4 de junho de 2026

Como era bom o Odebrecht de FHC, por Paulo Moreira Leite

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Do Brasil 247

Como era bom o Odebrecht de FHC

Paulo Moreira Leite

Vinte anos antes de Marcelo Odebrecht ser conduzido a carceragem da Polícia Federal em Curitiba, onde é mantido há sete meses em regime de prisão preventiva, Fernando Henrique Cardoso alinhavou suas opiniões a respeito de seu pai, Emílio Odebrecht, que hoje é presidente do Conselho de Administração da empresa.
 
As palavras estão registradas no Diário da Presidência, cujo primeiro volume está disponível nas livrarias. Na época, Emílio exercia, no organograma das empresas, as funções e responsabilidades que foram assumidas por seu filho, diretor-presidente no momento da prisão.

 
Em 1995 e 1996, período coberto pelo primeiro volume, o grupo Odebrecht estava com a imagem lanhada pelas descobertas da CPI dos Anões do Orçamento, onde chegou a ser apontado como uma espécie de cérebro das ações de rapinagem das verbas do Estado. Em várias passagens, Fernando Henrique assume outra visão de Emílio Odebrecht e não economiza  referências elogiosas. Chega a mostrar-se inconformado com a visão negativa que perseguia  o empresário. Também se mostra empolgado com a possibilidade da empreiteira sair-se bem numa disputa internacional. Chega a dizer: “parece que vamos ganhar.”
 
FHC ainda relata a participação de Emílio Odebrecht numa missão acessível apenas a quem tinha acesso fácil a seu gabinete: encaminhar um projeto de “organização do capitalismo brasileiro” com auxílio de recursos públicos a serem fornecidos pelo hoje tão mal falado BNDES.
 
Para quem tem interesse em entender a complexidade das relações entre empresários e governantes no país, determinados trechos têm uma utilidade óbvia. Na página 563, o presidente relata um jantar em companhia do ministro Luiz Felipe Lampréia, das Relações Exteriores. Comenta a notícia de que a Odebrecht está em vias de vencer uma concorrência internacional:
 
“(…) Ele (Lampréia) falou de sua viagem, parece que vamos  ganhar a construção de uma geradora de energia na Malásia, isso é muito importante. Lampréia me disse que a Odebrecht tem tido um desempenho associado aos mexicanos e a Brown Boveri, que é de suiços, enfim, se ganhamos é uma coisa importante para o Brasil penetrar na Asia.”
 
Dezoito páginas adiante, FHC volta à empreiteira e a Emílio Odebrecht. Repetindo uma observação que fizera numa passagem anterior, o então presidente da República avalia:
 
 (…)   Curioso. A firma Odebrecht ficou tão marcada pela CPI dos Anões do Orçamento, com o negócio da corrupção (o grifo é meu), e no entanto Emílio é um dos homens mais competentes do Brasil, em termos empresariais.”
 
Essa visão de competência permitiu que o Odebrecht amigo de FHC fosse chamado a participar de um projeto ambicioso de mudança estrutural do setor privado brasileiro:
 
“Ele veio discutir comigo uma espécie de radiografia dos grupos empresariais brasileiros. Eu queria conversar sobre isso com ele, acho que temos que organizar o capitalismo brasileiro e o BNDES é o grande instrumento para isso.”
 
Depois de descrever observações de Emílio Odebrecht a respeito de grupos empresariais de que poderiam ser incluídos nessa “organização do capitalismo”, o presidente conclui:
 
“Temos de ter uma ideia mais clara de quais vão ser os esteios dessa nova fase do Brasil,”escreve FHC, que dois anos antes, no discurso de posse, anunciara o fim da Era Vargas.
 
“E o Emílio deu informações preciosas.”
 
Na página 838, em visita a Luanda, Angola, Fernando Henrique relata uma “festa simpática com os brasileiros que vivem no  país”. Eles participam de uma obra que foi um marco nos investimentos internacionais da Odebrecht: a construção da usina de Capanda, iniciada em 1984, concluída em 2007, numa sociedade entre a empreiteira brasileira e uma empresa russa. Foi o primeiro investimento da Odebrecht na África. 
 
