5 de junho de 2026

O doutorado de Serra

Atenção: o Idelber Avelar acaba de me avisar que a tese é legítima e ele possui cópia dela.

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Por H. C. Paes

Nassif, sei que consideras irrelevante toda a questão de diploma e pós-graduação do Serra. Até recentemente, eu também considerava.

Porém, comecei a ler na Internet histórias verossímeis – ou seja, não necessariamente verdadeiras – sobre como alguns personagens com história de militância democrática contra a ditadura, e supostamente de esquerda, teriam receio de que revirassem seu passado com muito detalhe.

Um caso emblemático seria o de Roberto Freire, que foi nomeado procurador do Incra pelo governo Médici… quando supostamente era comunista. O texto tece uma história sumamente factível de que Freire teria sempre se posicionado de forma estratégica para melar a formação de frentes amplas de esquerda: contra Brizola, contra Ciro, etc., se valendo de sua posição de cacique do PCB e do PPS. Ao mesmo tempo em que, com currículo impecável de bolchevista, seria tratado a pão-de-ló em visitas à Cortina de Ferro. A narrativa não se utiliza de documentos, e sim de fatos jornalísticos, de modo que não cita fontes, portanto não sei o quanto disso é verdade.

Outro caso emblemático seria o barraco FHC-Fundação Ford-CIA-Cebrap, sobre o qual não tenho elementos para julgar (embora FHC não tenha processado seus acusadores).

Hoje, o PHA publicou este texto, que lança descrença sobre a facilidade com que Serra conseguiu chegar, com seu currículo de líder estudantil de esquerda, aos Estados Unidos e lá viver em plena era Nixon/Ford e Operação Condor. PHA não gosta de Serra, tem um problema pessoal com ele e admite, tudo bem.

Porém, não é curioso que a tese do Serra não tenha vindo à tona? Quero dizer, a forma mais simples de resolver essas suspeitas seria mostrar a tese para todo mundo ver.

Estou numa universidade estadunidense, e tenho acesso aos recursos de comutação bibliográfica. Fiz o que certamente mais de um brasileiro que mora aqui já deve ter feito: fui à biblioteca da universidade, e pedi a uma dessas bibliotecárias eficientíssimas que me ajudasse a avaliar opções de ter acesso a essa tese.

O que apurei: (trabalho de quinze minutos, nada que se compare ao Stanley Burburinho)

i. A universidade de Cornell possui duas cópias dessa dissertação. Ambas estão emprestadas, com data de devolução… para o fim da primeira semana de outubro. (Conveniente isso, não?) Elas foram emprestadas no espaço de dois dias, pois uma está prevista para retorno no dia seis, e outra, no dia oito.

ii. Existe uma empresa que terceiriza o serviço de venda de cópias de teses depositadas em universidades estadunidenses. A tese de Serra está listada como indisponível para venda.

iii. Pedi para ter acesso a uma cópia mesmo assim. A bibliotecária – que em momento algum suspeitou da importância do pedido – me disse que, quando a biblioteca universitária recebe um pedido desses, ela envia uma solicitação de devolução a quem quer que esteja de posse da cópia. Porém, eles não podem obrigar a pessoa a devolver: no máximo, podem aplicar multas.

Desnecessário dizer que quem quer que tenha emprestado essa tese não tem intenção de torná-la pública, ou já o teria feito. Aliás, eu não me surpreenderia se jamais víssemos essa tese, pois nada impede quem a tem de destruí-la (e depois pagar a merreca de indenização que a universidade cobra).

(As únicas outras pessoas que devem possuir cópias dessa tese, além do dito-cujo, são seu orientador e os membros da banca examinadora.)

Bom, Serra agora é cachorro morto, e essa tese não fará diferença. É pena, contudo: eu adoraria saber o que o Serra disse do governo Allende (sua tese versa sobre a política econômica chilena nesse período). Talvez tenha sido música para os ouvidos de quem quer que o tenha ajudado a entrar nos EUA. 

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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1 Comentário
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  1. Fabio Rangel

    25 de junho de 2020 6:46 am

    Olá. KD a tese? Gostaria de ler.

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