10 de junho de 2026

Martin Wolf quis dizer “capitalismo trambiqueiro”, por César Locatelli

“Capitalismo rentista” não parece ser a melhor definição desse estágio das economias. Talvez por isso Wolf tenha usado a expressão “rigged capitalism” em seu título original. A tradução deveria ter sido “capitalismo fraudulento”, “capitalismo trapaceiro”, “capitalismo trambiqueiro”.
Foto Financial Times

Martin Wolf quis dizer “capitalismo trambiqueiro” 

por César Locatelli

Vários economistas que respeito recomendaram fortemente o artigo de Martin Wolf no Valor Econômico de sexta (20). Tentei ler, mas não consegui. A matéria era exclusiva para assinantes (deixei de assinar o jornal quando resolveram fazer política partidária, como os outros). Percebi, no entanto, que o artigo era traduzido do Financial Times de quarta (18), que, surpreendentemente, consegui abrir.

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Fiquei surpreso com a diferença entre o título original e o título traduzido. Resolvi ir até a banca comprar o Valor. Em português lê-se “Capitalismo rentista ameaça democracia”. O título em inglês é “Martin Wolf: why rigged capitalism is damaging liberal democracy”. Achei bastante discutível traduzir “rigged capitalism” por “capitalismo rentista”.

Na linha fina, subtítulo, o Valor traz: “A economia não está mais beneficiando a todos, o que está gerando um perigoso avanço populista”. Na versão em inglês temos: “Economies are not delivering for most citizens because of weak competition, feeble productivity growth and tax loopholes”. A mudança da linha fina é quase tão questionável quanto à do título. Seriam filigranas (termo da moda), essas escolhas de termos, ou tirariam luz de aspectos relevantes?

“As economias não estão produzindo o resultado esperado para a maioria dos cidadãos por conta da fraca competição, débil crescimento da produtividade e evasão fiscal”. Assim seria o subtítulo mais adequado ao que Wolf quis dizer. O foco não é o populismo, tampouco existe a ideia de que a economia um dia beneficiou a todos, mas não está mais beneficiando. O foco é no ganho desproporcional dos grandes grupos, fruto de um mercado onde a livre concorrência inexiste, na estagnação da produtividade e nas brechas da legislação fiscal.

Wolf se exaspera com os lucros registrados por empresas dos EUA em paraísos fiscais: “As corporações dos EUA registram ‘sete vezes’ mais lucros em pequenos paraísos fiscais (Bermudas, Ilhas Britânicas do Caribe, Luxemburgo, Holanda, Cingapura e Suíça) do que em seis grandes economias (China, França, Alemanha, Índia, Itália e Japão). Isso é ridículo”. Seria necessária uma justificativa muito forte para retirar “evasão fiscal” do subtítulo do artigo dele.

Igualmente relevante é a questão da concorrência.

O termo rentismo, em português, leva a maioria a imaginar, na definição de Hoauiss, a “economia que possibilita viver sem trabalhar com o que se aufere de rendimentos”. Os rentistas seriam aqueles, empresas e pessoas, que vivem de rendas, que aplicam na dívida pública, por exemplo, e recolhem gordos juros. Também aqueles que detêm ações de empresas e recolhem dividendos livres de tributação. Mas o termo “rent” quer dizer mais que isso.

O próprio Wolf explica:

“Por que a economia não está produzindo o que prometeu? A reposta reside, em grande medida, no avanço do capitalismo rentista (rentier capitalism). Neste caso ‘rent’ significa recompensas além daquelas necessárias para induzir a oferta desejada de bens, serviços, terra e trabalho. Capitalismo rentista significa uma economia na qual o mercado e poder político permitem, a indivíduos e negócios privilegiados, extrair grande parte desse ‘rent’ de todos os outros [indivíduos e empresas].”

Um exemplo típico é a empresa monopolista que pode cobrar o que bem entender por seus produtos ou serviços. Esse tipo de empresa consegue extrair lucro acima do que seria um “lucro normal” de todo mundo. Talvez devêssemos traduzir esse “rent” como “renda extra” ou “sobrerrenda” ou “renda de monopólio”, para não confundir com a renda que usamos normalmente. Vejamos como Wolf enfatiza que além de se beneficiar dessas “rendas extras”, as grandes corporações as criam:

“Em tais casos, ‘as rendas extras’ não são meramente exploradas. Elas são criadas, através da ação de lobby por brechas fiscais injustas e distorcivas e em oposição às regulações necessárias de fusões, de práticas anticompetitivas, de má conduta financeira, do meio ambiente e do mercado de trabalho. O lobby empresarial subjuga os interesses dos cidadãos comuns. De fato, alguns estudos sugerem que os desejos das pessoas comuns influem quase nada nas decisões de políticas públicas.”

Adicionando todos os ingredientes, podemos perceber por onde passa a destruição da democracia: temos economias que, há 40 anos, desaceleram o crescimento da produtividade, elevam a desigualdade de renda e riqueza às alturas, provocam gigantescos choques financeiros, permitem que privilegiados retirem “rendas extras” e escondam seus ganhos da tributação, pagam remunerações a seus executivos-chefes 347 vezes superiores ao trabalhador comum, dificultam a entrada de novas empresas e promovem concentração de mercado.