Na página 862, Emílio Odebrecht faz a última aparição  registrada pelo livro. Procura Fernando Henrique para “trazer uma proposta muito interessante de utilização da base aérea de Alcantara. Sobre isso tenho de que falar com o brigadeiro Lobo (ministro da Aeronáutica) mais adiante, é um acordo com a Boeing.”
 
Qual a conclusão que se pode tirar daí?
 
Não acho que as palavras generosas de FHC em relação ao principal dirigente da Odebrecht durante seu governo possuam qualquer conteúdo suspeito. Nenhum.
 
Apenas demonstram, na intimidade, uma situação que, em 2016, é tratada em tom de escândalo — quando envolvem a mesma empresa, os mesmos interesses, mas outro presidente.
 
A comparação  é útil do ponto de vista da educação política, portanto.
 
Toda vez que se denuncia a seletividade de investigações judiciais que envolvem alvos políticos, é comum ouvir uma observação sob encomenda: um segundo erro não justifica o primeiro, diz-se.
 
É verdade — como ensinava dona Nair, minha professora do primeiro ano primário.  
 
O problema é que o estudo da seletividade é o único recurso para se compreender o real significado de uma investigação que possui consequências políticas óbvias. Um erro não justifica o outro mas ajuda a entender o que se passa no país real.
 
 Ajuda a entender o que importa do ponto de vista da democracia e do Estado Democrático de Direitos:  fatos idênticos podem receber um tratamento diverso, conforme o político a ser acusado.
 
Aquilo que é natural para uns, torna-se criminoso para outros. O “vamos ganhar” de Fernando Henrique, referindo-se a uma concorrência internacional, parece normal — e é — em se tratando de um presidente do Brasil, falando de uma empresa brasileira. Mas o esforço de Lula para ampliar os mercados internacionais?
 
Um caso não desperta interesse nem é investigado. No outro, faz-se um escândalo que, na hipótese mais benigna, destina-se a eliminar uma liderança indesejada da vida pública.
 
É o que se aprende pela leitura combinada dos jornais do dia e do primeiro volume dos Diários da Presidência, de Fernando Henrique Cardoso.

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Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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17 Comentários
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  1. Ernesto do Lula

    1 de fevereiro de 2016 2:55 pm

    Pergunte aos Soteropolitanos

    Pergunte aos Soteropolitanos como o Emílio e o Marcelo são completamente diferentes…

  2. ljunior

    1 de fevereiro de 2016 3:08 pm

    Sinceramente…

    … quem acredita em jornal merece comer grama!

    Isto, claro, se tiver grama pra todo mundo…

    1. Wellington Lima

      1 de fevereiro de 2016 3:21 pm

      Como disse Raul Seixas: …
      Como disse Raul Seixas: … Não preciso ler jornais. Mentir sozinho eu sou capaz…

  3. Maria Luisa

    1 de fevereiro de 2016 3:17 pm

    Desvairados

    A caça ao Lula é tão escancarada, que quem tem respeito e consideração pelo ex-presidente, fica atônito. A diferença de tratamento aos dois ex-presidentes, tanto pela imprensa quanto pelo judiciario é tão discrepante, que não da para esconder que ha muito preconceito social em relação ao Lula e sua familia.

    Lula e sua esposa adquirem, em prestações, um imovel na praia. Lula, ex-presidente, pela primeira vez da entrada num apartamento num balneario de SP (longe do jet set do Nordeste) e se tornou um escândalo nacional sem cabimento.

    O nosso problema é que o Judiciario, a PF, o MP são reflexos do preconceito de classe impregnado na sociedade brasileira. Não se aceita que Lula possa comer caviar ou beber um Romanée Conti! E no caso em questão, não é nem caviar nem vinho caro. Ou seja: não é uma mansão, mas apenas um apartamento na praia, o que mutias familias de classe média adquirem também através de financiamento.

    Quanta probreza de espirito, meu Deus.

