A bela Nossa Senhora de 850 anos
por Walnice Nogueira Galvão
Se alguém alimenta dúvidas sobre o papel crucial de Notre-Dame como emblema da França, basta lembrar que foi lá que Napoleão se coroou imperador. Foi lá que se procederam às exéquisas de Charles de Gaulle, oficiada para chefes de estado acorridos do mundo inteiro. Também foi lá que se celebrou a missa de ação de graças pelo término da Guerra do Vietnam, ao som da Missa em tempo de guerra, de Haydn. Fora lá também que um afoito, apostando no alcance simbólico do gesto, hasteara nas alturas uma bandeira vietnamita.
Notre-Dame sobreviveu à pilhagem em várias convulsões sociopolíticas e aos nazistas que ocuparam a França durante toda a Segunda Guerra. Era lógico que a passeata recuperando Paris na Liberação em 1945 percorresse os Champs Elysées e terminasse lá, de Gaulle à frente. E não há criança que não tenha lido o romance Notre-Dame de Paris, de Victor Hugo, em que o protagonista é o Corcunda mas o panorama é dominado pela grandiosa construção gótica.
Um espetáculo no monumental pátio interno dos Invalides/ Escola Militar, com hologramas de Notre-Dame sobre os muros, lançou a campanha para angariar fundos destinados à reconstrução e celebrar a união de todos em torno da causa. A campanha solicita 1 euro de cada pessoa.
Programação variada, com música popular e clássica, artistas de todo tipo, canções e árias de ópera, até pas de deux com Marie-Claude Pietragalla, primeira bailarina da Ópera Nacional ao tempo em que Rodolfo Nureiev era diretor, hoje comandando sua própria companhia.
Os pontos altos incluíram Lang Lang ao piano tocando Clair de lune, de Debussy. Mireille Mathieu cantou a Ave Maria, de Schubert, em latim, com perfeita pronúncia: nem os –rr- eram os ásperos franceses, mas brandos e prolados como os nossos; tampouco transformou todas as palavras em oxítonas. Ouviram-se as lindas vozes infantis do coro dos Enfants de la Croix-de-Bois, só de meninos, famosíssimo no mundo inteiro. A orquestra sinfônica da França tocou Mozart e trechos da Paixão segundo São Mateus, de Bach. Mas pontos altos mesmo foram as entrevistas e depoimentos, alguns bem comoventes.
Falou o comandante dos Sapeurs–Pompiers, relatando as operações para debelar o fogo na velha igreja. Falou a prefeita de Paris, Anne Hidalgo. Falou a Ministra dos Exércitos. Falou um dos três organistas oficiais encarregados do órgão de 5 teclados e 8 mil tubos, um dos maiores e de som mais afinado do mundo, que felizmente escapou. Quem teve a sorte de ouvir um concerto dominical em Notre-Dame sabe como as pedras vibram ao som do órgão. Falou um carpinteiro que há 30 anos cuida do madeirame que sustentava o arcabouço do telhado e que foi devorado pelas chamas.
Coroando tudo, não poderia faltar a leitura de um trecho de Notre-Dame de Paris, que reencena o histórico da bela senhora, bem como de seu inquilino e encarnação o Corcunda.
É costume que qualquer reunião termine pela Marselhesa, modelo de hino patriótico que não foi composto para ser hino patriótico mas que é uma canção nascida do povo, na Revolução Francesa. Desta vez, a expectativa foi frustrada. E o presidente da República, guardião supremo dos monumentos franceses, talvez temendo ser chamado às falas, escafedeu-se: teria medo de uma vaia?
Como ninguém ignora, Paris é a cidade mais visitada do mundo, e, nela, Notre-Dame vem a ser, sozinha, o monumento mais visitado do mundo. Foi chocante ver a notícia do incêndio, que ainda não parecia tão grave, e de repente assistir em tempo real à queda da Grande Flecha toda esculpida, verdadeira joia rendada, uma filigrana de pedra de muitos metros. E que, de repente, tombou sobre a telhado da nave, incinerando o travejamento de vigas de madeira que o sustentava. Aí é que o incêndio se tornou grave. Dizem que uma floresta inteira de carvalhos formava essa parte, semelhante ao cavername de um barco.
Povo acostumado à destruição e à reconstrução, não será ainda desta vez que desanimará. A campanha por recursos já está em andamento, com resultados auspiciosos.
Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP
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