A disputa sobre os rumos da política monetária americana ganhou um novo capítulo com a defesa de uma versão atualizada do monetarismo por três economistas influentes, entre eles um ex-integrante do governo Donald Trump e um ex-dirigente do Federal Reserve.
Em artigo publicado pelo Project Syndicate, o economista James K. Galbraith afirma que a tentativa de recuperar a chamada “teoria quantitativa da moeda” representa o retorno de uma abordagem que já demonstrou limitações práticas na condução da política econômica.
A proposta defendida por Peter Ireland, Stephen Miran e Nouriel Roubini busca recuperar princípios associados ao economista Milton Friedman, um dos principais formuladores do monetarismo, mas adaptados a instrumentos atuais, como o índice Divisia — uma forma de medir a oferta de moeda considerando diferentes graus de liquidez dos ativos. O documento publicado pela gestora de investimentos Hudson Bay Capital (onde Miran e Roubini trabalham como estrategistas seniores) teria como objetivo oferecer ao Federal Reserve uma referência adicional para avaliar pressões inflacionárias.
Para Galbraith, porém, o problema central permanece: a velocidade da moeda continua instável, dificultando prever a relação entre dinheiro disponível e inflação; e os indicadores tradicionais de inflação podem misturar fenômenos diferentes, como aumento de preços de ativos e inflação de bens recém-produzidos.
O papel do novo presidente do Fed
O debate ganha relevância porque envolve Kevin Warsh, novo presidente do Federal Reserve, que estudou Milton Friedman durante sua formação acadêmica. Segundo Galbraith, Warsh estaria correto ao reduzir o excesso de comunicação pública do Fed, mas não deveria transformar a instituição em uma seguidora de indicadores monetários.
O economista defende que o banco central deveria prestar contas ao Congresso e reduzir a dependência de orientações detalhadas ao mercado. Na sua visão, a transparência não deve significar que o Fed tente controlar expectativas por meio de declarações constantes, mas que mantenha maior responsabilidade institucional perante representantes eleitos.
O retorno de uma velha disputa econômica
O monetarismo ganhou força principalmente a partir dos anos 1970, em meio ao cenário de inflação elevada nas economias desenvolvidas. A ideia central da teoria é que o crescimento excessivo da oferta de moeda provoca aumento generalizado de preços.
A lógica monetarista é que, se a quantidade de moeda cresce mais rapidamente que a produção, a inflação tende a aparecer. O problema, argumenta Galbraith, é que essa equação depende de uma variável fundamental: a velocidade da moeda, uma variável que Galbraith diz não ser constante.
O fracasso da experiência Volcker
O principal teste do monetarismo ocorreu durante o comando de Paul Volcker no Federal Reserve, no início dos anos 1980. Diante da inflação elevada, o Fed tentou controlar diretamente o crescimento dos agregados monetários – uma estratégia que provocou forte aperto monetário, recessão e aumento expressivo do desemprego.
Com o tempo, o banco central americano abandonou o controle direto da oferta de moeda e migrou para um modelo baseado principalmente na definição das taxas de juros de curto prazo e na comunicação com os mercados. Esse modelo se consolidou no chamado regime de metas de inflação.
O ponto mais atual da crítica de Galbraith está relacionado ao episódio inflacionário após a pandemia de Covid-19: defensores do monetarismo argumentam que o forte aumento da oferta de moeda provocado pelos programas de estímulo contribuiu para a inflação de 2021 e 2022.
Galbraith contesta essa interpretação. Segundo ele, parte importante da alta de preços daquele período ocorreu em ativos já existentes, como imóveis e veículos usados, que não deveriam ser tratados da mesma forma que a inflação de bens e serviços produzidos naquele momento. Para o economista, houve uma dificuldade conceitual em medir a própria inflação.
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