Os militares que armaram um autogolpe preventivo para evitar perder tudo nomearam uma comissão para reformar a constituição egípcia. Essa comissão formada por dez pessoas é liderada por Tareq al-Bishri, um conhecido islamista que afirma que “o secularismo e o Islã não podem concordar a não ser mediante uma falsificação [talfiq], ou se cada um se afastar do seu verdadeiro sentido”, e tem dois outros membros da Irmandade Muçulmana, que só se uniu às manifestações contra o regime depois que elas já haviam tomado as ruas e praças de todo o Egito. A junta deu à comissão dez dias para cozinhar uma constituição “reformada” que servirá como marco da “transição democrática”. A alta hierarquia militar do Egito, que está no centro do poder há 59 anos e é literalmente dona do país, prefere muito mais viver sob um regime islamista totalitário que lhe permita continuar tocando os seus negócios espúrios do mesmo modo que à sombra do Mubarak do que em uma democracia que com certeza acabaria mandando todos eles prà cadeia.
Daqui a alguns anos, depois que o Egito for rebatizado como “República Islâmica do Egito” e os seus generais, brigadeiros e almirantes “anti-islamistas” patrocinados pelo Ocidente se tiverem reciclado como bons e fiéis muçulmanos integristas, os imbecis dirão que era “inevitável”.
Mas lembrem-se de quem paga esses generais, quem os pôs no poder, quem apoiou a mão de ferro com que governaram o Egito nos últimos trinta anos, quem apóia o autogolpe deles – e quem lucrará com uma eventual liquidação da revolução democrática no Egito e em toda a região.
Deixe um comentário