  4. mauro silva1

    1 de fevereiro de 2016 3:50 pm

    lembrando a. huxley

    “os animais rasteiros são os melhores mordedores”

  5. Joel Miranda

    1 de fevereiro de 2016 3:53 pm

    Amigos, às vezes ficamos
    Amigos, às vezes ficamos indignados com alguns comportamentos, nos parecem pontos de vistas equivocados, mas quando vamos mais fundo, percebemos mesmo que é pura má fé, quando não, canalhice!
    É o que faz hoje a mídia do PIG, a Globo, a Veja, a Folha e o Estadão!

  6. José Robson

    1 de fevereiro de 2016 4:16 pm

    Para fins midiáticos,

    o erro anterior não justifica o posterior. Mas se esquece de que o posterior não coonesta o anterior!

     

    1. Octavio

      1 de fevereiro de 2016 5:31 pm

      Um acerto justifica o outro. 

      Um acerto justifica o outro.  Afinal, querer que as empresas brasileiras tenham mais negócios não é nenhum erro. Tanto que ninguém criticou o FHC por isto.

  7. Algaravia

    1 de fevereiro de 2016 5:09 pm

    É tudo uma questão de elegância, diz Flávio de Castro

    O país dos elegantes, por Flávio de Castro

     

       Em, 31/01/2016 – 16:23   http://72.55.165.238/noticia/o-pais-dos-elegantes-por-flavio-de-castro

    De sua conta no Facebook

    Eu confesso que não sei a verdade: não sei se Lula é ou não dono de um triplex no Guarujá como não sei se FHC é ou não dono de um apartamento na Avenue Foch, em Paris.

    Sei apenas que a presunção de ser dono de um triplex no Guarujá é inequivocamente associada à corrupção e a presunção de ser dono de um apartamento em Paris não tem nada a ver, obviamente, com corrupção.

    Especialmente se o apê do Guarujá for um tanto novo-rico e o apê de Paris, um tanto elegante.

    A questão é estética.

    Lula carregando uma caixa de isopor e sendo dono de um barco de lata é uma cômica farofa. Se FHC carregasse uma caixa de isopor e fosse dono de um barco de lata seria uma concessão à humildade.

    A questão é classista.

    Um Odebrecht sentado à mesa com FHC é um empresário rico. O mesmo Odebrecht sentado à mesa com Lula é um pagador de propina.

    Nada disso tem a ver com corrupção. Nada disso revela qualquer preocupação com o país.

    A cada dia que passa, é mais evidente que o que está em discussão é quem são os verdadeiros donos do poder.

    E os donos legítimos do poder são os elegantes. Aqueles com relação aos quais não interessa saber como amealharam riqueza porque, simplesmente, a riqueza lhes cai bem.

    A casa grande tem um perfume que inebria toda a lavoura arcaica e sensibiliza até a senzala. É o que estamos assistindo.

    Tudo o mais, tudo o que não é casa grande é Lula e os amigos de Lula!

    A questão é preconceito.

    Vejam como um fraque cai naturalmente bem em FHC. Um fraque assim em Lula, certamente, deveria ter sido roubado.

    O Brasil é o país dos elegantes. De uma elegância classista, racista e preconceituosa deitada eternamente no berço esplêndido do aristocrático século XIX.

    [FHC, por favor, levante a gravata do seu lado direito, está um pouco torta, isso, perfeito!]

    Flávio de Castro professor de arquitetura da UNIFEMM 

    1. wendel

      1 de fevereiro de 2016 10:05 pm

      Então………………….

      Flavio voce dissi tudo, e eu assino em baixo “

      “A casa grande tem um perfume que inebria toda a lavoura arcaica e sensibiliza até a senzala. É o que estamos assistindo.”

      Infelizmente os que foram beneficiados pelos programas sociais nos governos Lula e Dilma, hj, estão apunhalando seus benfeitores. Fazer o quê se a plebe ingnara, não tem capacidade de se desvencilhar das manipulações que, muito bem feitas, são feitas !!!

  8. altamiro souza

    1 de fevereiro de 2016 10:21 pm

    essa ótimo artigo permite-me

    essa ótimo artigo permite-me lembrar de um fato ocorrido hoje

    de manhã no mau dia brasil, da globo…

    o repórter lê a nota de repúio do instituo lula às falsas denúncias,

    mas o tom de voz e o jeito de abordar o assunto parece que denota mais

    uma acusação do que uma defesa do ex-presidente….

    é como aquela matéria da folha, que diz que lula gosta de pescar no sítio de atibaia….

    quer dizer, a grande mídia demoniza alguém, ou um local, ou um objeto,

    sei lá, e isso passa a ser criminalizado  apenas por  ser citado….

    fslar em bancoop. guarujá, atibaia, etc, é falar em corrupção….

    é como se todo dia a grande mídia repetisse o tempo todo que frias

    participou ativamente com um dos seus jornais das torturas junto com civis e

     paramilitares nos tempos da ditadura….

    (ver livro cães de guarda, de beatriz kushnir)

  9. Marcos Antônio

    1 de fevereiro de 2016 11:07 pm

    Esse é o ponto.

    O que IRRITA É ISSO!

    A justiça tem que agir contra o crime!

    Se o criminoso for PETISTA, que prenda!

    O que NÃO DÁ PARA SUPORTAR É: NÃO PRENDER RICO E QUEM É DO PARTIDO OU AMIGO DOS RICOS!

    Rico ladrão e rico do psdb – NÃO PODEM TER SALVO CONDUTO!

    Macula a justiça e ela se torna INJUSTA E SEM MORAL PARA COBRAR COMPORTAMENTO JUSTO DA SOCIEDADE!

  10. Meire

    1 de fevereiro de 2016 11:18 pm

    fhc, VELHA CORRUPTA.

    fhc, VELHA CORRUPTA.

  11. peregrino

    1 de fevereiro de 2016 11:27 pm

    e certamente o governo FHC gerou vários consultores…

    seriam concorrentes à altura do Dirceu,  atualmente, caso ele estivesse em liberdade, atuante e sem a 470 cravada no peito?

    1. peregrino

      1 de fevereiro de 2016 11:29 pm

      o ponto é esse, gente…

      não é interesse de mercado, é interesse pelo mercado de consultoria

  12. fabio GM

    2 de fevereiro de 2016 12:19 am

    Despulpa

    Muito simples, as pessoas iram dizer, que um crime anterior ( mesmo que naquela epoca não era crime ) não é desculpa para cometer o mesmo crime atualmente ( pois hoje, parece que se reunir come empresarios é crime).

     

  13. Ricardo S

    2 de fevereiro de 2016 3:19 am

    E foi FHC, e não Lula, quem

    E foi FHC, e não Lula, quem ainda no exercício do cargo, chamou empresários à Brasília, e entre estes, Emílio Odebrecht, para solicitar dinheiro, para fins particulares: a criação do seu Instituto FHC. 

    “Corrigidas pelo IGP-M, as doações de 12 empresas, brasileiras e estrangeiras, feitas para a para a criação do Instituto FHC equivaleriam a R$ 16.315.525,10. A afirmação é do site Brasil 247, que fez o levantamento… O evento foi divulgado como uma “noite de gala” pela revista Época. Contudo, a grande mídia destaca hoje como “escândalo” a doação de R$ 3 milhões recebida pelo Instituto Lula da Camargo Correa, entre 2011 e 2013. …O jantar em que FHC passou o chapéu entre empresários amigos foi descrito em detalhes pela revista Época. Além de Luiz Nascimento, da Camargo Corrêa, participaram Jorge Gerdau (Grupo Gerdau), David Feffer (Suzano), Emílio Odebrecht (Odebrecht) e Pedro Piva (Klabin), entre outros empresários”. 

    O problema não é uma empresa doar a um Instituto de ex-presidente da República. O problema é um presidente exercendo o cargo solicitar doação de dinheiro a empresas que tem negócios e contratos com o governo. 

    O que diz o código penal:Código penal – Corrupção passiva:Art. 317 Solicitar ou receber, p/ si ou p/ outrem, direta ou indiretamente, ainda que fora da função ou antes de assumi-la, mas em razão dela, vantagem indevida, ou aceitar promessa de tal vantagem: Pena – reclusão, de 1 a 8 anos, e multa.

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