
Do Justificando
Jovens negros e pobres sendo caçados em ônibus por milícias de jovens brancos de classe média no Rio de Janeiro. Ciclitas sendo chamados de comunistas por motoristas de carros por usarem a ciclovia na cidade de São Paulo. Praticantes e terreiros de candomblé sendo atacados supostamente por fiéis de seitas evangélicas. Estudantes de medicina fazendo piadas, sem qualquer pudor, com a pele e os cabelos de colegas universitários cotistas. Jovens pobres expulsos de shoppings e sua música, o funk, perseguida nas periferias. Sugestões de exclusão do direito de voto de beneficiários de programas sociais do governo. Imigrantes das piores tragédias do mundo contemporâneo sendo hostilizados em seus precários empregos e espaços de acolhida.
Ministros de governos petistas sendo expulsos de restaurantes. Militantes sendo agredidos por usarem camisetas vermelhas. Qualquer opinião à esquerda, mesmo que contra o atual governo federal, sendo raivosamente taxada de “petralha”, “bandida”. Páginas em redes sociais defendendo a morte de Dilma e Lula. Uma professora da Unicamp, pesquisadora do Bolsa Família, sendo continuamente agredida verbalmente por seu vizinho, que finalmente decide jogar seu carro contra a filha da vizinha, sob a acusação de “petismo”. O presidente da CUT falando em pegar em armas para defender o governo e uma militante petista furando um boneco inflável em plena manifestação contra o governo só ajudam a colocar lenha na fogueira.
Não me parece coincidência que as manifestações de intolerância que listei no primeiro parágrafo – um ódio social, chamemos assim – tenham despontado com mais intensidade juntamente com a exarcebação de certa oposição aos governos do PT, desde um pouco antes das eleições de 2014, e cujas manifestações de ódio político listei no segundo parágrafo. Não raro, os alvos das manifestações de ódio social são beneficiários de políticas de governos petistas (cotistas, beneficiários do Bolsa Família, ciclistas); além disso, não falta quem expressamente associe os alvos de seu ódio social a projetos políticos, ainda que ocultos, do PT (como o “ativista” Daniel Barbosa que hostilizou um haitiano na cidade de Canoas, ou o deputado Bolsonaro, que chamou os imigrantes atuais de “escória do mundo”, ambos insinuando que a chegada dessas pessoas está de alguma forma relacionada com planos secretos do PT e do Foro de São Paulo). E não acho exagero incluir aí manifestações menos explosivas e mais sutis dessas intolerâncias combinadas, como os manifestantes pro-impeachment que, em um de seus atos contra o governo, saudavam uma Polícia Militar suspeita de envolvimento em uma violenta chacina ocorrida menos de três dias antes.
Seria exagero dizer, porém, que o ódio social surgiu agora, juntamente ou por causa do ódio político aos governos do PT. Afinal, sabemos que o Brasil nunca foi um paraíso de paz social e tolerância, livre de preconceitos e discriminações. Acho possível, apesar disso, utilizar um bordão dos antipetistas para dizer que, sim, é culpa do PT – mas não no sentido ou pelas razões pelas quais antipetistas o afirmam.
Com todos os seus defeitos, os governos do PT no plano federal promoveram políticas de inclusão significativas, cujos efeitos foram visíveis em prazo curto. A redução da pobreza, a incorporação de novos contingentes sociais no mercado de consumo, a ampliação do acesso ao ensino superior, a expansão do emprego formal a ocupações antes precarizadas (como a construção civil e o trabalho doméstico) tornaram visíveis pessoas historicamente subalternizadas, muitas vezes sob a cínica máscara da democracia racial ou da cordialidade do brasileiro. Não demorou para que as classes privilegiadas passassem a expressar, de maneiras mais ou menos sutis, o seu desconforto por terem que conviver com aqueles subalternos nos mesmos espaços (aeroportos, shoppings, universidades). De certa forma, isso é culpa do PT, e o partido merece os parabéns por isso.
