19 de junho de 2026

Coronelismo eletrônico: os veículos de comunicação da família Neves

Jornal GGN – O jornalista e doutorando em Comunicação da UFRJ, Luiz Felipe Ferreira Stevanim, em artigo sobre “coronelismo eletrônico”, publicado em meio à última eleição presidencial, evidencia a relação da família do então candidato Aécio Neves (PSDB) com empresas de comunicação. Aécio, como se sabe, detém ligações com três rádios, um jornal impresso e uma TV em Minas Gerais, Estado que governou entre 2003 e 2010. A TV foi garantida à família em 2002, pelo tucano Pimenta da Veiga, ministro das Comunicações à época.

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Aécio, dessa forma, descumpre a Constituição Federal, que proíbe que os parlamentares sejam proprietários, diretores ou controladores de empresas concessionárias de serviço público. O tucano, contudo, não é o único que comete a irregularidade. Segundo levantamento do Fórum Nacional da Democratização das Comunicações, pelo menos metade do Congresso possui vínculo com algum veículo de comunicação.

Aécio e as vertentes do coronelismo eletrônico

Por Luiz Felipe Ferreira Stevanim

Desde os tempos de Sarney e de seu ministro das Comunicações, Antonio Carlos Magalhães, o coronelismo eletrônico não se mostrava tão próximo da presidência da República.

Neto de um tradicional político, o candidato Aécio Neves possui ligações com três rádios, uma emissora de TV e um jornal. O fenômeno – que chamamos de “coronelismo eletrônico” – inclui o uso político dos meios de comunicações e uma rede de favores e apadrinhamento que busca perpetuar o poder de determinado grupo nas comunicações e na política. Aécio, que é senador, descumpre o que está disposto no artigo 54 da Constituição Federal, que proíbe que os parlamentares sejam proprietários, diretores ou controladores de empresas concessionárias de serviço público.

O candidato é sócio da Rádio Arco-Íris (FM 99,1 MHz), sediada em Betim, na zona metropolitana de Belo Horizonte, e retransmissora da Jovem Pan para a Grande BH. Uma breve consulta no Sistema de Informação dos Serviços de Comunicação de Massa (SISCOM) da Anatel comprova este fato. Segundo matéria da Folha, o governo de Minas se recusou diversas vezes a divulgar os repasses estaduais às emissoras ligadas ao candidato.

Mas isso é só o que aparece aos olhos. O coronelismo eletrônico é mais sutil, menos evidente, mais sorrateiro. Para entendê-lo, é preciso ir mais fundo, em busca do rabo da palavra, como diria o bom mineiro Guimarães Rosa.

Uma vertente importante deste fenômeno é a relação das rádios e TVs com familiares de políticos. O principal acionista da Rádio São João Del Rei (970 AM) é Tancredo Augusto Tolentino Neves, que tem o mesmo nome do presidente eleito em 1985, seu pai. Advogado, Tancredo Augusto é tio de Aécio Neves e assumiu em 2010 a presidência da Prominas, empresa pública estadual encarregada de promover eventos na área de turismo e administrar grandes centros de convenções, como o Minascentro e o Expominas.

A irmã de Aécio, Andrea Neves da Cunha, jornalista responsável pelas principais decisões referentes à comunicação na campanha do candidato à presidência, é a principal sócia e diretora da rádio Vertentes (FM 95,3), na mesma São João Del Rei. A rádio é conhecida pela programação musical, voltada principalmente para o público jovem.

Cidade histórica encravada no coração de Minas, com cerca de 88 mil habitantes, São João Del Rei possui uma TV educativa, a TV Campos das Vertentes. Minas é o estado com mais televisões educativas, uma parcela considerável delas controlada por políticos, como Suzy dos Santos e eu apontamos em nosso artigo “Porteira, radiodifusão, universidade etc.” publicado na Revista Brasileira de Políticas de Comunicação da UnB.

A TV compõe o conjunto de veículos sob influência direta da família de Aécio Neves. A concessão para o canal é de 2002, quando o ministro das Comunicações era Pimenta da Veiga, candidato derrotado ao governo do estado de Minas. O presidente da Fundação Cultural Campos das Vertentes é José Geraldo D´Ângelo, aliado de Aécio que assumiu a presidência do Instituto Cultural Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG Cultural), em 2003, quando o neto de Tancredo era governador. A fundação também possui uma outorga de rádio FM (a rádio Campos de Minas, 95,3 MHz).

A influência do coronelismo eletrônico alcança também as velhas letras. O jornal “Gazeta de São João Del Rei” tem como diretor de honra (in memoriam) o cunhado de Aécio, Herval Cruz Braz, marido falecido de Andrea. Com tiragem de 10 mil exemplares, a notícia que estampava a capa da edição de 11 de outubro de 2014 era: “Aécio dispara no segundo turno”.

As vertentes do coronelismo eletrônico, que deságuam nas condutas políticas de nomes como Sarney, ACM, Collor e Aécio Neves, é um prejuízo à liberdade de expressão e ao direito dos cidadãos à comunicação. Esse direito pouco compreendido, mas essencial à democracia, inclui o acesso à informação livre e de qualidade e a possibilidade real de expressão e participação política.

Dos sinos da velha São João Del Rei ou das montanhas de Belo Horizonte, uma pergunta ecoa até nós: O que esperar das políticas de comunicação do candidato pleiteante ao principal cargo da República? O silêncio não pode ser a resposta.

