5 de junho de 2026

O Blog e a canção dos exilados

Por Humberto Nascimento

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(correção: o nome correto do leitor, que me enviou por email, é Humberto Nascimento. O Humberto Miranda Nascimento é outro, comentarista cadastrado do Blog)

Carissimo Nassif,

Tomo a liberdade de utilizar o teu e-mail para dirigir-lhe algumas linhas que tentam traduzir todo o bem que o Blog me proporcionou neste ano que termina. Sei que o tempo é precioso, procurarei ser breve.

Através do acolhedor espaço criado por voce, pude me expressar com liberdade, parte de minha memoria. Voce nao pode imaginar o quanto isto foi benefico na minha vida. Diria, terapeutico.

Explico, mas antes, permita-me abrir um parentese contextual : muitos exilados vivem no passado, preso a um tempo, geralmente tragico, responsavel por rupturas marcantes na vida e o consequente abandono de seus paises. Alguns nao conseguem dar o passo adiante, seus pensamentos estao centrados na volta, no retorno ao Pais natal.

Enquanto o tempo passa vao se erguindo barreiras emocionais, sociais, climaticas, que se tornam obstaculos à adaptaçao ao Pais acolhedor ( no meu caso Canada). A sonhada integraçao se torna dificil, as vezes impossivel. O mito do retorno se instala.

Me refiro àquelas pessoas consideradas como “minorias”. Refugiados que chegam a um Pais desconhecido sem um diploma academico, nem formaçao profissional para fazer face a demanda de trabalho, além de nao falar a lingua e sem um tostao no bolso.

É o barco dos negros, dos indios, … vindo de toda parte do mundo fugindo da desgraça das guerras injustas e desiguais, da Ditadura. Sao aceitos, estao sa e salvos, mas ficam as margens de uma sociedade moderna.

Conheço muitas pessoas com este perfil e no qual me incluo. As consequencias nao sao animadoras, acabamos vivendo num “terceiro mundo” dentro do “primeiro mundo”, tentando curar feridas incuraveis.

O tempo passa, confesso que “sofria” desta nostalgia demolidora até o momento em que fui “contaminado” pela escritura.

O teu blog foi o condutor de uma luz que clareou a escuridao em que me encontrava imerso numa certa sindrome desesperadora do exilio que podia ter me levado ao suicidio. Tive pessoas proximas que chegaram a este desespero. Perdi um bom amigo, fazem 2 anos.

O incrivel fato de falar com pessoas, na minha lingua e livre de qualquer manipulaçao , me relacionar on line, com compatriotas que me deram todo ouvido, que me acompanharam como leitores me estimulando, apesar do meu sofrivel dominio gramatical e ser totalmente desconhecido, a continuar escrevendo, foi como desatar um grande nô que me sufocava la dentro de minhas entranhas.

Botar pra fora meu passado, neste contexto, mudou minha vida. Passei a viver o presente olhando para um futuro promissor.

Os torturantes pesadelos que vinham me visitar constantemente, tornando minhas noites interminaveis se transformaram em sonhos de reencontros com pessoas de bem, de comunidades solidarias, verdes, amarelas, azuis, brancas…

Nao sei se o fato de praticar a escritura provoca o efeito secundario de atiçar o apetite pela leitura. O fato é que depois de escrever cotidianamente contrai um incontrolavel gosto pela leitura. De repente, me tornei um rato de biblioteca com uma insaciavel fome de livros. Devoro tudo, me delicio provando todos os sabores literarios (acabo de saber que hoje é o centenario da morte de Tolstoï).

Acho que sofria de uma carencia intelectual ha décadas, e nao sabia.

Hoje, se pudesse aconselhar aos exilados que sofrem de nostalgia cronica receitaria: leia muito e escreva todos os dias e publique.

Posso dizer que 2010 foi o melhor ano de minha vida ! (comemoro um ano escrevendo no blog).

Ele foi fundamental para virar a pesada pagina de exilado.

Pra fechar o ano com chave de ouro, vieram as eleiçoes e com ela o estimulante sentimento de reengajamento numa luta contra os mesmos ditadores do passados, desta vez mascarados de sociais democratas, mas os mesmos usurpadores das riquezas do nosso territorio, alguns fantasiados com batinas para encobrir os coturnos pretos da direitona traiçoeira. Chegaram a nos empurrar, novamente, para a beira do abismo do segundo turno, tendo a frente da brigada o brucutu da midia caduca. Me lembrei de 89.

Gritei, gritei Tortura Nunca Mais, através de 3 posts marcados de sangue do passado. Juntaram-se ao grande clamor nacional, conseguimos unissono gritar Nao ao retrocesso. Vencemos.

Teve gosto de Desforra de 89, coroada com a força de uma brava veterana de luta.

Nassif, pra terminar: as novas armas (que voce maneja maestramente) e a moderna trincheira foram benvindas: a internet e o blog. Cabe a mim, como aprendiz, forjar palavra por palavra para puder usa-las daqui pra frente.

Passados 20 dias deste belo desfecho, ainda estou em estado de graça, enquanto as letras descansam e arrumo minhas malas para ir de encontro ao belo enigma do retorno.

Com palavras conseguir transmitir meus sentimentos, mas procuro uma que possa dimensionar todo o agradecimento que tenho a lhe fazer mas nao encontro.

Talvez consiga passar através de um forte abraço pessoal. Vou aguardar ansioso este dia.

De coraçao,

humberto
montréal, nov.2010 

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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