Por outro lado, tendo a oportunidade histórica de avançar no enfrentamento de outras desigualdades que não se fundam primariamente na desigualdade de renda, o PT foi tímido. Apesar de algumas medidas pontuais, não enfrentou adequadamente o problema da violência policial, de gênero e de orientação sexual, dos homicídios de jovens negros e pobres, do sistema penitenciário e do extermínio de populações indígenas. Em muitos casos, não só por timidez, mas por recuos estratégicos decorrentes de compromissos políticos imediatos. Para atender à bancada evangélica, abortou políticas de educação para a diversidade sexual. Para atender à bancada ruralista, retardou demarcações de terras indígenas. Para atender a moralistas em geral, recuou em mudanças de políticas sobre drogas e aborto. Para atender a uma população com justificado medo da violência, replicou o velho discurso punitivista da direita política. Quando jovens foram às ruas por mais direitos e políticas públicas, o governo federal aplaudiu a bárbara repressão das polícias paulista e carioca, tidas entre as mais violentas do país, e ainda prometeu ajuda aos governos estaduais.
Sem sequer propor uma reforma política que tornasse mais estáveis e representativos os arranjos partidários e parlamentares e rompesse com a influência do poder econômico na política, o PT se viu enredado em escândalos de corrupção que corroeram sua credibilidade. Sem enfrentar a questão da concentração de renda e da propriedade, dos juros da dívida e do desenvolvimento industrial, transformou a mobilidade social baseada em consumo, emprego formal e transferência de recursos em uma frágil construção política e social, incapaz de resistir a tempos de recessão e ajuste fiscal. Hoje, aqueles que o PT cortejava com seus recuos e sua timidez estão na linha de frente dos que os atacam. De outra maneira, isso também é culpa do PT.
Mas não somente do PT. A oposição partidária, PSDB à frente, alimentou os ódios sociais e políticos até o limite da irresponsabilidade, buscando ganhar no grito e nas ruas uma batalha que perdeu nas urnas. Deslocado ainda mais à direita pela própria guinada ao centro do PT, o PSDB se viu obrigado a abandonar compromissos históricos que teve com a democracia e os direitos humanos, para encampar despudoradamente bandeiras dos nossos velhos ódios sociais: o elogio à violência das polícias, defesa de políticas criminais repressivas e redução da maioridade penal, oposição a políticas sociais inclusivas, flerte com soluções extra-institucionais para resolver uma crise política que eles ajudaram a criar e a crescer. Parece-me que as antigas bandeiras e os compromissos democráticos do PSDB foram importantes para conter as falanges mais agressivas de nossa direita, moderando o conflito político nos embates contra o PT desde a redemocratização. Isso, porém, é passado.
Se o governo Dilma tiver seu fim antecipado, é provável que os propagadores do ódio ao PT tenham seus ânimos sossegados, satisfeitos com a falsa convicção de que foram os principais responsáveis pelo resultado de um jogo do qual são, na verdade, apenas os animadores de torcida (digo isso sem diminuir a importância de uma torcida animada para o resultado do jogo). Como parte do ódio social lhe vinha a reboque, pode ser que as manifestações de violência e intolerância difusa contra negros, pobres, LGBTT, imigrantes, ativistas, subalternos em geral se reduza. Mas como esse ódio social tem raízes históricas mais profundas, e aflorou justamente pelo aguçamento do conflito social (do qual o conflito político é apenas a superfície), pode ser que ele permaneça e até se propague, embalado pela vitória do ódio político. Se isso acontecer, a instabilidade econômica e política da crise do governo Dilma é apenas o mais imediato de nossos problemas; com um PT fragilizado e um PSDB cada vez mais à direita, a questão é saber quem vai colocar de volta a tampa no caldeirão fervente de bílis.