*

Luiz Felipe Ferreira Stevanim, jornalista, doutorando em Comunicação pela UFRJ e membro do Grupo de Pesquisa em Políticas e Economia Política da Informação e Comunicação (PEIC/UFRJ)

Cintia Alves

Cintia Alves é jornalista especializada em Gestão de Mídias Digitais e editora do GGN.

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11 Comentários
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  1. Cunha

    12 de novembro de 2014 9:29 pm

    Aos fatos aqui apresentados o

    Aos fatos aqui apresentados o candidato chama de infâmias.

    Aprendeu uma lição que seu avô lhe ensinou:

    Se o pegarem com a boca na botija, negue, negue, negue até a morte.

     

     

     

     

    1. Jair Fonseca

      13 de novembro de 2014 3:08 am

      E acuse os outros de fazerem

      E acuse os outros de fazerem o que você faz de errado.

      Infantil, né? Pois é, a ideia é infantilizar ainda mais as pessoas, ainda além do que a publicidade, a TV e o cinemão comercial já fazem… 

  2. Anarquista Lúcida

    12 de novembro de 2014 9:45 pm

    Mas o silêncio É a resposta…

    Até como candidato de Direita Aécio é um descalabro. Pode-se ser direitista, achar ótimo o neoliberalismo, etc. Mas ter um playboy como candidato, acusado com testemunhas de ter dado soco na namorada, com fama de cocainômano (essa, só voz do povo, sem testemunhos e fontes, salvo o artigo do Kfouri sobre um grito no Mineirao quando Maradona esteve lá), que já foi pego em Blitz dirigindo bêbado (ou…) e com carteira vencida (e mesmo assim recusado soprar o bafômetro), com vários casos de nepotismo declarado e provado quando governador, e na sua história de vida, aí é demais. 

  3. Ivan de Union

    12 de novembro de 2014 9:55 pm

    “O que esperar das políticas

    “O que esperar das políticas de comunicação do candidato pleiteante ao principal cargo da República?”:

    Canalhada comunicacional.  Sempre com malapropismos.  Ele ja nao sabia usar a palavra “falso” quando criticou “Liberdade, essa vaca” ha quase 6 anos atraz e ainda hoje nao sabe usar a palavra “leviano”.

    “Ele”?

    Ou “ela”?

    Quem dos Neves tem esse aleijao linguistico, ele ou a irma?  Alguem sabe?  Xou contar uma coisa que eu ja falei antes e ninguem notou:  aleijoes linguisticos tem a ver com crescer aa beira de neuroticos.

    Eh a irma dele que eh totalmente neurotica?

    1. Ivan de Union

      12 de novembro de 2014 11:47 pm

      (correcao pois eu ja disse

      (correcao pois eu ja disse isso antes tambem e nao fui claro)

      Aleijoes linguisticos tem a ver com crescer aa beira de neuroticAs (pois aleijoes infecciosos de neuroticOs sao bem diferentes e nem chegam perto da linguistica estrutural de um cerebro humano). E eles afetam as filhAs ou irmAs e nao os filhOs ou irmAOs.

  4. altamiro souza

    12 de novembro de 2014 11:05 pm

    ao descumprir a constituição,

    ao descumprir a constituição, age acima da lei, mas pradoxalmente continua impune.

  5. guilherme souto

    13 de novembro de 2014 12:38 am

    Sem contar os gastos em

    Sem contar os gastos em publicidade em seus veículos de comunicação, os aeroportos, o sindicato dos professores denuncia várias irregularidades, deixou de investir em saúde, sem contar os tantos bilhões que teriam entrado na contabilidade da copasa, depois saíram sem mais detalhes, esse veículo de comunicação aqui, salvo engano, já denunciou que o tal choque de gestão é uma falácia, e etc e tais…

    Enfim, o senador governou minas do rio de janeiro – nisso ele tem bom gosto, não nego – com Antônio Anastásia, Carla Vilhena e, correndo nos bastidores, sua irmã Andreia, à frente, depois queria meu voto? Nem se eu fosse afeito ao modo como eles pensam o país…

  6. Sergio SS

    13 de novembro de 2014 1:52 am

    Delicioso silêncio do Sr.

    Delicioso silêncio do Sr. Carlos Leonidas Batista Rebolla Zanchetta…

  7. Jair Fonseca

    13 de novembro de 2014 3:43 am

    Foto excelente: o velho

    Foto excelente: o velho Tancredo, coroné moderno ao telefone sem fio, e seus netos futuramente poderosos ainda na fase “alternativa-juvenil-de alta classe média”: Andréia Neves (que ao que se sabe participaria da fundação do PT), com cara desalentada e camiseta de um importante jornal contracultural de esquerda da época, e o jovem Aecim, supostamente concentrado na pose, “lendo” um livro (qual?) – coisa mais antiga -, com camisa de um time que não é a do Cruzeiro do seu coração (qual então?)…

    1. Donadio

      13 de novembro de 2014 6:57 pm

      América Mineiro.

      América Mineiro.

  8. Gilson S Raslan

    13 de novembro de 2014 6:36 pm

    Ninguém pode negar que Aécio

    Ninguém pode negar que Aécio não seja um bom aluno, pois aprendeu todas as VELHACARIAS do avô TANCREDO, tais como: acusar os adversários de malfeitorias que ele próprio pratica; negar o óbvio, quando isto lhe convém; jogar sujo com os próprios companheiros… 

    Tancredo Neves foi tão calhorda, que em público “lutou bravamente” na campanha das DIRETAS JÁ, mas nos bastidores trabalhou pela derrota do projeto no Congresso Nacional.

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