
Códices Mexicanos em mostra na USP
por Walnice Nogueira Galvão
Quem diz que os povos mesoamericanos não possuíam escrita revela uma estreita e preconceituosa visão etnocêntrica: eles só não usavam o alfabeto latino, que é o nosso. Árabes, chineses, indianos, tampouco o usam hoje. E no passado havia a escrita cuneiforme dos assírios e babilônios, a hieroglífica dos egípcios, e assim por diante. Todas, antigas ou modernas, bem ilustres.
Os povos mesoamericanos incluem os maias e os vários do império azteca: toltecas, otomíes, olmecas, zapotecas, tlascaltecas, chichimecas, mixtecas etc. Esses povos inventaram uma escrita mista, isto é, em parte ideográfica (como a egípcia, com figuras que correspondem a ideias ou conceitos) e em parte fonética (ou seja, a determinado desenho corresponde um som ou sílaba).
Podemos apreciá-la em dois tipos de códices, que são livros em forma de rolo ou sanfonados, feitos de casca de árvore, pano ou couro.
Primeiro tipo, os códices pré-colombianos, compostos antes da chegada dos conquistadores espanhois, e que foram sistematicamente confiscados e queimados, a tal ponto que só restaram doze. Diziam deles que eram obra do diabo, divulgando doutrinas heréticas e pagãs. Entretidos com o genocídio a que se entregavam, os conquistadores cometiam também o crime de etnocídio, aniquilando o precioso acervo de toda uma civilização.
Segundo tipo, os códices coloniais, pós-Conquista, desenhados por artistas-escribas nativos mas com explicações em espanhol ou em língua indígena transcrita em alfabeto latino. Desses, subsistem cerca de uma centena.
A beleza dos códices reside nos desenhos multicores, que representam seres humanos, animais e pássaros; sinais reconhecíveis como pegadas no chão; ou entes fantásticos em trajes de cerimônia, cobertos de esplêndidos toucados plumários e guirlandas florais. Do que é que falam? Falam de cosmogonias e teogonias, de como o universo e os deuses surgiram, da origem do fogo, da criação dos homens e mulheres. Outros trazem a crônica dos muitos reinados, meio míticos meio históricos. Outros servem ao almoxarifado, registrando os bens que se encontram na reserva dos celeiros: quantos alqueires de cacau, quantos cestos de cereais, quantos jarros de bebida, e assim por diante. Alguns trazem pura poesia, tal como a entendemos; e contos, sejam de fadas, sejam romances de amor. Muitos eram repositórios de textos sagrados, como a Bíblia para o Ocidente cristão. A notar a “vírgula da palavra”, que sai da boca das personagens, simbolizando a fala, tal como os balões das histórias em quadrinhos atuais. Quando simples, indicam fala, quando ornamentadas indicam canto.
É provável que os códices servissem à liturgia e ao cerimonial, para leitura coletiva em voz alta. E também ao aprendizado nas escolas – sim, porque havia escolas, e elas são mostradas nos desenhos.
Dispersos, encontraram guarida em bibliotecas na Europa. Por isso muitos são conhecidos pelo nome da coleção a que pertencem, como o Códice Vaticano (aliás, mais de um), o Códice Borgia, o Códice Bourbônico. Ou então pelo nome da cidade onde foram parar, como o Códice Dresden.
Despojos dos saques de conquistadores – deduz-se. Foi esse o destino da magnífica coroa de um metro de diâmetro de Montezuma, último imperador azteca, toda de ouro com longas plumas verde-azul furtacor do quetzal, sua ave sagrada. A coroa exibida no Museu de Antropologia do México – com seus tesouros incalculáveis – é mera cópia da original, propriedade do Museu de Viena. É revoltante, mas até hoje a original, esse objeto cheio de aura, sequestrado de seu povo, está lá: desde que o imperador austríaco Carlos V a recebeu de presente de seus súditos espanhois.
Das belas reedições que o México costuma fazer dos códices, vale lembrar que a USP possui nove, para pesquisa dos estudiosos que se dedicam a essa notável civilização e a seus povos. Povos que nos legaram – afora uma grandiosa arquitetura, escultura, ourivesaria, tecelagem, pintura, cerâmica – o chocolate, a batata, o tomate, o milho, a tequila e outras preciosidades, hoje patrimônio comum da humanidade que tão mal os tratou.

Jofran Oliva
11 de agosto de 2017 3:34 amEstou estudando sobre a cultura. . .
Estou estudando sobre a cultura mesoamericana pré colombiana, Aztecas, Maias, em um curso à distância de história pela UEM (Universidade Estadual de Maringá), mas não tinha conhecimento sobre esses códices e o sistema de escrita desses povos, muito enriquecedora essa informação. Parabéns pela postagem Walnice.