Frederico de Almeida é Bacharel em Direito, mestre e doutor em Ciência Política pela USP, é professor do Departamento de Ciência Política do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP.
Lionel Rupaud
29 de setembro de 2015 2:06 pmLamento. mas a pasta de dente nunca volta
dentro do tubo.
O GAFE venceu.
Sei lá o que vai dar. Mas acho que a burguesia de Higienópolis e Jardins não vai gostar do resultado final.
Carlos Elísio
29 de setembro de 2015 2:12 pmO nobre cientista está confundindo
Confundem-se as bobagens paulistas com o Brasil. Sou do RJ, subúrbio, falo o que quero, uso camisa na cor que quero e ponto. Tem esta palhaçada paulista não.
Afinal, ssombração sabe para quem e onde aparece!
Álvaro Noites
29 de setembro de 2015 3:56 pmNão tenho mais parâmetros
Não tenho mais parâmetros para afirmar algo sobre o Brasil.
O que sei, como paulista que sou, é que está muito perigoso não ser “coxinha” no Estado de São Paulo e especialmente na grande São Paulo. Me parece que já é senso comum que alguns direitos são negados aos “petralhas”:
– A polícia faz pouco caso dessas manifestações de ódio da direita
– Alguns diretores de empresas pregam abertamente o boicote profissional de tais “minorias”
– Não podemos vestir uma camiseta vermelha ou com estrelas (realmente temo fazer isso)
– Amizades desfeitas e relações familiares abaladas (como li, anos atrás, que ocorrera na Venezuela)
– Um proposital acobertamento, quando não tentativa de censura, por parte da massa de manobra, de qualquer malfeito ou ato questionável do PSDB.
– A sensação que o judiciário é acessível apenas para a causa da extrema direita.
– Alguns malucos já falando abertamente em “pegar em armas”.
– A deplorável atuação de alguns “fraternos”.
Maria Luisa
29 de setembro de 2015 2:20 pmQuestão de partido?
O PSDB acredita (o psdb aqui se resume aos mesmos de sempre que aparecem todos os dias nos jornais) que quando eles voltarem ao poder (Alckmin deve estar salivando), tudo isso se arrefece, pois corrupto é so o PT. Eh esse o jogo. Todo o mal que assola o Pais: os problemas econômicos, volta da CPMF (culpa de programas sociais), tudo é responsabilidade do PT, que aparelhou e corrmpeu todos os poderes. E mais, um partido sem inação como o PSDB so sobrevive porque é sustentado por toda a dita grande imprensa brasileira. E com o Judiciario, MPF e PF calmos novamente, o PSDB crê que tudo sera como antes.
So não sei se a população aceitara ser novamente governada como o foi por tanto tempo. O tempo de gado parece que se esgotou.
Mogisenio
29 de setembro de 2015 2:58 pmUm filme já visto.
Caros debatedores,
texto cansativo e que, querendo ou não, joga mais “lenha na fogueira”.
Aliás, a regra atual parece ser esta mesmo: jogar mais lenha na fogueira!
E, nesse sentido, suponho que há objetivos camuflados para todos os lados. Especulo que há interesses extrativistas que visam “benefícios” , concretos ou abstrados, no curto, no médio ou no longo prazo.
Lado outro, extrai uma parte do texto acima na qual o autor se equivoca:
Jovens pobres expulsos de shoppings e sua música, o funk, perseguida nas periferias.
E por que eu acho que ele se equivocou?
Ora, o FUNK já está sendo aceito, claramente, em “classes” mais altas. Já é comum ouvir por aí festas inteiras de jovens, adolescentes que só “curtem” música funk. Inclusive, dançam a música funk brasileira. Logo, neste particular, já não é mais “correto” relacionar música funk com periferia ou com “jovens pobres”.
Agora a pobreza, fruto do FURTO da distribuição de renda que se baseia na “MERDORITOCRACIA”, aí sim. Esta não muda, “nem fudendo”!
