4 de junho de 2026

O Brasil que emerge do governo Temer, por Marcio Pochmann

“Somente o abandono da política kamikaze de Temer poderia recompor o Brasil no seu conjunto e em torno de um novo caminho sustentável”
 
Marcio Pochmann
 
 
 
 
Consequência do improdutivo rentismo tupiniquim, o grau de investimento na economia nacional derrete para próximo de um décimo do PIB, sem paralelo nas estatísticas oficiais
 
“… o sentido da colonização brasileira … é o de uma colônia destinada a fornecer ao comércio europeu alguns gêneros tropicais ou minerais de grande importância …” (Prado Jr., 2000)
 
“A nossa economia se subordina inteiramente a este fim, isto é, se organizará e funcionará para produzir e exportar aqueles gêneros. Tudo mais que nela existe … será subsidiário e destinado unicamente a amparar e tornar possível a realização daquele fim essencial.” (Furtado, 1977).
 
A recente expansão dos setores agrários e de exportação aponta o sentido de Brasil que emerge da mais grave recessão econômica de todo o período republicano. Sem poder contar com as forças do seu mercado interno, mutiladas pela condução da política econômica do governo Temer, sobressaem os múltiplos e individualizados interesses regionais em conexão cada vez maior com o exterior, o que termina por reconstituir a velha figura do arquipélago de regiões sem a existência de um centro dinâmico e integrador do nacional.
 
Nesse sentido vem a retomada da trajetória que vigorou por quatro séculos (1530 a 1930), quando a evolução regional expressava simplesmente a forma com que o Brasil encontrava-se inserido na economia mundial.
 
Embora os ricos acumulassem suas riquezas a partir de uma economia fragmentada em alguns enclaves localizados no território sem conexão interna, eles se mantinham focados no modo de vida de fora, especialmente na Europa.
 
Por conta disso, não causa estranheza reconhecer que nos dias de hoje, os ricos e privilegiados miram-se cada vez mais no exterior. Tem sido comum, por exemplo, empresários, ministros de Estado e até presidentes do Banco Central continuarem a receber suas remunerações no Brasil, embora mantenham suas famílias no exterior.
 
Também comentaristas e analistas econômicos, entre outros ilustres personagens abordados recorrentemente pela mídia local, emitem opiniões e reflexões na defesa da política kamikaze no Brasil a partir de breves passagens pelo país ou mesmo de onde se encontram, no exterior.
 
Nada mais favorável ao improdutivismo rentista tupiniquim que, alimentado por doses cavalares das mais altas taxas de juros do mundo, prefere a transferência da sua localização para países “seguros”, com crescimento econômico e serviços públicos decentes, bem como escolas de elevada performance para seus filhos.
 
Da mesma forma, registra-se que o avanço na deflação de preços, a denunciar a sequência depressiva em que se encontra o sistema produtivo voltado ao mercado interno, recebeu maior impulso com a mais nova decisão da equipe econômica de Temer de rebaixar a meta e o nível das bandas superior e inferior da inflação. Assim, a direção do Banco Central recebeu carta branca para manter o país na liderança mundial da taxa de juros real.
 
Com isso, o grau de investimento na economia nacional derrete para próximo de um décimo do PIB, sem paralelo nas estatísticas oficiais. A política de terra arrasada tende a seguir garantida pela somatória de interesses próprios dispersos regionalmente e cada vez mais individualizados pelo câncer do rentismo.
 
O autoexílio dos interesses da nação, expressão do insulamento de vontades individuais rebaixadas e de posições de egoísmo condenável, estende-se nos diversos poderes da República.
 
Somente o abandono da política kamikaze de Temer poderia recompor o Brasil no seu conjunto e em torno de um novo caminho sustentável para a recuperação econômica, base pela qual, seria possível fazer as pazes com o futuro e que este não fosse a repetição do passado.
 
* Professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho, ambos da Universidade Estadual de Campinas

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

7 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Marcos Videira

    2 de julho de 2017 8:35 pm

    Falta a vontade do povo

    O Brasil não terá possibilidade de se tornar uma Nação moderna, uma República Democrática livre e soberana, enquanto sua elite econômica golpista, com valores escravagistas, não for eliminada da vida política.

    Para que a mudança de verdade ocorra, as condições objetivas estão dadas. Nunca foram tão explícitos os cruéis interesses, a prática criminosa e os valores fascistas da maior parte de nossa elite econômica. E a tendência é piorar a vida material do povo.

    Porém, faltam as condições subjetivas, ou seja, a maioria do povo consciente e organizado, com vontade de realizar uma ação humanizadora.

  2. ADROALDO LIMA LINHARES

    2 de julho de 2017 9:14 pm

    DILMA PRÁ ONTEM!!

    Resultado de imagem para DILMA IMAGENS

  3. lenita

    2 de julho de 2017 10:26 pm

    É o mundo da “banca” !

    Que se estabeleceu no Brasil. Tudo o mais não importa para os Golpistas, formados basicamente por ladrões do nosso dinheiro (PMDB) e vendilhões da pátria (PSDB) . O que esperar dessa corja de brasileiros, cujo último interesse é o país onde nasceram e seu povo (que se dane ).

    Não conhecem o país e muito menos tem a mínima noção de como administrá-lo. Pelos convidados a participar do governo dá para se ver que a intenção era totalmente outra: salvar o pescoço próprio e de seus novos-velhos companheiros da sanha anticorrupção instalada pela Lava Jato e jamais  impedida pelo governo da Presidente Dilma. O desmonte da lava jato já se vislumbra no ar , apesar  de ainda influenciada por governos estranhos , e  com proteção para os amigos deles. Permitindo apenas que passe algumas coisitas para não dar tanto na cara. Mas na semana seguinte volta tudo como antes no quartel de Abrantes (STF).

    Haja sa…, ops , paciência !

  4. Alvaro Tadeu

    2 de julho de 2017 11:44 pm

    Erratum, errata

    Nassif, vou considerar, como se dizia antigamento, que houve erro de datilografia. Pochman quis dizer “O Brasil que SUBmerge…”

  5. Jofran Oliva

    3 de julho de 2017 1:03 am

    Enquanto pobres com cérebro. . .

    Enquanto pobres com cérebro de galinha forem comandados pela Rede Globo e Veja teremos um Brasil colônia e submisso aos interesses do capital internacional. O mais triste são os pobres com uma casinha e um carro velho se achando ricos e votando na direita e xingando o PT.

    1. Ronaldo Volmer Frechiani

      3 de julho de 2017 10:15 am

      Será que a culpa tem de ser
      Será que a culpa tem de ser sempre dos pobres?

  6. Luís Henrique Donadio

    3 de julho de 2017 2:45 am

    Só uma observação: o Brasil

    Só uma observação: o Brasil não emerge do “governo” Temer, e sim submerge nele.

Recomendados para você

Recomendados