhos, os capetinhas; em vez de santos, os demônios. Tudo será a mesma coisa, mas exatamente o contrário. Não precisarei nem modificar as religiões. Só mudar uma palavra nos livros santos: onde estiver “não”, escrever “sim”, onde estiver “pecado”, escrever “virtude”. E o mundo tocará para frente. Vocês não seguirão a minha lei, assim como nunca seguiram e não seguem a dele; não importa, será sempre a lei.

     Eu me sentia atordoado. Percebi que lá fora, na rua, as lâmpadas se apagavam e murmurei: já são seis horas! – Bebu falava com um ar de desconsolo:

    ─ Mas não pense nisto. Aquele patife está firme. É possível depô-lo? Não! É impossível! Impossível. . .

    Olhei a sua cara. Dentro de seus olhos, no fundo deles, muito longe, havia um brilho. Era uma pequena, miserável esperança, muito distante. Mas, todavia irredutível. Senti pena do Bebu. É estranho, eu não posso olhar uma pessoa assim, no fundo dos olhos, sem sentir pena. Fui consolando:

    ─ Enfim, meu caro Bebu, não adiantaria coisa alguma. Você como está, vai bem. Tem seu prestígio. . .

    ─ Eu estou bem? Canalha! Pensa que, quando me revoltei, foi à toa? Conhece o meu programa de governo? Sabe qual foram os ideais que me levaram à luta? Pode explicar por que, através de todos os séculos e séculos, desde que o mundo não era mundo até hoje, até sempre, fui eu, Lúcifer, o único que teve peito pra se revoltar? Você sabe que, modéstia à parte, eu era o melhor da turma? Eu era o mais brilhante, o mais feliz, o mais puro, era feito de luz. Por que é que me levantei contra ele, arriscando tudo? O Governo atual diz que eu fui movido pela ambição e pela vaidade. Mas todos os governos dizem isto de todos os revolucionários fracassados! Olhe, você é tão burro que eu vou lhe dizer. Esta joça não ficava assim não. Eu podia lhe contar o meu programa; não conto, porque não sou nenhum desses políticos idiotas que vivem salvando a pátria com suas plataformas. Mas reflita um pouco, meu animal. Deus me derrotou, me esmagou, e nunca nenhum vencedor foi mais infame para com um vencido. Mas pelo amor que você tem a esse canalha, diga-me: o que é que ele fez até agora? A vida que ele organizou e que ele dirige não é uma miséria? – uma porca miséria? Você sabe perfeitamente disto. Os homens não sofrem, não se matam, não vivem fazendo burradas? É impossível esconder o fracasso. Deus fracassou, fracassou mi-se-ra-vel-men-te! E agora, vamos, me diga: por pior que eu fosse, acha possível, camarada, acha possível que eu organizasse um mundo tão ridículo, tão sujo?

    Não respondi a Bebu. Esvaziamos em silêncio o último copo de cerveja. Eu ia pedir outra, mas refleti amargamente que não tinha mais dinheiro no bolso. Ele, por sua vez, constatou o mesmo. Saímos. Lá fora já era dia:

    ─ Puxa vida! Que sol claro, Bebu! Isto deve ser sete horas. Andamos até a esquina da Avenida.

    Ele me perguntou?

    ─ Onde é que você vai?

    ─ Vou dormir. E você?

     Bebu me olhou com seus olhos escuros e respondeu com um sorriso de anjo:

    ─ Vou à missa. . .

     

    Julho, 1933

     

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