Como sempre, o movimento cultural começa na “periferia” e chega ao “centro” . Começa com os mais “novos”. Daqui a pouco, alguns “que se acham intelectuais”, vão se aproximar e, logo, chega na televisão no “horário nobre”.
Viva o FUNK! Viva o “hit” da periferia! no shopping!
Ela gosta de dinheiro de andar de carro
Dar role na night nas custas dos otários
Ela gosta de dinheiro de mordomia
Fazer compras no shopping só acorda meio dia
Vinte e três horas,confirmado alguém espera de carro
Ela sair na porta do seu condomínio fechado
Produzida da cabeça aos pés um lindo cabelo
(Cheirosa),quase uma hora e meia na frente do espelho
Na porta da boate ela não pega fila
Esnoba as recalcadas o nome esta na lista
Nas melhores baladas sempre esta presente
Na unha trás aquele esmalte florescente
Chamando a atenção ela é saliente
Vestido provocante decote indecente
Ela é aquela que às vezes dança com você
Mas não é pro seu bico amigo eu vou dizer porque
Depois do meio dia não quer fazer nada
Dor de cabeça acordou na mó ressaca
Fruto dos drinks ingeridos na balada
Liga a televisão e fica entediada
Chama as amigas pra ir praticar seu rob
Fazer compras se distrair gastar no shopping
Na primeira loja já bate aquela indecisão
Será que eu levo Prada, Gucci ou Louis Vuitton?
Hó vida o céus o duvida cruel
Será que essa sandália combina com esse chapéu
Uns vão dizer que sim outros vão dizer que não
Então embala tudo que ela passa no cartão
Saem da loja,sorridentes mascando chicletes
Antes de ir embora sempre vão na lanchonete
O assunto de quem pegou o gatinho vira briga
Cuidado guerra de batata frita
Dizem que ela é metida,ela não da ouvidos
Pra próxima balada vai comprar mais um vestido
Pois poder aquisitivo pra ela não é o problema
Se a mesada acabar o cartão do pai entra na cena
Vive dando risada só pra aliviar o stress
Com as amigas na balada a cada posse é um flash
Pra tirar seu sorriso às vezes pinta um cara chato
Com bafo de bebida misturado com cigarro
Pegando no seu cabelo pedindo pra dançar
Oferecendo bebida querendo te beijar
Dizendo que já ficou com ela mais não adianta
Ela diz; da licença porque a fila anda
Fonte: Das quebradas
….e a historinha se repete…
Saudações
Marcos Carvalho
29 de setembro de 2015 3:01 pmLei de Causa e Efeito.
Aplicando a lei de causa e efeito na imagem, o revoltadinho ficaria mais ou menos assim:
João de Paiva
29 de setembro de 2015 3:28 pmNuma época em que
Numa época em que ‘intelectuais’ que se auto-proclamam ‘esquerdistas’ escrevem artigos – alguns deles postados neste blog – falando em ‘fim de ciclo político’ ou ‘esquerda pós-PT’, é alentador saber que ainda existem acadêmicos com inteligência, sobriedade, sabedoria e equilíbrio, com capacidade de fazer uma leitura correta do que ocorre no Brasil, sobretudo nos campos social, político e econômico.
É de professores e cientistas como Frederico Almeida que estamos precisando. Do discurso derrotista e pessimista de intelectuais “esquerdistas” como Wanderley Guilherme dos Santos ou Aldo Fornazieri já estamos fartos; ele já encheram o saco com a ladainha monocórdia, que mais se adequa ao colunismo desses jornais e revistas decadentes.
lineu
29 de setembro de 2015 5:44 pmIlustres
Ilustres brasileiros
Arrogância é um comportamento pegajoso.
Quem nunca comeu melado quando come se lambuza.
O uso do cachimbo faz a boca torta.
Não existem mais bobos . Ou seja, esperto também não tem mais.
Se vocês não pegaram o espírito