8 de junho de 2026

O Ovo de Galinha, por João Cabral de Melo Neto

Enviado por Spin

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Do Releituras

Ovo de Galinha

João Cabral de Melo Neto

Ele já estava na nossa mira há tempos e sabíamos que era imprescindível sua presença no Releituras. Mas, sabe como são essas coisas: você pega o livro para selecionar o material, se encanta com o que lê e, ao invés de fazer o que deveria ser feito, vai lendo, lendo e, no fim, se esquece do real motivo da leitura. Ontem, 09/10/99, o poeta partiu. É uma grande, uma enorme perda. Com sua poesia “dura”, de texto enxuto, e com sua característica de ir sempre mais fundo em busca do âmago das coisas, João Cabral encantou o mundo. Se alguém lhe dissesse que escreveu uma poesia sobre o ovo, você não acreditaria. Veja que obra prima João Cabral produziu.

A ele, nosso abraço e nossa saudade.
 

I

Ao olho mostra a integridade
de uma coisa num bloco, um ovo.
Numa só matéria, unitária, 
maciçamente ovo, num todo.

Sem possuir um dentro e um fora, 
tal como as pedras, sem miolo:
é só miolo: o dentro e o fora
integralmente no contorno.

No entanto, se ao olho se mostra
unânime em si mesmo, um ovo, 
a mão que o sopesa descobre 
que nele há algo suspeitoso:

que seu peso não é o das pedras,
inanimado, frio, goro;
que o seu é um peso morno, túmido,
um peso que é vivo e não morto.

II

O ovo revela o acabamento
a toda mão que o acaricia,
daquelas coisas torneadas
num trabalho de toda a vida.

E que se encontra também noutras 
que entretanto mão não fabrica:
nos corais, nos seixos rolados
e em tantas coisas esculpidas

cujas formas simples são obra 
de mil inacabáveis lixas
usadas por mãos escultoras
escondidas na água, na brisa.

No entretanto, o ovo, e apesar 
de pura forma concluída, 
não se situa no final:
está no ponto de partida.

III

A presença de qualquer ovo, 
até se a mão não lhe faz nada, 
possui o dom de provocar
certa reserva em qualquer sala.

O que é difícil de entender
se se pensa na forma clara
que tem um ovo, e na franqueza
de sua parede caiada. 

A reserva que um ovo inspira
é de espécie bastante rara:
é a que se sente ante um revólver
e não se sente ante uma bala.

É a que se sente ante essas coisas
que conservando outras guardadas
ameaçam mais com disparar
do que com a coisa que disparam.

IV

Na manipulação de um ovo
um ritual sempre se observa:
há um jeito recolhido e meio
religioso em quem o leva.

Se pode pretender que o jeito
de quem qualquer ovo carrega
vem da atenção normal de quem 
conduz uma coisa repleta.

O ovo porém está fechado
em sua arquitetura hermética
e quem o carrega, sabendo-o,
prossegue na atitude regra:

procede ainda da maneira
entre medrosa e circunspeta,
quase beata, de quem tem 
nas mãos a chama de uma vela. 

A poesia acima foi extraída do livro “João Cabral de Melo Neto – Obra Completa”, Editora Nova Aguilar – Rio de Janeiro, 1994, pág. 302.

Saiba mais sobre o poeta e sua obra em “Biografias“.

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3 Comentários
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  1. anarquista sério

    19 de maio de 2015 4:21 pm

    Sobre o ovo , temos uma

    Sobre o ovo , temos uma questão:

      Quem nasceu primeiro,o ovo ou a galinha?

      Respondo:

      Quem Deus criou primeiro?

      Adão ou o espamatozoide?

      Questão respondida.

  2. Maria Luisa

    19 de maio de 2015 5:41 pm

    Oh, que comentario!

    Lembrei da propaganda do Danoninho dos anos 80, em que uma voz dizia a respeito de uma menina que enumerava as vitaminas do danoninho “como ela é inteligente, como ela é inteligente”. Como ele é inteligente, hein.

  3. maria rodrigues

    19 de maio de 2015 7:30 pm

    ZILA MAMEDE, minha prima,

    ZILA MAMEDE, minha prima, dedicou quase dez anos ao planejamento e elaboração de uma bibliografia de João Cabral de Melo Neto, intitulado CIVIL GEOMETRIA – Bibliografia Crítica, Analítica e Anotada de João Cabral de Melo Neto.

    Livro pronto, com a introdução incabada feita de próprio punho, Zila Mamede, que tantas poesias fez sobre o mar, foi por ele abraçada e levada do nosso convívio em 13 de dezembro de 1985. Todos os dias ela saía pela manhã dirigindo seu fusca até a Praia do Meio, em Natal. Lá deixava seu carro e caminhava até a praias do Forte/Natal, onde nadava muito. Voltava pro carro subia uma ladeira e chegava em casa para almoçar com sua irmã mais nova. Até que nunca mais voltou. Coube à irmã levar adiante o sonho da escritora e poeta. 

    Foi José E. Mindlin quem fez a apresentação do livro, em outubro de 1987, que reproduzo aqui parte dela:

    “A pertinência, a meticulosidade, o zelo e o amor à poesia de Zila Mamede demonstraram, no entanto, que o trabalho era e foi possível. Assim, graças ao seu esforço, tem agora os estudiosos da obra de João Cabral de Melo Neto um precioso manancial de informações bibliográficas que, sem ele, estaria disperso em um sem número de publicações, bibliotecas, arquvos e coleções particulares, e, portanto, praticamente incessível. Trata-se de uma obra que por si só consagraria Zila Mamede como pesquisadora. Que dizer, então, quando se recordar que, antes dela, Zila havia publicado uma bibliografia verdadeiramente munumental de Luiz da Câmara Cascudo, abrangendo 50 anos da obra desse escritor?”

    Sinto saudade da minha prima, que foi uma grande amiga.

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