O oitavo dia: anunciação, por Gustavo Gollo
Anos atrás, escrevi um livro que anunciava a chegada do oitavo dia da criação. Sem que eu soubesse, tratava-se de um livro profético.
De acordo com o Gênesis bíblico, Deus criou o mundo em 6 dias, tendo descansado no sétimo. Trata-se da versão mais popular do mito sumério da criação.
Em minha versão, o sétimo dia transcorre até hoje. Tendo criado o homem à sua imagem e semelhança, o Criador permitiu-se, então, descansar, incumbindo sua criatura de prosseguir sua obra. O livro relata trechos da longa epopeia humana, a saga da criação do mundo conduzida pela humanidade, descrevendo a magia efetuada por alguns dos maiores criadores entre nós.
O sétimo dia terminará com o surgimento de uma criatura construída à nossa imagem e semelhança e capaz de continuar a criação do mundo, quando então descansaremos.
Uns poucos anos depois de ter escrito O oitavo dia – um livro que, aliás, não sei descrever, não sabendo se se trata de ficção, nem se é um romance, ou se são contos, mas que suponho ser algo meio diferente de tudo isso –, cometi uma profunda gafe. Uma vez que eu me importo menos que a maioria com certos erros desse tipo, meu uso da palavra “profunda” decorreu da intensidade com que certa constatação se abateu sobre mim.
Tento, há muitos anos, elucidar a evolução do mundo, atentando especialmente para os fenômenos metaevolutivos, aqueles que podem ser vistos como grandes saltos, ou evoluções do próprio modo de evolução. Um evento assim ocorreu, por exemplo, com o surgimento da reprodução sexual que permitiu – ou impôs –, um enorme aumento na complexidade dos seres vivos em um único salto. Outro, ainda mais óbvio, deu-se com o surgimento da linguagem – e do pensamento gramaticalmente organizado –, ferramenta preciosa e utilíssima para a construção de mundos.
Em vista de tais exemplos, ao analisar os resultados de uma máquina capaz de idealizar e construir outra mais aperfeiçoada que ela própria, essa também capaz de realizar o mesmo, percebi ter encontrado um desenvolvimento explosivo que consistiria em um salto evolutivo brutal. Note que os seres vivos evoluem através da seleção de alterações surgidas ao acaso. Uma linhagem de criaturas – como a de máquinas idealizadas por outras máquinas –, decorrente de aperfeiçoamentos realizados de maneira inteligente e cada vez mais aprimorada, resultante da retroalimentação da inteligência sobre ela mesma, na forma de uma inteligência desenvolvida de maneira racional por outra inteligência, ocasionaria uma espécie de tufão desenfreado alimentando-se de si mesmo.
A visão é grandiosa e arrebatadora, quem conseguir compreendê-la perceberá sua magnificência. Fiquei extasiado ao descobri-la.
Minha gafe consistiu no fato de eu ter imaginado ser o descobridor da ideia. Sou um cara muito desinformado e normalmente prefiro pensar e construir meus mundos, como se cultivados a partir de sementes, a beber das muitas fontes de informação que inundam tudo ao nosso redor. Certamente, sem dar atenção ao fato, eu já devia ter ouvido algo sobre o que chamam “singularidade tecnológica” quando reconstruí essa mesma ideia, acreditando ser minha, chamando-a “ponto de acumulação”, designação decorrente de minha visão metaevolutiva que enfatiza a ocorrência dos saltos evolutivos – peculiaridade que torna minha antevisão do evento ainda mais bela e arrebatadora que a ideia original que, aliás, parece haver surgido em um livro de ficção.
A grandiosidade inominável do evento decorre da expectativa de que cada degrau evolutivo galgado pela inteligência gerada artificialmente induzirá, cada vez mais rapidamente, um salto evolutivo ainda maior, para um degrau cada vez mais alto e curto, de modo a transformar o sucessivo encurtamento dos degraus, concomitante ao aumento brutal de suas alturas, em um paredão vertical infinitamente alto. Imagine sucessivos saltos cada vez mais gigantescos realizados em intervalos cada vez mais ínfimos.
Mas, afinal, minha gafe ocorreu anos depois da publicação de meu livro no qual um esboço da mesma visão havia sido delineado em forma de ficção delirante – descrição que talvez constitua um bom rótulo para meus escritos ficcionais.
O alvorecer do oitavo dia, que se assoma, se assemelhará a uma revelação divina.
O oitavo dia: anunciação
https://www.recantodasletras.com.br/e-livros/4474237
Gustavo Gollo é multicientista, multiartista, filósofo e profeta
Somos muito pequeninos para nos imaginar capazes de qualquer superioridade
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