4 de junho de 2026

Três Poetas Pela Vida

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Arseny Tarkovsky e filho Andrei.

VIDA, VIDA

 

Não acredito em pressentimentos, e augúrios

Não me amedrontam. Não fujo da calúnia

Nem do veneno. Não há morte na Terra.

Todos são imortais. Tudo é imortal. Não há por que

Ter medo da morte aos dezessete

Ou mesmo aos setenta. Realidade e luz

Existem, mas morte e trevas, não.

Estamos agora todos na praia,

E eu sou um dos que içam as redes

Quando um cardume de imortalidade nelas entra.

Vive na casa e a casa continua de pé

Vou aparecer em qualquer século

Entrar e fazer uma casa para mim

É por isso que teus filhos estão ao meu lado

E as tuas esposas, todos sentados em uma mesa,

Uma mesa para o avô e o neto

O futuro é consumado aqui e agora

E se eu erguer levemente minha mão diante de ti,

Ficarás com cinco feixes de luz

Com omoplatas como esteios de madeira

Eu ergui todos os dias que fizeram o passado

Com uma cadeia de agrimensor, eu medi o tempo

E viajei através dele como se viajasse pelos Urais

 

Escolhi uma era que estivesse à minha altura

Rumamos para o sul, fizemos a poeira rodopiar na estepe

Ervaçais cresciam viçosos; um gafanhoto tocava,

Esfregando as pernas, profetizava

E contou-me, como um monge, que eu pereceria

Peguei meu destino e amarrei-o na minha sela;

E agora que cheguei ao futuro ficarei

Ereto sobre meus estribos como um garoto.

 

Só preciso da imortalidade

Para que meu sangue continue a fluir de era para era

Eu prontamente trocaria a vida

Por um lugar seguro e quente

Se a agulha veloz da vida

Não me puxasse pelo mundo como uma linha.

 

Arseni Tarkóvski  em “Esculpir o tempo”, de Andrei Tarkovski. Martins Fontes, 1990.

Tradução de Jefferson Luiz Camargo.

André Breton e a companheira Elisa. ANTES A VIDA

 

Antes a vida que estes prismas sem espessura mesmo se as cores são mais puras

Antes ela que esta hora sempre enevoada estas terríveis carruagens de labaredas frias

Estas pedras sorvadas

Antes este coração engatilhado

Que este charco de murmúrios

Este pano branco a cantar ao mesmo tempo na terra e no ar

E esta bênção nupcial que une o meu rosto ao da total fatuidade

Antes a vida

 

Antes a vida com os seus lençóis de esconjuro

As suas cicatrizes de fugas

Antes a vida antes esta rosácea no meu túmulo

A vida da presença só da presença

Onde uma voz diz Estás aí e a outra responde Estás aí

Eu pobre de mim não estou

E mesmo quando jogarmos ao que fazemos morrer
Antes a vida

Antes a vida antes a vida Infância venerável

A faixa que parte dum faquir

Parece o escorregadouro do mundo

Não importa que o sol não passe de um destroço

Por pouco que o corpo da mulher se lhe compare

Pensas tu ao contemplar a extensão da trajectória

Ou tão-só ao fechar os olhos sobre a tormenta adorável que se chama a tua mão

Antes a vida

 

Antes a vida com as suas salas de espera

Mesmo sabendo não ir entrar nunca

Antes a vida que estas estâncias termais

Onde o serviço é feito por coleiras

Antes a vida adversa e longa

Quando aqui os livros se fecharem sobre estantes menos suaves

E lá longe fizer mais que melhor fizer livre sim

Antes a vida

 

Antes a vida como fundo de desdém

A esta cabeça já de si tão bela

Como antídoto da perfeição aspirada e temida

A vida a maquilhagem de Deus

A vida como um passaporte virgem

Ou uma vilória como Port-à-Mousson

E como tudo foi dito já

Antes a vida

 

André Breton em“Poemas”. Assírio & Alvim, 1994

Tradução de Ernesto Sampaio

Vinicius de Moraes e Tom Jobim

SEI LÁ…

 

Tem dias que eu fico pensando na vida 

E sinceramente não vejo saída. 

Como é, por exemplo, que dá pra entender: 

A gente mal nasce, começa a morrer.

 

Depois da chegada vem sempre a partida,

Porque não há nada sem separação. 

Sei lá, sei lá, a vida é uma grande ilusão. 

Sei lá, sei lá, só sei que ela está com a razão.

 

A gente nem sabe que males se apronta.

