
Arseny Tarkovsky e filho Andrei.
VIDA, VIDA
Não acredito em pressentimentos, e augúrios
Não me amedrontam. Não fujo da calúnia
Nem do veneno. Não há morte na Terra.
Todos são imortais. Tudo é imortal. Não há por que
Ter medo da morte aos dezessete
Ou mesmo aos setenta. Realidade e luz
Existem, mas morte e trevas, não.
Estamos agora todos na praia,
E eu sou um dos que içam as redes
Quando um cardume de imortalidade nelas entra.
Vive na casa e a casa continua de pé
Vou aparecer em qualquer século
Entrar e fazer uma casa para mim
É por isso que teus filhos estão ao meu lado
E as tuas esposas, todos sentados em uma mesa,
Uma mesa para o avô e o neto
O futuro é consumado aqui e agora
E se eu erguer levemente minha mão diante de ti,
Ficarás com cinco feixes de luz
Com omoplatas como esteios de madeira
Eu ergui todos os dias que fizeram o passado
Com uma cadeia de agrimensor, eu medi o tempo
E viajei através dele como se viajasse pelos Urais
Escolhi uma era que estivesse à minha altura
Rumamos para o sul, fizemos a poeira rodopiar na estepe
Ervaçais cresciam viçosos; um gafanhoto tocava,
Esfregando as pernas, profetizava
E contou-me, como um monge, que eu pereceria
Peguei meu destino e amarrei-o na minha sela;
E agora que cheguei ao futuro ficarei
Ereto sobre meus estribos como um garoto.
Só preciso da imortalidade
Para que meu sangue continue a fluir de era para era
Eu prontamente trocaria a vida
Por um lugar seguro e quente
Se a agulha veloz da vida
Não me puxasse pelo mundo como uma linha.
Arseni Tarkóvski em “Esculpir o tempo”, de Andrei Tarkovski. Martins Fontes, 1990.
Tradução de Jefferson Luiz Camargo.

André Breton e a companheira Elisa. ANTES A VIDA
Antes a vida que estes prismas sem espessura mesmo se as cores são mais puras
Antes ela que esta hora sempre enevoada estas terríveis carruagens de labaredas frias
Estas pedras sorvadas
Antes este coração engatilhado
Que este charco de murmúrios
Este pano branco a cantar ao mesmo tempo na terra e no ar
E esta bênção nupcial que une o meu rosto ao da total fatuidade
Antes a vida
Antes a vida com os seus lençóis de esconjuro
As suas cicatrizes de fugas
Antes a vida antes esta rosácea no meu túmulo
A vida da presença só da presença
Onde uma voz diz Estás aí e a outra responde Estás aí
Eu pobre de mim não estou
E mesmo quando jogarmos ao que fazemos morrer
Antes a vida
Antes a vida antes a vida Infância venerável
A faixa que parte dum faquir
Parece o escorregadouro do mundo
Não importa que o sol não passe de um destroço
Por pouco que o corpo da mulher se lhe compare
Pensas tu ao contemplar a extensão da trajectória
Ou tão-só ao fechar os olhos sobre a tormenta adorável que se chama a tua mão
Antes a vida
Antes a vida com as suas salas de espera
Mesmo sabendo não ir entrar nunca
Antes a vida que estas estâncias termais
Onde o serviço é feito por coleiras
Antes a vida adversa e longa
Quando aqui os livros se fecharem sobre estantes menos suaves
E lá longe fizer mais que melhor fizer livre sim
Antes a vida
Antes a vida como fundo de desdém
A esta cabeça já de si tão bela
Como antídoto da perfeição aspirada e temida
A vida a maquilhagem de Deus
A vida como um passaporte virgem
Ou uma vilória como Port-à-Mousson
E como tudo foi dito já
Antes a vida
André Breton em“Poemas”. Assírio & Alvim, 1994
Tradução de Ernesto Sampaio

Vinicius de Moraes e Tom Jobim
SEI LÁ…
Tem dias que eu fico pensando na vida
E sinceramente não vejo saída.
Como é, por exemplo, que dá pra entender:
A gente mal nasce, começa a morrer.
Depois da chegada vem sempre a partida,
Porque não há nada sem separação.
Sei lá, sei lá, a vida é uma grande ilusão.
