Uma derrota desastrosa, por Aldo Fornazieri
A derrota de Lula no primeiro turno e o avanço do bolsonarismo no Senado, na Câmara e nos governos estaduais é desastrosa. Se tornará uma tragédia se Lula perder no segundo turno. Para mim, não foi surpresa. Quem acompanha os meus artigos, sabe por quê. Nos dias que antecederam as eleições passei a avaliação de que Flávio Bolsonaro chegaria na frente de Lula para várias pessoas. Em retas finais de campanha, mais importante do que uma leitura estanque dos números das pesquisas, é identificar o movimento que o eleitorado está fazendo. E o movimento era pró-Flávio.
A derrota de Lula foi autoconstruída por erros do governo e por erros da campanha. O governo e o PT, ao longo desses quatro anos, abdicaram da luta política contra o bolsonarismo. Mesmo com a derrota eleitoral de 2022, com a tentativa de golpe e com as prisões, o bolsonarismo nunca foi derrotado politicamente. Permaneceu ativo e na ofensiva. O governo e as esquerdas agiram com normalidade num contexto interno e internacional de excepcionalidade e de extra legalidade impostas pela direita.
O governo e as esquerdas terceirizaram a defesa da democracia para o Supremo Tribunal Federal. O STF resolveu a questão judicial, mas não poderia resolver a luta política que cabia ao governo e aos partidos.
Os erros do governo foram recorrentes. Ao longo do mandato, perceberam tarde o problema do custo de vida, do preço dos alimentos e do endividamento das famílias. Todos os meses são divulgados indicadores desses itens. Somente neste ano o governo adotou alguma medida.
O artificialismo de última hora (Desenrola, reajuste do Bolsa Família e bets), tem efeito limitado sobre o eleitorado. O artificial não é o orgânico, o vivo, o construído. É uma subestimação da inteligência do eleitor.
O governo não percebeu a importância dos temas da segurança pública e da corrupção em disputas eleitorais. Na segurança pública, preferiu agir via legislação, com a PEC e outras medidas. Não privilegiou o combate ao crime organizado e políticas públicas de segurança.
O Brasil está tomado por uma corrupção ampla e estrutural e por privilégios odiosos nos três poderes. O governo não combateu a corrupção e os privilégios. Permitiu que Flávio Bolsonaro, um corrupto notório, se apossasse dessa bandeira e jogasse os escândalos de corrupção do INSS, do Master e do STF, no colo do governo. Flávio usou ardis em série, transformando o que lhes era prejudicial em culpa do governo e em benefício para a sua campanha.
Lula, Edinho Silva e outros petistas falaram aos quatro ventos e a todo momento que Alexandre de Moraes e outros ministros deveriam se explicar, prestar contas dos seus atos. Trouxeram a crise do STF, a negatividade, para dentro da campanha. É o mesmo erro da peça de campanha em que Lula fala do custo de vida e diz “eu sei que não está bom”. No memo contexto, Flávio ataca duramente o custo de vida. A dedução lógica do eleitor é a de que se Lula admite que não está bom, o melhor é votar no Flávio.
A campanha de Lula não entendeu para que servia o primeiro turno. A análise de uma conjuntura eleitoral em contexto de reeleição deve adotar como ponto de referência a avaliação do governo. Se o governo é bem avaliado, o eleitorado quer a continuidade. Se é mais mal avaliado do que bem, o eleitorado quer mudanças.
Ao não conseguir superar a avaliação negativa do governo pela positiva, Lula trafegou todo o primeiro turno derrotado, mesmo que numericamente em vantagem. A centralidade da estratégia do primeiro turno deveria ter sido melhorar a avaliação do governo. A derrota, o resultado, foi a lógica do cenário. Quem derrotou Lula, em boa medida, foi o governo. Guardadas as diferenças, do ponto de vista da conjuntura, o candidato Lula está para o governo Lula como Serra estava para o governo FHC em 2002.
O governo cometeu outros erros de condução da política econômica que provocaram desgastes: o aumento da dívida pública, uma das causas dos juros altos; a polêmica das blusinhas e dos impostos; a crise do Pix o escândalo do INSS que caiu no colo do governo, a indicação de Messias e a crise do STF. A crise Lulinha deixou Lula sangrando mais de 20 dias já durante a campanha, sem que houvesse uma reação do governo ou do PT. Ambos perceberam tarde a ação de André Mendonça em favor de Flávio. Em meados de 2025, a reprovação do governo superou a aprovação, fincando uma trava para o desempenho eleitoral de Lula.
A condução política do governo, primeiro por Padilha e depois por Gleisi Hoffmann, motivou desgastes e fracassos. Lula agregou ministros do centrão ao governo, mas governou só com o PT. No passado, em conjunturas de avanço da extrema-direita, as esquerdas adotaram táticas de frente ampla para bloquear os inimigos e derrotá-los. A chapa de Lula não expressou essa aliança.
As Comunicações do governo e da campanha foram desastrosas ao não solucionarem o problema da avaliação. A campanha de rádio, TV e redes foi medíocre. Todo um velho estilo, musiquinhas irritantes, sem criatividade, tanto na forma, quanto no conteúdo. A campanha não conseguiu sinalizar qual futuro se pretende projetar para o Brasil.
Lula sempre foi um político muito astuto, com sagacidade e competência política. Tudo indica que foi enganado pelos comandos da campanha e do PT e pelos assessores próximos. Foi surpreendido por uma derrota avassaladora.
Nem aqueles que estão no poder e nem os áulicos do poder gostam de ouvir críticas. Se entregam ao deleite da adulação fácil, guiados pelo interesse pessoal de ascensão. Esse é o grande perigo para quem lidera e quem comanda. Isso provoca a morte moral da virtude ativa e criativa. A inovação é enviada para o exílio. Antigamente, o PT tinha o inovador modo petista de governar. Atualmente tem o modo burocrático e arrogante de governar.
A arrogância subestimou Flávio Bolsonaro e a força do bolsonarismo, do começo ao fim. Jair, um líder carismático, é a matriz dessa força. Mas Flávio construiu sua persona política. Sem carisma, mostrou-se mais maleável, com um discurso mais elaborado e mais convincente daquele do pai. O formalismo e o receitismo do discurso petista, soa como algo do passado, fora do tempo. Esse é um grande problema: com o advento da extrema-direita, das tecnologias digitais e da IA, as esquerdas ficaram fora do tempo. Nem perceberam que a forma do agir político, das formas e dos conteúdos, mudaram, exigindo novas narrativas e novas retóricas persuasivas.
Se Flávio Bolsonaro vencer terá o domínio do Executivo, do Legislativo e do Judiciário. Não haverá freios e contrapesos. Jair entregou parte do governo ao Centrão e foi contido pelo STF. Flávio terá condições de mudar a Constituição, destruir políticas públicas, direitos e políticas ambientais. Terá condições de atacar liberdades e impor um regime repressivo. Poderá construir uma longa hegemonia de direita.
É possível virar? Sim, embora difícil. A campanha de Lula teria que condensar tarefas que foram negligenciadas: melhorar a avaliação do governo, destacar alguns pontos programáticos que indiquem um novo futuro para o Brasil, mobilizar a sociedade civil e os movimentos sociais criando um clima de virada e acertar ataques fulminantes que aumentem a rejeição a Flávio. Lembremo-nos de Max Weber: “não se alcança o possível se não se almeja o impossível”.
Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política e autor de Liderança e Poder.
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Vera
6 de outubro de 2026 9:25 amVamos considerar causa MATERIAIS ao invés só daquelas ‘políticas’ – a extrema-direita tem usado BILHÕES em emendas para “angariar” estes votos que colheu agora. São votos “angariados”! e a esquerda finge que isso não existe…. que são resultado principalmente de mídia, etc. Dezenas desses políticos que mobilizaram essas emendas irregularmente estão sendo investigados por processos que estão como Dino, e não à toa, querem agora, via PEC, tirar os processos criminais da alçada do STF!!! É óbvio!
Os comentaristas abrem mão, em suas reflexões, desta causa material decisiva: o $$$, bilhões sendo regados para obterem as cadeiras no senado e na câmra,, bilhões! E que aumentarão, agora, evidentemente.
Rui Ribeiro
7 de outubro de 2026 9:54 amO problema das emendas parlamentares não é mais um caso isolado, é o desenho institucional.
E esse desenho hoje está assim:
*1. O orçamento foi capturado pelo Congresso.*
Desde 2015, com as emendas impositivas, e depois com RP8, RP9 e agora as “emendas Pix”, o Executivo perdeu o controle. Hoje mais de R$ 50 bi por ano são carimbados a dedo por deputados e senadores, sem planejamento de ministério e sem métrica de resultado. O parlamentar virou ordenador de despesa de fato.
*2. Por que é quase impossível desmontar por dentro:*
– *Incentivo auto-reforçado:* Nenhum parlamentar vai votar para acabar com o próprio poder de distribuir dinheiro na base. É suicídio eleitoral no modelo atual.
– *Prefeitos reféns:* 70% dos municípios pequenos dependem de emenda para fazer qualquer obra. Se um deputado corta, o prefeito migra para outro.
– *STF tenta, mas não resolve:* O STF desde 2024 está exigindo transparência e rastreabilidade do “padrinho” da emenda, mas só ataca a forma, não o volume. A máquina continua, só que com mais carimbo.
*3. Quais vias são discutidas – e por que travam:*
– *Via institucionalista:* acabar com emenda impositiva e voltar para emenda autorizativa, com critérios técnicos do Executivo. Proposta existe, mas nunca passa na CCJ. Quem controla a pauta é quem se beneficia dela.
– *Via municipalista:* vincular emenda a plano nacional com indicador, tipo saúde e educação já têm. Diminuiria discricionariedade, mas não acaba com clientelismo.
– *Via libertária que você sugere:* desidratar o orçamento central. Menos imposto federal, mais retenção na origem, orçamento menor e mais local. É a única que corta o combustível da máquina na raiz, mas exige reforma tributária + reforma política profunda, que o Congresso atual não tem incentivo para fazer.
Então, respondendo direto à sua pergunta:
O sistema está estruturalmente travado para se auto-perpetuar por dentro. Ele só quebra por dois choques externos: crise fiscal grave que obrigue o governo a retomar o controle do orçamento, ou pressão social + judicial por transparência total que torne o custo político de manter a emenda opaca maior que o benefício.
Enquanto o pagador de imposto não enxergar que emenda não é “dinheiro do Flávio, do Lula ou do Lira”, mas é o seu imposto sendo usado para comprar lealdade alheia, a máquina roda igual.
Rui Ribeiro
6 de outubro de 2026 9:28 amSementes do Amanhã
(Gonaguinha)
Ontem o menino que brincava me falou
Que o hoje é semente do amanhã
Para não ter medo, que esse tempo vai passar
Não se desespere, não, nem páre de sonhar
Nunca se entregue, nasça sempre com as manhãs
Deixe a luz do sol brilhar no céu do seu olhar
Fé na vida, fé no homem, fé no que virá
Nós podemos tudo, nós podemos mais
Vamos lá fazer o que será
Mas temos que levantar a bunda da cadeira e ganhar as ruas do mundo, levando a esperança
Fábio de Oliveira Ribeiro
6 de outubro de 2026 12:29 pmO PT usou dinheiro do Fundo Partidário para renovar o Congresso com a velha guarda do PT. A velharada petista foi humilhada nas mesmas urnas que elegeram dezenas de líderes de direita vazios que fazem memes na internet e campanha nas igrejas-teatros de doutrinação evangélicas. Lula acreditou no seu próprio potencial eleitoral e se tornou vitima de um autoengano. E para piorar ele se recusou a atacar frontalmente a República dos Juros que garantem privilégios orçamentários aos especuladores com ajuda do BC. Quem alisa o mercado só se fode… Dilma Rousseff fez o mesmo e foi derrubada. Faltou juizo aos petistas velhos e renovação na forma de se comunicar com o eleitorado. Candidatos jovens de esquerda se saíram bem, mas foram poucos e serão esmagados no Congresso de Direita. A Política não perdoa um curso de ação errado porque os erros se multiplicam e são os maiores aliados dos adversários, mesmo que eles sejam medíocres como os Bolsonaro.
