4 de junho de 2026

Post 2 – Visão de mundo cartesiana/newtoniana x Visão sistêmica

Continuo o primeiro post Refletindo sobre uma pedagogia ecológica a partir da proposta de sequência deixada nele : “(…) lembrarmos, mesmo que de forma breve, a origem da visão de mundo mecanicista/newtoniana para compreendermos o quanto ela se distancia de uma visão de mundo sistêmica que poderá vir a ser um novo paradigma para orientar uma nova escola.”  
 
No século XVII, René Descartes, brilhante matemático, considerado fundador da filosofia moderna, resolveu construir uma ciência completa da natureza cujos princípios fundamentais dispensariam a demonstração. Ele tinha convicção no conhecimento científico. Para ele “toda ciência é conhecimento certo e evidente”.  O método de Descartes é analítico, o que consiste em decompor pensamentos e problemas em suas partes componentes e em dispô-las em uma ordem lógica. Esse método analítico de raciocínio é a maior contribuição de Descartes ao pensamento científico moderno e provou ser extremamente útil no desenvolvimento de teorias científicas e na concretização de complexos projetos tecnológicos. O problema é que ele também levou à fragmentação característica do nosso pensamento em geral e das nossas disciplinas acadêmicas e ,sobretudo, levou-nos a acreditar que todos os aspectos dos fenômenos complexos podem ser compreendidos se reduzidos às suas partes constituintes.

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Na imensa maioria de nossas escolas o ensino ainda se apóia em :

– um conhecimento dividido por disciplinas estanques;

– um conteúdo dividido segundo sua complexidade: primeiro o mais simples, depois o mais complexo (ensino da escrita/leitura = letras-sílabas-palavras-frases-textos);

Outra conseqüência do cartesiasismo foi a devastadora destruição do meio ambiente, percebida de forma aguda  nos dias atuais. Isso foi possível porque a natureza era entendida como um sistema mecânico – uma máquina – que deveria ser dominada e controlada pela ciência.

Mas Descartes não pode fazer mais do que esboçar as linhas gerais de sua teoria dos fenômenos naturais e quem completou o seu sonho foi Isaac Newton. Newton desenvolveu uma completa formulação matemática da concepção mecanicista da natureza realizando uma síntese das obras de Copérnico e Kepler, Bacon, Galileu e Descartes.

A física newtoniana forneceu um sólido alicerce do pensamento científico até boa parte do século XX. Na obra Os princípios matemáticos de filosofia natural compreendem um sistema de definições, proposições e provas que os cientistas consideraram a descrição correta da natureza por mais de duzentos anos. Os princípios da mecânica newtoniana foram aplicadas inclusive nas ciências da sociedade humana, a base para o sistema de valores do Iluminismo e tiveram uma forte influência sobre o desenvolvimento do moderno pensamento econômico e político. Individualismo, direito de propriedade, mercados livres e governo representativo são ideais que podem ser atribuídos a Locke.

No entanto, Capra nos conta em seu livro O Ponto de Mutação que “ (…) Duas descobertas no campo da física, culminando na teoria da relatividade e na teoria quântica, pulverizaram todos os principais conceitos de visão de mundo cartesiana e da mecânica newtoniana. A noção de espaço e tempo absolutos, as partículas sólidas elementares, a substância material fundamental, a natureza estritamente causal dos fenômenos físicos e a descrição objetiva da natureza  – nenhum desses conceitos pôde ser estendido aos novos domínios em que a física agora penetrava.” (Capra,2001, pg.69)

O início da física moderna foi marcada por Albert Einstein. Ele introduziu duas tendências revolucionárias no pensamento científico: uma foi a teoria especial da relatividade; a outra, um novo modo de considerar a radiação eletromagnética, que se tornaria característico da teoria quântica, a teoria dos fenômenos atômicos. Mas o surpreendente foram as conclusões que chegaram os cientistas a partir dessa teoria:

“a descoberta do aspecto dual da matéria e do papel fundamental da probabilidade demoliu a noção clássica de objetos sólidos. A nível subatômico, os objetos materiais sólidos da física clássica dissolvem-se em padrões ondulatórios de probabilidades. Esse padrões, além disso, não representam probabilidades de coisas, mas probabilidades de interconexões. (…) Portanto, as partículas subatômicas não são ‘coisas’ mas interconexões entre ‘coisas’, e essas ‘coisas’, por sua vez, são interconexões entre outras ‘coisas’, e assim por diante.” (Capra,2001,pg.75)

As conclusões acima descritas permitem-nos analisar a nossa própria vida cotidiana. Embora possa ser a das mais comuns, é uma vida em relação entre vidas. Só fazemos sentido em relação a alguém, a uma situação, a um contexto. Sozinhos não somos coisa nenhuma, portanto, não existimos. Nesse sentido, a vida individual é uma particularidade da vida social, e mesmo assim, continuará sendo sempre uma vida social.

Poderíamos dizer que a vida social é uma teia dinâmica de eventos inter-relacionados. Nenhuma das vidas individuais de qualquer parte dessa teia é fundamental; todas elas decorrem da vida individual das outras partes do todo, e a coerência total de suas inter-relações determina a estrutura da teia.

Muito antes, Karl Marx em seus Manuscritos Econômicos-Filosóficos disse, de outra forma, o mesmo: “o indivíduo é o ser social. A exteriorização da sua vida – ainda que não apareça na forma imediata de uma exteriorização de vida coletiva, cumprida em união e ao mesmo tempo com outros – é, pois, uma exteriorização e confirmação da vida social. A vida individual e a vida genérica do homem não são distintas, por mais que, necessariamente, o modo de existência da vida individual seja um modo mais particular ou mais geral da vida genérica ,ou quanto mais a vida genérica seja uma vida individual mais particular ou geral.” (Marx, 1974,pg.76)

É preciso compreender que interconexões, multiplicidade, complexidade, teia dinâmica de relações e probabilidades  ,  são conceitos que começam a compor  discussões, pesquisas, colóquios de diversas áreas do conhecimento.

Assim como a percepção de mundo da Idade Média deu lugar a da Idade Clássica e esta cedeu passagem para a Modernidade – como  nos contou Foucault em seu livro As palavras e as Coisas – estamos diante de algo novo, ainda embrionário, que corrói nossas certezas a cada dia porque um novo modo de organizar o saber está sendo engendrado, daí minhas boas-vindas a possibilidade de se pensar em uma  pedagogia que ando chamando  de ecológica.

—————————————————-

Capra, F. O Ponto de Mutação: a ciência, a sociedade e a cultura emergente. 22a edição.São Paulo: Cultrix, 2001.

Foucault,M. As Palavras e as Coisas. 7a edição.São Paulo: Martins Fontes,1995.

Marx,K. Manuscritos Econômicos e Filosóficos.In: Os Pensadores. São Paulo:  Abril,1974.

—————————————————–

Para ilustrar esta discussão um trecho do filme de Berndt Capra O Ponto de Mutação (1991).

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados