Quem olha a cascata de manchetes que inundou a grande imprensa nos últimos meses enxerga um roteiro conhecido. É a velha mecânica do vazamento cirúrgico, aquela que o leitor do GGN aprendeu a decifrar a duras penas durante os anos dourados da Operação Lava Jato. Só que, desta vez, o tabuleiro é o Caso Master, e o objetivo é atingir as vigas de sustentação do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Banco Central.
Para compreender o tamanho desse esquema, o leitor precisa ligar os pontos centrais que revelam os bastidores dessa construção midiática. O escândalo foi lançado ao público sob forte barulho jornalístico concentrado em duas frentes: a acusação de que o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, teria pressionado o conselho do Banco de Brasília (BRB) para adquirir carteiras da instituição e os honorários contratuais do escritório de Viviane Barci, esposa do ministro Alexandre de Moraes, com o Master.
Para entender o cerco, basta recuperar como o consórcio midiático calibrou as manchetes para ditar o ritmo da crise e moldar a percepção pública:




As primeiras denúncias e o barulho na mídia
O caso ganhou as manchetes nacionais no final de 2025 através de uma operação cirúrgica de vazamento de dados sigilosos. Setores da grande imprensa, capitaneados pela colunista Malu Gaspar, de O Globo, trouxeram a público as imagens de um contrato milionário. O documento, que estava sob sigilo nos arquivos apreendidos de Daniel Vorcaro, era um acordo firmado entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, comandado por Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes. O contrato previa o pagamento de R$ 129 milhões em 36 meses. Posteriormente, dados da Receita Federal enviados à CPI do Crime Organizado apontaram que o escritório recebeu efetivamente R$ 80,2 milhões entre 2024 e 2025, antes de as parcelas serem interrompidas pela liquidação da instituição.
Paralelamente, a mesma colunista disparou uma série de matérias acusando o diretor de fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino Santos, de ter pressionado o Conselho de Administração do BRB a comprar carteiras de crédito do Master para socorrer a liquidez do banco. A acusação baseava-se em mensagens de whatsApp exibidas pelo então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, que resultaram na aprovação de uma autorização de exceção de R$ 270 milhões para a aquisição dos papéis podres — uma manobra para burlar os limites de segurança do próprio banco. O bombardeio midiático usava a imagem de Aquino para sugerir que o próprio órgão regulador atuava em conluio com o esquema criminoso.
O castelo de cartas cai por terra: os conselheiros negam e o BC se defende
Essa versão inicial, contudo, desmoronou diante dos fatos. O “jornalismo-sela” praticado por setores da imprensa omitiu detalhes cruciais da apuração que inocentavam o diretor do BC. Primeiro, descobriu-se que o Diretor Jurídico do BRB já havia alertado formalmente o Conselho de Administração sobre os graves problemas daquela carteira de crédito quatro dias antes da referida reunião. Esse dado rasga a tese da grande mídia de que o comitê teria sido emparedado ou induzido a aprovar o negócio exclusivamente pelo peso das mensagens de Ailton de Aquino: os conselheiros já tinham o mapa do risco em mãos por canais internos antes da votação.
Segundo, e mais importante, os conselheiros do BRB que representavam os funcionários e os acionistas minoritários, Ricardo Rodrigues e Kátia Queiroz, emitiram nota oficial negando que tivessem sido informados de qualquer mensagem ou pressão por parte de Ailton de Aquino. Rodrigues explicou que a operação de R$ 270 milhões foi aprovada apenas porque o negócio já estava em curso. A declaração do conselheiro, no entanto, foi deliberadamente escondida no pé da matéria de O Globo, sem qualquer menção no título ou no intertítulo. Rodrigues expôs que embora tivesse proposto suspender a compra de carteiras – dado que já se negociava a aquisição do próprio Master – ele chancelou a operação por se tratar de algo que já marchava na área técnica. Para fechar o esvaziamento da farsa, Marcelo Talarico, o outro conselheiro a quem as mensagens de WhatsApp foram mostradas, esquivou-se e não quis comentar.