Fazendo de conta, fingindo esquecer 

Que nada renasce antes que se acabe, 

E o sol que desponta tem que anoitecer.

 

De nada adianta ficar-se de fora. 

A hora do sim é o descuido do não. 

Sei lá, sei lá, só sei que é preciso paixão. 

Sei lá, sei lá, a vida tem sempre razão.

 

Vinicius com Tom, Miucha e Toquinho no Canecão, 1977.

 

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Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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8 Comentários
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  1. Odonir Oliveira

    4 de outubro de 2015 6:44 pm

    Aprendendo com o blog- episódio 1000

    André Breton eu conhecia, claro, mas Arseny Tarkovsky, muio prazer. Vou estudar mais um pouco e conhecê-lo mais.

    Puxo o banquinho e vou namorar minha dupla brasileira, que essa conheço bem.

     

    [video:https://www.youtube.com/watch?v=XswzObX0kk4%5D

    1. Jair Fonseca

      4 de outubro de 2015 7:37 pm

      Arseny Tarkóvski só se tornou

      Arseny Tarkóvski só se tornou conhecido por seu filho Andrei Tarkóvski (o menininho da primeira foto no colo do pai), um dos mais poéticos (e melhores) cineastas de todos os tempos. Ele sempre cita os poemas do pai em seus belos filmes, como A infância de Ivan, Solaris, Stalker, O espelho, Nostalgia, etc. Segue um poema do pai num trecho de filme do filho. Mais o final do filme.

      [video:https://www.youtube.com/watch?v=y0KFVgTxCiQ%5D

      [video:https://www.youtube.com/watch?v=7ShUA885VjI%5D

      1. Cris Kelvin

        4 de outubro de 2015 7:52 pm

        Estava guardando este poema, Jair…

        … para numa futura puvlicá-lo ao lado de “As Parcas”,  de Hölderlin. Confrontando-o com  as dores de cotovelo da vida, fico me perguntando se basta não basta um um verão para cehugar à conclusão de que tem de haver mais.

        (Ops, não vi que o repetia em outro post)

         

        [video:https://www.youtube.com/watch?v=5TsSsZ2VfRE%5D

         

        AS PARCAS

         

        Concedei-me um só verão, poderosas!

        E um só Outono ao meu canto maduro,

        Que o meu coração mais pronto, do doce

        Jogo farto, então morra!

         

        A alma, que em vida o divino direito

        Não alcançou, também não repousa lá baixo no orco;

        Mas se uma vez o sagrado, aquilo

        Que ao peito me é caro, o poema, atingir,

         

        Bem-vindo então, silêncio do reino das sombras!

        Contente estarei, ainda que a lira

        Me não acompanhe; uma vez

        terei, como os deuses, vivido, e mais além não preciso.

         

         

         

         

         

        1. Odonir Oliveira

          4 de outubro de 2015 11:22 pm

          Obrigada a todos

          “Só sei que nada sei” mesmo.

          E vou aprendendo aqui, ensinando ali.

          Vou ouvir tudo com calma ainda.

          Os poemas, que lindos!

  2. Cris Kelvin

    4 de outubro de 2015 7:33 pm

    Sabe, Odonir…

    … certos críticos diziam que Vinícus não deveria ter se emprenhado pela música popular. Era um poeta, diziam eles, com um imenso talento, que prometia muito mais e diminuiu seu desempenho poético quando passou ao concioneiro. Feizmente, a vida tem sempre razão.

    Precisamos conversar algum tradutor russo para publicar o desconhecido Arseny em lingua portuguesa.  Cerca de meia duzias de poemas, apenas, conhecemos através dos filmes de seu filho, Andrei Tarkovski, na minhão opinião, o maior e o mais poético cineasta. 

  3. Cris Kelvin

    4 de outubro de 2015 8:07 pm

    Mais, quero mais!

    Não importa o drama nesse grande teatro.

    “Luz, quero luz!”

    Com este verso de  Goethe, vamos Chico Buarque, a par de Stalker:

    [video:https://www.youtube.com/watch?v=GPFmzFKUGm4%5D

     

  4. Ana T.

    5 de outubro de 2015 1:23 am

    … enquanto isso, em outro diapasão…

    [video:https://www.youtube.com/watch?v=qhDMqHs9S5w%5D

  5. altamirosouza

    5 de outubro de 2015 4:04 am

    a vida, antes, sempre,
    mas,

    a vida, antes, sempre,

    mas, com a eterna poesia,

    que beleza!

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