A comparação procede sim. O simbolismo e a relevância história são semelhantes. A única diferença é que no caso de Getúlio foi o último lance político de uma guerra perdida, adiando o desenlace por alguns anos. No caso do Lula, foi a celebração da vtória.
Nassif o Merval ou o Chico Alencar que veio com esta comparação exdrúxula da carta de renúncia de um populista fracassado como Jânio e o discurdo do sucesso do governo do Lula.
O Merval e o Chilo Alencar comversaram ontem após o discurso do Lula ?
Merval Pereira, O Globo
A despedida do presidente Lula transmitida ontem em cadeia nacional de rádio e televisão tem pontos comuns com dois outros documentos que já fazem parte da história política recente do país, a carta-renúncia de Jânio Quadros de 25 de agosto de 1961 e, principalmente, a carta-testamento de Getúlio Vargas, de 23 de agosto de 1954.
Os momentos políticos são diferentes, evidentemente, mas os três textos são narrativas de corte populista e espelham a vontade de permanecer com papel ativo na política brasileira.
O deputado federal Chico Alencar, do PSOL do Rio, reassumiu momentaneamente seu lado de professor de História para identificar algumas dessas semelhanças.
O famoso ‘saio da vida para entrar na História’ de Getúlio tem como similar um ‘saio do governo para viver a vida das ruas’.
A presença quase mística, sempre que o ‘povo sofrido’ estiver humilhado, como Vargas destacou, tem o sucedâneo no ‘onde houver um brasileiro sofrendo quero estar espiritualmente ao seu lado’, e ‘que minha lembrança lhes traga um pouco de conforto’.
O tom épico, com alguma pitada dramática, também esteve presente na carta-renúncia de Jânio, naquele agosto de 1961.
De fato, existem essas e muitas outras semelhanças, sobretudo de tom populista , embora o texto da carta-testamento seja superior em termos de estilo e ênfase.
Getúlio Vargas, sabendo que, com o suicídio, transformava uma derrota em vitória política, escreveu: “E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém”. E com a certeza de que saía “da vida para entrar na história”.
Jânio Quadros, “vencido pela reação”, deixou o governo. “com o pensamento voltado para a nossa gente, para os estudantes, para os operários, para a grande família do Brasil”, encerrando “esta página da minha vida e da vida nacional”, mas, ao que tudo indica, esperava que a renúncia não fosse aceita para voltar ao governo com plenos poderes.
Todos os três colocam-se como defensores do povo. Jânio afirma na carta-renúncia: (…) “baldaram-se os meus esforços para conduzir esta nação, que pelo caminho de sua verdadeira libertação política e econômica, a única que possibilitaria o progresso efetivo e a justiça social, a que tem direito o seu generoso povo”.
Lula diz que se algum mérito teve “foi o de haver semeado sonho e esperança”. “Meu sonho e minha esperança vêm das profundezas da alma popular – do berço pobre que tive e da certeza que, com muita luta, coragem e trabalho, a gente supera qualquer dificuldade. E quando uma pessoa do povo consegue vencer as dificuldades gigantescas que a vida lhe impõe, nada mais consegue aniquilar o seu sonho, nem sua capacidade de superar desafios”.
Já Getúlio na sua carta-testamento, afirma: “Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes. Sigo o destino que me é imposto. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao Governo nos braços do povo”.
Tanto Lula quanto Getulio atacam “as elites”. Escreveu Getulio: “À campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário-mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar a liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. Não querem que o trabalhador seja livre. Não querem que o povo seja independente”.
Lula também usou a Petrobrás na sua despedida: “Também estamos fazendo os maiores investimentos mundiais no setor de petróleo, principalmente a partir da descoberta do pré-sal, que é o nosso passaporte para o futuro”.
E atacou os que governaram o país, segundo ele, com visão elitista: “Se governamos bem, foi principalmente porque conseguimos nos livrar da maldição elitista que fazia com que os dirigentes políticos deste grande país governassem apenas para 1/3 da população. E se esquecessem da maioria do seu povo, que parecia condenada à miséria e ao abandono eternos”.
Getúlio Vargas deixou em sua carta testamento um registro emocionado de sua ligação com o povo. “Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater a vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no meu pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta”.
Lula foi pelo mesmo caminho: “Minha felicidade estará sempre ligada à felicidade do meu povo. Onde houver um brasileiro sofrendo, quero estar espiritualmente ao seu lado. Onde houver uma mãe e um pai com desesperança, quero que minha lembrança lhes traga um pouco de conforto. Onde houver um jovem que queira sonhar grande, peço-lhe que olhe a minha história e veja que na vida nada é impossível.Vivi no coração do povo e nele quero continuar vivendo até o último dos meus dias”.
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