13 de setembro de 2026

Justiça de SP travou investigação sobre Dark Horse ao restringir acesso a dados

Polícia Civil de São Paulo pediu acesso a informações financeiras de Karina Ferreira da Gama, mas Justiça solicitou mais elementos para autorizar a medida; caso foi levado ao STF por Flávio Dino
Crédito: Instagram/Jim Caviezel

Investigação sobre o filme “Dark Horse” em SP paralisou por falta de autorização para acessar dados financeiros da produtora.
Polícia Civil reuniu evidências de documentos suspeitos em contratos do Instituto Conhecer Brasil, com contratos de R$ 36 mi.
Ministro Flávio Dino levou inquérito ao STF; defesa de Karina Gama nega irregularidades e destaca colaboração com investigações.

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A investigação conduzida pela Polícia Civil de São Paulo sobre possíveis irregularidades envolvendo o filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro, ficou paralisada diante da falta de autorização judicial para acessar dados financeiros da produtora responsável pela obra.

O inquérito, cujo sigilo foi posteriormente levantado pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), apura suspeitas relacionadas a um contrato de mais de R$ 100 milhões firmado pela Prefeitura de São Paulo com o Instituto Conhecer Brasil (ICB) para instalação e manutenção de pontos de Wi-Fi gratuito na capital.

Karina Ferreira da Gama preside o ICB e também é proprietária da Go Up Entertainment, empresa responsável pela produção de “Dark Horse”. A investigação passou a ganhar maior repercussão após a divulgação de gravações nas quais Flávio Bolsonaro teria pedido recursos a Daniel Vorcaro para a realização do filme.

O material reunido pela polícia paulista inclui dados brutos de aparelhos apreendidos durante a operação de busca e apreensão realizada em junho. Parte dessas informações já foi compartilhada com a Polícia Federal.

O caso foi posteriormente assumido por Dino, que já investigava o destino de emendas destinadas ao Instituto Conhecer Brasil. Paralelamente, existe outro inquérito no STF que apura possíveis irregularidades relacionadas ao financiamento de “Dark Horse”, incluindo supostos repasses feitos por Vorcaro a um fundo nos Estados Unidos que teria ligação com o financiamento da produção.

Pedido de acesso a dados financeiros

A investigação paulista começou em março, a partir de uma reportagem do site The Intercept Brasil, e inicialmente tinha como foco empresas subcontratadas pelo ICB para executar o contrato de instalação dos pontos de internet.

Em junho, a Polícia Civil deflagrou uma operação de busca e apreensão em endereços relacionados ao instituto.

A apuração, porém, encontrou dificuldades para obter relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) sobre as movimentações do ICB e de Karina Ferreira da Gama. O Ministério Público havia se manifestado favoravelmente ao acesso aos dados, argumentando que a medida seria necessária para confirmar ou afastar as suspeitas investigadas.

Em 28 de agosto, o juiz Nelson Augusto Bernardes de Souza, da Vara Estadual das Garantias de Organizações Criminosas e Lavagem de Bens, determinou que a Polícia Civil apresentasse informações adicionais antes de decidir sobre a quebra do sigilo.

Segundo o magistrado, o pedido não havia individualizado de forma suficiente quais elementos, além da denúncia inicial e das reportagens anexadas ao processo, sustentavam as suspeitas sobre as movimentações financeiras.

A Justiça também pediu que os investigadores apresentassem provas concretas que justificassem a inclusão de Karina na análise financeira, especialmente em relação à hipótese de que recursos do contrato municipal pudessem ter sido utilizados nas atividades da Go Up Entertainment.

Polícia apresenta novos elementos

Em resposta entregue em 4 de setembro, a Polícia Civil afirmou ter reunido evidências materiais independentes das reportagens que deram origem à investigação.

Durante buscas na sede da Make One Tecnologia Digital, empresa contratada pelo ICB, foram encontradas faturas emitidas contra o instituto referentes à suposta locação de equipamentos eletrônicos.

De acordo com os investigadores, os documentos apresentavam numeração sequencial, haviam sido emitidos na mesma data e tinham os mesmos vencimentos. Além disso, não estavam acompanhados de comprovantes que demonstrassem a efetiva prestação dos serviços.

Para a polícia, as características das faturas poderiam indicar um “artifício documental” utilizado para justificar a retirada de grandes volumes de recursos públicos vinculados ao projeto.

A Make One mantinha contratos de aproximadamente R$ 36 milhões com o ICB, segundo os documentos reunidos no inquérito.

A Polícia Civil também citou uma nota fiscal de R$ 2 milhões emitida pela empresa Complexys Soluções Integradas para supostos serviços de reparos técnicos. O documento teria sido cancelado no sistema da Fazenda municipal no mesmo dia em que foi emitido, mas, segundo os investigadores, acabou incluído na prestação de contas apresentada à Prefeitura de São Paulo.

Para justificar a inclusão de Karina no pedido de acesso às informações financeiras, o delegado responsável apontou indícios de “confusão patrimonial” entre as entidades sob comando da empresária.

Inquérito é levado ao STF

Antes que a Justiça paulista concluísse a análise sobre o acesso aos dados financeiros, Flávio Dino decidiu avocar o inquérito e a medida cautelar relacionada à busca e apreensão.

Em ofício de 10 de setembro, o ministro determinou que os dois procedimentos fossem encaminhados integralmente ao STF no prazo de 48 horas.

Com a decisão, a investigação realizada pela Polícia Civil de São Paulo passou a tramitar junto aos procedimentos que apuram o financiamento de “Dark Horse” e envolvem pessoas com foro no Supremo.

A Polícia Civil já havia compartilhado com a Polícia Federal documentos e objetos apreendidos durante as buscas realizadas em São Paulo.

Além disso, o Ministério Público do Distrito Federal solicitou acesso ao material apreendido para analisar outro contrato firmado pelo Instituto Conhecer Brasil, desta vez com o governo do Distrito Federal.

Defesa nega irregularidades

A defesa de Karina Ferreira da Gama considerou positiva a decisão de retirar o sigilo da investigação e afirmou que a transparência permitirá que os fatos sejam examinados de forma objetiva.

Os advogados sustentam que Karina nega ter cometido qualquer irregularidade e destacam que ela já teria entregue voluntariamente mais de 20 mil páginas de documentos às autoridades.

A defesa também afirmou que a empresária continuará colaborando com as investigações e ressaltou que uma investigação não representa, por si só, uma acusação ou condenação.

Segundo os advogados, o caso deve ser analisado tecnicamente, sem interferência de disputas políticas.

A Prefeitura de São Paulo, por sua vez, afirma que não identificou irregularidades no contrato firmado para a instalação e manutenção dos pontos de Wi-Fi gratuito.

*Com informações do UOL.

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