5 de junho de 2026

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A droga de Wall Street: o Buyback

Por Informação Incorrecta

Hoje falamos dum jogo que está na moda em Wall Street. Não é novo (provavelmente existe desde a criação das Bolsas), mas nos últimos tempos tem assumido dimensões preocupantes. Em particular nos últimos três anos.

O jogo tem um nome: Buyback.
Como funciona? Funciona assim.

Rudesindo (bonito este nome, encontrei na net) é administrador duma empresa, a Berlinde Corporation (que produz berlindes). A Berlinde Corp. entra na Bolsa e a sua “propriedade” é divida em acções que são adquiridas pelos investidores. Neste caso: 150 acções, cada uma das quais vale 1 Dólar.
Até aqui tudo bem.

A venda de berlindes é regular mas não é um sucesso estrondoso, pelo que Rudesindo pensa: “Haverá uma maneira para fazer que o valor das acções aumente?”. Há. Uma dela é o Buyback (traduzido: “recompra”). Para praticá-lo, a Berlinde Corporation adquire 50 das suas próprias acções presentes no mercado.


Aparentemente não é algo muito inteligente: a empresa gastou 50 Dólares para comprar as suas acções. Onde está o ganho nisso? 

Na verdade há ganho, porque acontecem algumas coisas.
Uma empresa não pode ser dona das suas próprias acções, pelo que as 50 acções adquiridas são simplesmente apagadas. Dito assim parece ainda pior, pois a Berlinde Corp. gastou 50 Dólares nas suas acções que depois destruiu: perdeu 50 Dólares!

Mas não é bem assim. Na verdade, o valor das acções ainda em circulação aumentou e entendê-lo é simples: antes o inteiro “valor” da Berlinde Corp. (que é de 150 Dólares) encontrava-se dividido entre 150 acções, cada uma das quais valia 1 Dólar; agora as acções disponíveis são 100 mas o valor da empresa não desceu, pelo que cada acção vale 1.5 Dólares (total: sempre 150 Dólares).

Dado que estar na posse duma acção significa deter um “pedacinho” da empresa, cada accionista da Berlinde Corp. agora detém um pedacinho maior da empresa. Mas estar na posse duma acção significa receber os dividendos da empresa também: pelo que, cada investidor com uma das 100 acções da Berlinde Corp. no final do ano irá receber uma fatia maior dos dividendos. Antes o dividendo era distribuído entre 150 accionistas, agora o mesmo é distribuído entre 100.

E adivinhem quem podemos encontrar entre os accionistas? Rudesindo. Pois é verdade que uma empresa não pode deter as suas próprias acções, mas os seus funcionários podem. Desta forma, Rudesindo:

  • aumentou o ganho com as suas acções (cada acção passou a valer mais)
  • aumentou o controlo sobre a empresa (cada acção representa um “pedacinho” maior da empresa).

E no final do ano, o Conselho de Administração da empresa fica tão satisfeito com a subida do valor das acções que até concede um bónus ao top manager. Que é sempre Rudesindo.   

Eis explicada a razão pela qual o joguinho do Buyback é cada vez mais popular, tal como mostra o S&P500 Buyback Index, que segue as 100 ações mais activas nas recompras. Este apresenta um gráfico que, a partir de 2012, começa a subir até dobrar em apenas três anos.

Mais: o S&P500 Buyback bate regularmente o S&P500 “normal”, aquele que segue as 500 empresas mais importantes da Bolsa de Wall Street (imagem ao lado).

Ao ponto que agora há quem comece a investir (com os instrumentos ETF) no boom da recompra.

O campeão do Buyback? A Apple, cujo programa de recompra de ações totalizou 140 biliões de Dólares: há também este joguinho por trás do voo das ações da empresa (+ 40% em 2014). Mas o fenómeno se espalhou até alcançar todos os níveis: Bloomberg no ano passado calculou que as 500 maiores empresas de Wall Street têm investido no Buyback cerca de 1.000 biliões de Dólares, o equivalente a 95% dos seus lucros. Segundo a Morgan Stanley, a partir de 2012 mais de 50% do crescimento no lucro das acções tem sido provocado pelo fenómeno da recompra. Sem o Buyback, o lucro das acções do S&P500teria aumentado apenas 3,3% por ano. Temos de ter presente isso quando ouvimos falar de “Bolsa de Wall Street que voa”.