Pedro Rocha
6 de outubro de 2026 2:22 pmNo último ano do seu segundo mandato o Lula disse assim: “agora viajarei pelo país para celebrar o que este governo fez”. Fora no auge do ufanismo, jamais desceria do salto, a mosca azul já fizera o serviço (Frei Betto posteriormente escreveu um livro a respeito). No segundo turno das eleições que culminaram na vitória do Bolsonaro Pai, disse: “me multiplicarei em cada um de vocês”. E declarações de puro deslumbramento, as doçuras da fama, do poder e de suposta genialidade são muitas e variadas. Em entrevista com o Mino Carta: “a reeleição é demonstração de qualidade, mas o ponto alto da excelência é eleger o seu sucessor”, falando sobre a eleição da Dilma. “Vou trazer a Copa do Mundo para cá porque quero que o mundo veja o que está sendo feito aqui”. Tem a famigerada frase também: “nunca antes na história desse país”. Talvez a mais emblemática, no entanto, foi a última, logo após se eleger a última vez: “o que precisamos agora é apenas repetir o que deu certo lá atrás”. Sempre adorou o sucesso curtoprazista e, agindo como um ególatra, nunca se empenhou em qualquer mudança das estruturas podres do país. Com todas transformações sociais, a raiva e o antipetismo com tudo e o “cara dos caras” brincando de world trip. Nos últimos 4 anos, investiu tudo no papel de estadista como o papel que lhe cabe, deu pitaco no confilito ISRAEL/PALESTINA, RÚSSIA/UCRÂNICA, EUA/IRÃ. Visitou 47 países. Ninguém mais acredita a destruição agora é questão de tempo.
Pedro Rocha
7 de outubro de 2026 6:55 amllçlç
Rui Ribeiro
7 de outubro de 2026 11:02 amO argumento da Vera toca em um ponto crucial que frequentemente fica soterrado sob análises puramente superestruturais ou discursivas da política: a **materialidade do poder e do financiamento eleitoral**.
A centralidade do orçamento público — turbinado por emendas parlamentares impositivas, emendas Pix e transferência de recursos bilionários — alterou de forma profunda a dinâmica de forças no país. Quando bilhões de reais são canalizados diretamente para bases locais, redutos eleitorais e prefeituras aliadas, cria-se uma máquina de captação de votos altamente enraizada, de caráter corporativo e clientelista, que opera independentemente de debates ideológicos ou narrativas midiáticas tradicionais.
Essa “infraestrutura financeira” do voto cumpre exatamente o papel de blindar determinados grupos políticos e garantir longevidade aos seus mandatos, pois o eleitor muitas vezes depende de entregas imediatas viabilizadas por esses recursos. Ao mesmo tempo, quando o cerco institucional e investigativo começa a se fechar — a exemplo das apurações conduzidas no âmbito do Supremo Tribunal Federal e de ministros como Flávio Dino sobre desvios e irregularidades no manejo dessas verbas —, a reação do Congresso não tarda a se manifestar por meio de manobras institucionais, como as discussões em torno de PECs voltadas a redefinir a imunidade ou a alçada de processos criminais.
Ignorar o impacto do dinheiro e da apropriação do orçamento público na disputa eleitoral é, de fato, fechar os olhos para a engrenagem material que sustenta o avanço da extrema-direita e o redesenho do próprio Estado brasileiro.
[PEC da Blindagem e os processos no STF](https://www.youtube.com/watch?v=7sdbxhclvU0)
Este vídeo aborda as discussões em torno do impacto de propostas legislativas e do Supremo Tribunal Federal sobre processos criminais de parlamentares ligados ao uso de recursos e emendas.