27 de junho de 2026

A melhor época para a alienação, por Antonio Prata

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Da Folha de S. Paulo

O gueto de Mariana

Por Antonio Prata

Outro dia um amigo me ligou pra reclamar da vida. Estava trabalhando tanto, ele me disse, que não fazia a menor ideia do que se passava no mundo: há meses não lia jornal, não via TV, não ouvia rádio. Queria um consolo, mas recebeu a minha inveja: “Você não tem ideia da sua sorte! Acho que, desde que a gente nasceu, não teve época melhor pra não saber o que se passa” –e, veja bem, a gente nasceu numa ditadura.

No final de uma ditadura, é verdade. O governo dos militares chegava ao fim com a vergonhosa anistia, a esquerda chegava à praia com o desavergonhado “desbunde”. O tempo ainda estava fechado, mas a previsão era de sol, adiante. Gilberto Gil cantava “Não se incomode/ O que a gente pode, pode/ O que a gente não pode explodirá” e “explodirá” rimava com “poderá” e “brilhará”, não com homens-bomba, pautas-bomba, aviões derrubados, chacinas e barragens arrebentadas.

Vejo na TV a mãe do menino de dez anos assassinado com um tiro na cabeça, no Alemão, revoltada com o inquérito da polícia, inocentando os PMs. Vejo aqueles índios mineiros, mal ajambrados, macambúzios, sentados num trilho de trem, à beira do ex-rio Doce. Leio a carta do viúvo aos terroristas que mataram sua mulher, em Paris, deixando-o com o filho de um ano e meio. “Cara, que sorte a sua não ler jornal!”, digo ao meu amigo. “Eu ontem chorei ouvindo a CBN. Que tempos são esses em que a gente chora com a CBN?”

Serão os tempos? Será que o mundo piorou ou sempre foi assim e eu é que fiquei adulto? Num esforço de otimismo –veja a que ponto chegamos–, penso na Segunda Guerra. Lembro do depoimento de um sobrevivente do Holocausto, no documentário “Shoa”. Com outros prisioneiros do gueto de Varsóvia, o homem criou um esquema elaborado e perigoso para passar cartas para fora da área em que estavam confinados. Por anos, essas cartas foram enviadas a governos, instituições e pessoas importantes de vários países. O homem tinha certeza de que, uma vez que se soubesse do que acontecia ali, alguém tomaria uma providência. Em seu depoimento, o horror nazista parecia chocá-lo menos do que o descaso geral.

Lembro do judeu polonês ao ouvir e fazer tantas vezes a pergunta, depois dos atentados de Paris: como pode um ser humano ter tamanho descaso pela vida de outros seres humanos a ponto de metralhá-los indiscriminadamente? Como pode o mundo saber o que Hitler fazia com os judeus, por anos, sem tomar uma atitude?

Pois, na última quinta-feira, tive a resposta. Não uma resposta sociológica, histórica, geopolítica: uma resposta íntima, pessoal. Num pé de página, no jornal, li: “Atentado terrorista mata 45 na Nigéria” e não senti nada. Ou quase nada. Pensei, “puxa, que triste”, mas não chorei. Só depois é que veio o incômodo, não como um nó na garganta, mas como um embrulho no estômago: eu sou o destinatário das cartas de Varsóvia. Todo dia elas me chegam via e-mail, Facebook, Twitter, vindas dos guetos do Alemão, da Síria, de Barueri, de Lagos, do Pará, do Afeganistão. Algumas vezes dou um share, noutras mando um casaco, outro dia fui até o Brás, comprei umas esfirras de um refugiado, me senti bem por semanas. Na maior parte do tempo, contudo, rolo rápido a tela pra cima, fingindo não ter nada a ver com essa lama, e vou cuidar dos meus assuntos. 

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Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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3 Comentários
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  1. Odonir Oliveira

    22 de novembro de 2015 5:52 pm

    Esse estado de torpor que o jovem Pratinha sente não é muito

    diferente do meu.

    Ele tem exatamente a idade da minha filha. Conhecem-se, inclusive, porque ela é amiga do Prata pai- que já foi Pratinha. Tempos que correm…

    Tenho em mim esse estado de coisas também. Penso que o “meu” mundo está assim, como achar espaço para amar, para o amor… se estamos perdendo o jeito solidário de ser, em causas próximas e nas distantes?

    De onde tiramos beijos apaixonados na boca de uns, se não temos abraços apertados e beijos de ternura para outros?

    Sei lá, mas vou//vamos nos vendo cada dia mais tecnológicos, menos humanos, menos cheirando-nos como gente que AINDA SOMOS.

    Um desânimo enorme me acorda no meio da madrugada e escrevo, escrevo, de raiva, de vontadde de gritar uns bons xingamentos a muita gente… sei lá extamente a quem mais. Mas que tenho gritado no papel, tenho.

    Agora vou gritar mesmo.Dá licença, Pratinha.

  2. Jorge Leite Pinto

    22 de novembro de 2015 6:29 pm

    Pois eu tenho um

    Pois eu tenho um paleativo.

    Quando fico sabendo dessas tragédias diárias, penso: se o mundo já tem 7 BILHÕES de seres humanos, é óbvio que acontecerão milhões de tragédias/injustiças/cagadas-em-geral em número proporcional, e não há NADA que possamos fazer a respeito.

    Quando está ao meu alcance, sou humanista ao extremo. Mas quando não dá, simplemente não dá, ponto.

    Tenho bronca desse pessoal que adora engarrafar o trânsito parando pra olhar acidente. Porra! Se não pode ajudar (ou não tem como) siga em frente e não atrapalha. Este pragmatismo não quer dizer que ficamos insensíveis. O que nos deixa com a consciência pesada é simplesmente o fato de ficarmos sabendo das coisas em volume maior e instantaneamente com essas mídias atuais…

  3. lenita

    22 de novembro de 2015 10:49 pm

    Enquanto isto…

    Alguns curtem e vão dormir sossegados. Sua parte está feita.

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