Num mundo de baixo crescimento, a droga do Buyback parece ser a única maneira de recompensar (e bem) os accionistas e continuar a sonhar. Mas o sonho pode transformar-se num pesadelo. Vamos ver o porquê.

A recompra de ações é uma droga agradável e rentável, algo já visto durante a “bolha” de 2000 e 2007, mas que no médio-longo prazo pode ser muito perigosa. E por várias razões.

Em primeiro lugar, é a maneira menos produtiva para investir os lucros duma empresas. Ao efectuar oBuyback, as empresas admitem (nos factos) não terem muitas ideias para um uso produtivo do dinheiro ou, pior ainda, não terem confiança no futuro. Por qual razão? Porque em vez de investir em novos produtos, que poderiam ser um verdadeiro sucesso e provocar uma genuína subida do valor das acções, as empresas se limitam a “investir” na recompra das suas próprias acções.

Em segundo lugar, porque o Buyback aumenta o valor das acções mas de forma artificiosa. O valor das acções não aumenta por causa das boas vendas da empresa, mas porque a empresa joga com o Buyback. O que é bem diferente. Na próxima crise, estaremos perante um mercado de acções “infladas”. Em outras palavras, aquilo que se costuma definir como uma “bolha”. E todas as bolhas têm o mesmo destino.

Haveria também o discurso ligado aos juros do dinheiro, mas fechamos com uma terceira conclusão mais simples: aos olhos dos leigos, tudo isso é mais um prego no caixão da Grande Finança, cada vez mais encarada como um perverso jogo para ricos, algo do qual desconfiar e não pouco. As Bolsas ficam cada vez mais afastadas da economia real, são máquinas para aumentar os lucros de pessoas que já não têm problemas de dinheiro.

Mas atenção: são estas mesmas pessoas que têm os melhores meios para financiar as lobby, para influenciar a opinião pública (com os media, dos quais são donos), para pressionar a classe política, para condicionar as escolhas económicas e o futuro da nossa sociedade.

Ipse dixit.

Fonte: Il Sole 24 Ore

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Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

5 Comentários
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  1. Paulo Cezar

    9 de maio de 2015 1:27 pm

    Vários indicadores econômicos
    Vários indicadores econômicos brasileiros estão bem melhores do que países “desenvolvidos” , endividamento do país e das famílias, superávit, emprego, reservas internacionais , taxa de desemprego, solidez dos bancos…. Todos eles fortes componentes da “nota de crédito de um país”…. Porém a nota brasileira é bem inferior a esses países que tem indicadores econômicos piores… A explicação é uma tal de ” confiança ” dos mercados… Como somos um país ” emergente ” , mesmo com indicadores melhores não somos “confiáveis”… E por isso somos ” obrigados ” a ajustes como os do Levy que aumentam juros e por consequência os ganhos de especuladores internacionais as custas de escassos recursos do tesouro…. Um exemplo é o “superávit ” de 2014 que foi “negativo” , porém muito melhor que muitos outros países, que como nós aumentarem gastos estatais ou diminuíram impostos para combater a crise…. http://g1.globo.com/economia/noticia/2014/12/superavit-primario-alto-nao-e-norma-no-mundo-diz-secretario-do-tesouro.html. Como mudar essa engrenagem sórdida ?!? Um dos caminhos é o banco dos Brics , que começa a dar opções ao “establishment ” financeiro internacional…. Porém nosso banco central em um movimento inexplicável, está atrasando a transferência de parte de nossas reservas de títulos americanos para o caixa do novo banco. É um forte indicativo de que nossas instituições estão contaminadas por ideologias ou estão sendo utilizadas por interesses anti nacionais , tanto que argumentos não técnicos são utilizados para ir contra decisões executivas….
    “O argumento da vertente entreguista do Banco Central é grotesco, já que a transferência de recursos das reservas para a capitalização do banco não altera a posição fiscal brasileira. Afinal, é muito mais interessante ter dinheiro rendendo juros no banco do que rendendo os pífios juros dos títulos públicos dos Estados Unidos, nos quais as reservas são aplicadas.”…
    http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Economia/Banco-Central-bloqueia-participacao-do-Brasil-no-Banco-dos-BRICS/7/33393
    Para seguir desenvolvendo nosso país temos que enfrentar barreiras dentro do próprio país. Nada de novo… Me lembra dos entreguistas que não queriam a fundação da Petrobras…..