Sei lá, sei lá, só sei que ela está com a razão.
A gente nem sabe que males se apronta.
Fazendo de conta, fingindo esquecer
Que nada renasce antes que se acabe,
E o sol que desponta tem que anoitecer.
De nada adianta ficar-se de fora.
A hora do sim é o descuido do não.
Sei lá, sei lá, só sei que é preciso paixão.
Sei lá, sei lá, a vida tem sempre razão.
Vinicius com Tom, Miucha e Toquinho no Canecão, 1977.
Odonir Oliveira
4 de outubro de 2015 6:44 pmAprendendo com o blog- episódio 1000
André Breton eu conhecia, claro, mas Arseny Tarkovsky, muio prazer. Vou estudar mais um pouco e conhecê-lo mais.
Puxo o banquinho e vou namorar minha dupla brasileira, que essa conheço bem.
[video:https://www.youtube.com/watch?v=XswzObX0kk4%5D
Jair Fonseca
4 de outubro de 2015 7:37 pmArseny Tarkóvski só se tornou
Arseny Tarkóvski só se tornou conhecido por seu filho Andrei Tarkóvski (o menininho da primeira foto no colo do pai), um dos mais poéticos (e melhores) cineastas de todos os tempos. Ele sempre cita os poemas do pai em seus belos filmes, como A infância de Ivan, Solaris, Stalker, O espelho, Nostalgia, etc. Segue um poema do pai num trecho de filme do filho. Mais o final do filme.
[video:https://www.youtube.com/watch?v=y0KFVgTxCiQ%5D
[video:https://www.youtube.com/watch?v=7ShUA885VjI%5D
Cris Kelvin
4 de outubro de 2015 7:52 pmEstava guardando este poema, Jair…
… para numa futura puvlicá-lo ao lado de “As Parcas”, de Hölderlin. Confrontando-o com as dores de cotovelo da vida, fico me perguntando se basta não basta um um verão para cehugar à conclusão de que tem de haver mais.
(Ops, não vi que o repetia em outro post)
[video:https://www.youtube.com/watch?v=5TsSsZ2VfRE%5D
AS PARCAS
Concedei-me um só verão, poderosas!
E um só Outono ao meu canto maduro,
Que o meu coração mais pronto, do doce
Jogo farto, então morra!
A alma, que em vida o divino direito
Não alcançou, também não repousa lá baixo no orco;
Mas se uma vez o sagrado, aquilo
Que ao peito me é caro, o poema, atingir,
Bem-vindo então, silêncio do reino das sombras!
Contente estarei, ainda que a lira
Me não acompanhe; uma vez
terei, como os deuses, vivido, e mais além não preciso.
Odonir Oliveira
4 de outubro de 2015 11:22 pmObrigada a todos
“Só sei que nada sei” mesmo.
E vou aprendendo aqui, ensinando ali.
Vou ouvir tudo com calma ainda.
Os poemas, que lindos!
Cris Kelvin
4 de outubro de 2015 7:33 pmSabe, Odonir…
… certos críticos diziam que Vinícus não deveria ter se emprenhado pela música popular. Era um poeta, diziam eles, com um imenso talento, que prometia muito mais e diminuiu seu desempenho poético quando passou ao concioneiro. Feizmente, a vida tem sempre razão.
Precisamos conversar algum tradutor russo para publicar o desconhecido Arseny em lingua portuguesa. Cerca de meia duzias de poemas, apenas, conhecemos através dos filmes de seu filho, Andrei Tarkovski, na minhão opinião, o maior e o mais poético cineasta.
Cris Kelvin
4 de outubro de 2015 8:07 pmMais, quero mais!
Não importa o drama nesse grande teatro.
“Luz, quero luz!”
Com este verso de Goethe, vamos Chico Buarque, a par de Stalker:
[video:https://www.youtube.com/watch?v=GPFmzFKUGm4%5D
Ana T.
5 de outubro de 2015 1:23 am… enquanto isso, em outro diapasão…
[video:https://www.youtube.com/watch?v=qhDMqHs9S5w%5D
altamirosouza
5 de outubro de 2015 4:04 ama vida, antes, sempre,
mas,
a vida, antes, sempre,
mas, com a eterna poesia,
que beleza!