Documentos do próprio Banco Central e do TCU confirmaram que a área técnica de fiscalização, sob o comando de Aquino, vinha emitindo alertas formais e exigindo a adequação da gestão de liquidez do Master desde maio de 2024. Foi a equipe de Aquino que identificou as fraudes, acionou a Polícia Federal e o Ministério Público Federal e propôs a liquidação extrajudicial do banco. Quando os relatórios técnicos soterraram as especulações, a colunista de O Globo recuou estrategicamente, passando a focar nos dados do TCU sem publicar qualquer pedido de desculpas ou linha de “erramos” para o servidor injustiçado.
Adversários do STF e do governo assumem o direcionamento
Ficou evidente que os vazamentos não eram frutos do acaso, mas sim uma ação orquestrada por adversários do STF e do governo federal para capturar os rumos da investigação. A Revista Fórum puxou a capivara de um dos personagens por trás do vazamento do contrato de Viviane de Moraes: o perito criminal federal João Cláudio Nabas, afastado da corporação na 7ª fase da Operação Compliance Zero. Investigado por copiar e repassar ilegalmente os dados sigilosos para a imprensa, Nabas revelou-se um militante da ala lavajatista nas redes sociais, com histórico de publicações em apoio a Sergio Moro e ao deputado bolsonarista Marcel Van Hattem, incluindo postagens que atacavam o Supremo por anular as condenações de Lula.
Enquanto o núcleo lavajatista utilizava o perito ideológico para fustigar o governo e o Supremo — chegando a forçar a quebra de sigilo abusiva de Fábio Luís da Silva, o Lulinha —, o ministro André Mendonça transformou em facultativo o depoimento de Belline Santana, ex-chefe do DESUP (Departamento de Supervisão de Bancos), na CPI do Crime Organizado, blindando-o de prestar esclarecimentos.
Belline e Paulo Sérgio Neves de Souza (diretor de fiscalização na gestão de Roberto Campos Neto) são os verdadeiros integrantes do grupo criminoso de WhatsApp “A Turma”. As investigações da PF provam que Belline usava uma empresa de fachada (Varajo Consultoria) para receber propina de Daniel Vorcaro em troca de consultoria estratégica para burlar a fiscalização do próprio Banco Central. Ambos acabaram demitidos por Gabriel Galípolo em uma necessária faxina ética na transição de comando do BC. A gritaria ensurdecedora da mídia corporativa contra Ailton de Aquino serviu exatamente como cortina de fumaça para tentar emparedar a nova gestão de Galípolo, retaliar a demissão dos antigos operadores e paralisar a reestruturação da autarquia reguladora.
Para além da disputa no Banco Central, o escritório Barci de Moraes veio a público tentar conter o desgaste com uma nota de esclarecimento. A banca detalhou a realização de 94 reuniões de trabalho e a emissão de 36 pareceres técnicos voltados à implementação de programas de integridade (compliance) e adequação do banco às exigências da CGU. O argumento central da defesa para rebater as suspeitas de tráfico de influência é que o escritório nunca conduziu nenhuma causa para o Banco Master no âmbito do STF.
O STF sob ataque por seus acertos na defesa do Estado
O Caso Master acabou instrumentalizado para reativar o consagrado método de lawfare que marcou a história recente do país. A mecânica atual repete o roteiro de usar investigações financeiras hipertrofiadas e vazamentos seletivos não para buscar a aplicação estrita da lei, mas como ferramenta de pressão política coordenada para constranger e desestabilizar os canais institucionais de decisão do país.
A campanha feroz contra o Supremo não se dá por seus erros, mas por seu papel histórico de salvaguarda institucional do país. Autopreservação ou não, o fato é que o STF cumpriu rigorosamente o seu papel de guardião das instituições no período mais crítico da história recente do país.
Foi o Supremo que funcionou como o principal dique de contenção contra o avanço do extremismo e a tentativa de golpe de Estado em 2023. Diante dos ataques coordenados da articulação bolsonarista contra o resultado das urnas, a firmeza do Tribunal em punir os financiadores e mentores intelectuais, foi o elemento central que garantiu a estabilidade do país. Ao barrar a subversão da legalidade e impor limites aos setores inconformados, a Corte atraiu o rancor permanente de forças políticas e corporativas que operam à margem das regras do jogo democrático.
Esse ressentimento, na verdade, reativa as cinzas de uma contrariedade histórica: foi o próprio STF que, apesar de suas contradições passadas, restabeleceu o leito da legalidade ao declarar a parcialidade e a ilegitimidade dos métodos da Operação Lava Jato.
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