  2. alexis

    9 de maio de 2015 2:21 pm

    Sempre há o “trocha”

    Naquele espaço virtual entre o que as coisas valem e o que o “mercado” acha ou diz que valem, existem um monte de trochas que apostam em valores veniais.

    As empresa de verdade e as nações foram sendo aplastadas pelo mundo virtual, ou nuvem, que apresenta números fictícios. Existe um novo universo ou MATRIX entre o capacete e o chapéu fino, entre a luva de couro e o notebook, entre quem faz e quem vende ilusões.

    Agora, com essa história da terceirização nem funcionários próprios as empresas irão ter, convertendo as antigas empresas de verdade em meros vetores artificiais geradores de riqueza, levando valores desde a terra de todos para uma nuvem de poucos.

  3. Luis S

    9 de maio de 2015 2:58 pm

    Nada estranho

    A unica coisa que o autor coloca corretamente e’ que as empresas utilizam o buyback quando nao tem projetos lucrativos para o dinheiro, em tempos de baixo crescimento economico.

    Por outro lado, ha diversas incorrecoes no texto, que invalidam a conclusao final. Primeiro, vamos entender o que a empresa pode fazer quando tem excesso de caixa:

    1. Deixar o dinheiro no caixa, ganhando juros de mercado – pessima ideia, ja que a remuneracao sera menor que a do negocio principal da empresa e, portanto, ira reduzir seu valor de mercado

    2. Reinvestir – boa ideia e a maioria das empresas faz isso. Existe risco, obviamente, e portanto so’ vale a pena se a empresa tem realmente um bom pipeline de inovacao ou esta disposta a diversificar. Mas quando voce tem muito mais dinheiro que o que precisa para seus novos produtos, ou voce vai sair comprando empresas ou nao tem o que fazer. Gastar por gastar nao resolve.

    3. Aumentar o pagamento de dividendos – tambem e’ boa ideia. E o resultado e’ o mesmo do buyback – como os investidores esperam receber mais retorno daquela empresa, a acao ficara mais procurada e o seu valor vai aumentar. Entretanto, ha limites para o aumento de dividendos, ja que nenhuma empresa quer se ver na situacao de diminui-los significativamente no futuro. Portanto, ninguem vai multiplicar os dividendos por 10 ou 20 so’ porque sobrou dinheiro no caixa.

    4. Fazer o buyback – o dinheiro tambem retorna para os investidores (alguem esta vendendo as acoes), sem os problemas e riscos de um aumento significativo de dividendos. Nao existe a expectativa de futuros buybacks, etc, portanto o efeito e’ reduzido no tempo. O “valor de mercado” da empresa se reduz (afinal, no exemplo do texto, ela tem 50 a menos), mas a diluicao das acoes diminui mais, fazendo o valor da acao aumentar.

    Ok, entao aonde o texto erra? Vamos la:

    – Buyback aumenta o valor da acao artificialmente, nao por causa das boas vendas da empresa. Errado. Aumenta o valor da acao porque diminui a quantidade de socios. Se voce tem um negocio com seu irmao e resolve comprar a parte dele, sua parte na empresa vai aumentar, certo? Mas isso e’ aumento artificial? Claro que nao. E e’ obvio que o incremento vem das boas vendas da empresa. A menos que o autor consiga explicar como uma empresa pode ter dinheiro em caixa (tipo 140 bi, como a Apple) que nao esteja ligado as vendas da empresa…

    – O valor da empresa continua o mesmo depois do buyback. Tambem falso. O valor de mercado diminui, ja que uma quantidade de dinheiro foi “queimada”. A acao aumenta, mas o valor total da empresa diminui. Se voce comprar a parte do seu irmao no negocio prometendo pagar com dinheiro do proprio negocio (algo bastante comum), obviamente o negocio vale menos que antes, porque ha menos cash flow disponivel para investir, etc. Por isso, as empresas so usam esta estrategia quando todas as outras sao inadequadas ou ja esgotaram sua utilidade.

    – O Board vai ficar tao satisfeito que vai dar um super-bonus ao Rudesindo. Falso. A menos que o board seja composto de gente com tao pouco conhecimento de financas quanto o autor do texto. Quem entende do assunto, nao se confunde com isso. Alias, um CEO nao decidir isso sozinho, o tema ja tera sido discutido com o board exaustivamente. O Board vai dar um super-bonus ao Rudesindo porque ele conseguiu gerar TANTO CAIXA que ele ate tiveram que fazer um buyback.

    – “A droga do buyback pode ser a unica maneira de recompensar os acionistas”. Mais ou menos. Primeiro, para fazer buyback, voce tem que fazer MUITO DINHEIRO. Nao e’ algo que funcione para qualquer um. Vc pode emprestar para fazer, mas os bancos so vao te financiar se tiverem a certeza que o seu cash flow futuro vai suportar os pagamentos. Portanto, a droga do buyback pode realmente ser a unica maneira de recompensar os acionistas QUANDO VOCE ESTA FAZENDO MUITO MAIS CAIXA DO QUE PRECISA.

    – O buyback e’ a maneira menos eficiente de utilizar o dinheiro das empresas. Errado tambem. O autor assume que a empresa nao tem limites para seu crescimento, o que e’ uma premissa falsa. Toda estrutura tem um limite de operacao e o empresario que entende isso e’ o que consegue bons resultados no longo prazo. A Apple devolveu 140 bi, e ainda assim manteve uma linha de inovacao espetacular, aumento de vendas, etc. Quer dizer, ela reinvestiu bastante, mas ainda sobrou dinheiro. Ela poderia diversificar, comprar outras empresas, etc, mas isso poderia prejudicar seu foco no core business e no final resultar em enormes perdas. Ha varios exemplos de empresas que fizeram isso. Mas o que o autor esquece e’ esses 140 bi nao desapareceram no ar. Foram devolvidos ao “mercado” e cada agente de mercado entao resolveu reinvesti-lo em algum outro lugar. Outras empresas foram criadas ou receberam injecao de dinheiro que ajudou a criar novos produtos e servicos. E provavelmente de forma mais eficiente do que a Apple poderia faze-lo

    O autor acerta, porem, quando diz que “aos olhos do leigo, tudo isso e’ tudo isso é mais um prego no caixão da Grande Finança, cada vez mais encarada como um perverso jogo para ricos, algo do qual desconfiar e não pouco.” Realmente, quem nao entende do assunto corre o risco de usar meia duzia de detalhes desconexos e incompletos para enxergar uma grande jogatina. Mas sugiro ao autor, como leigo, informar-se melhor porque financas nao e’ jogo para leigos. Ha muitos problemas nos mercados financeiros mundiais que precisam de gente informada para ajudar a resolver – e o uso de buybacks por empresas como a Apple NAO e’ um deles.

     

     

     

     

     

     

     

     

  4. junior50

    9 de maio de 2015 11:38 pm

    Milken

     São os herdeiros do Milken, que em 1987 levou WS  a lona.

  5. Renato Lazzari

    11 de maio de 2015 2:13 pm

    Trabalhar de verdade,

    Trabalhar de verdade, produzir algo de útil, os atravessadores especuladores não querem, né? Ou não querem ou não têm competência para tanto… querem é viver da especulação, da produção do trabalho alheio. Honest joes, vendedores de carro usado. A que ponto chegou essa história de “o importante é convencer”, “como fazer amigos e influenciar pessoas”… Gerson, da “Lei de Gerson”, tinha mesmo um nome estadunidense por uma razão.

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