“Capitalismo rentista” não parece ser a melhor definição desse estágio das economias. Talvez por isso Wolf tenha usado a expressão “rigged capitalism” em seu título original. A tradução deveria ter sido “capitalismo fraudulento”, “capitalismo trapaceiro”, “capitalismo trambiqueiro”.

De todo modo, Martin Wolf, um dos mais proeminentes arautos do conservadorismo liberal, alerta: “A forma como nossos sistemas econômicos e políticos funcionam têm que mudar, ou perecerão.”

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Cesar Locatelli

César Locatelli, economista, doutorando em Economia Política Mundial pela UFABC. Jornalista independente desde 2015.

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3 Comentários
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  1. César Rocha

    23 de setembro de 2019 8:31 am

    A propósito do comentário do César Locatelli ao texto do Martin Wolff. Cabe indagar: existe Capitalismo sem trambique? Existe alguma forma de acumulação capitalista virtuosa? Há diversas evidencias históricas a explicitar o CARÁTER predatório e excludente (os apologistas chamam isso de concorrência!) do sistema econômico sob a égide do Capital. A busca unidirecional do lucro fez/faz com que o Capital se metamorfoseie em sua dimensão ontológica… (daí se dizia com frequência “lobo perde o pêlo mas não perde o vício” – instinto predatório). Arredondando em cinco séculos sua EXISTÊNCIA histórica, tem-se por evidente que o Capitalismo enquanto sistema de produção e “coesão” social levou à corrosão do Homem e a destruição da Natureza… Resta indagar se o devir histórico da Humanismo Renascentista teria o mesmo curso triunfante das Ciências tal percorreu estes cinco séculos, e como adentrou ao Século XXI… ou inexoravelmente os feitos das Idades Moderna e Contemporâneas se deve tão somente ao gênio burguês? Schumpeter disse tratar-se da “destruição criativa”… Se assim o for, a tal Pós-modernidade é pós-verdade… e não um periodização da História Ocidental.

  2. Andre-Luiz

    23 de setembro de 2019 9:42 am

    Seria esta a fase final do capitalismo? Em que a ganância do capital está cavando sua própria cova? Estaríamos próximo do momento revolucionário que criará uma nova ordem social, uma nova sociedade?

  3. Rafael

    23 de setembro de 2019 1:17 pm

    Ah, como é bom ver que tudo na vida tem, digamos, dois lados.
    Pois, a vantagem de ficar velho é ficar menos ignorante.
    Não que algum dia acreditei piamente nessa grande imprensa “familiar-empresarial”, mas, quando jovem desconfiava que ela pudesse não ser tão falsa e venal.
    Hoje, graças a internet não chego nem perto dela. É como se, ao acessa-la, de qualquer mídia, sempre tivesse que me perguntar: onde está a mentira, quanto disso é mentira e por que dessa mentira específica (o que eles querem que pensemos), o que querem esconder e por quê?

    Enfim, considerando que o título original e o “traduzido” no Valor foram esses publicados por César Locatelli, onde estão no original as palavras (ou ideias) “populismo” e “rentismo”?
    Simplesmente não existem.

    Então, tá. Ficamos combinados, você escreve o artigo e eu digo o que é melhor publicar, segundo as minhas ideias e intenções.

    Senão, vejamos. Por que “populismo” no título?

    – Ora, para vender. Chamar a atenção. Bolsonaro, Trump… Entendeu? Crítica e polêmica. Sacou? Vende. Embora o autor não tenha dito isso, mas, como o jornal é meu, publico da melhor forma. Business, entende, né!? E ainda por cima dou pinta de intelectual, de elite que sabe mais que os outros e, por isso, critica esse povinho populista que não sabe de nada. O Wolf vai entender e perdoar. Os leitores…, ah, deixa que eu cuido deles. São o meu gado P.O. (Puro de Origem). Eles também me entendem. Aliás, eles me amam e sabem perdoar. (De certa forma, é massa de manobra…, mas não fala isso que eles podem se ofender. Deixa em off.)

    – Sim. E o “rentismo”. De onde você tirou? Por que sumir com a palavra (ou ideia) de “fraude”, “trapaça” (rig, em inglês).

    – Você está louco? Chamar o capitalismo de fraude? Nem morto. Isso foi um lapso do Martin que o Financial também deixou passar. Nossa manipu…, ops; nosso controle de qualidade é muito melhor aqui no Brasil . É mais rígido, entende? Afinal, empresários consolidados e de sucesso não operam fraudes, para levar vantagens (rig), eles fazem negócios! O que nós podemos, e até de certa forma devemos criticar porque isso está na moda, com essa queda mundial da inflação e da taxa de juros, é o rentismo (aplicação em títulos do Tesouro). Aliás, assim até ajudamos o atual governo popu… ops, o Ministério da Fazenda e o BC, a passar as reformas que nossos parceiros tanto almejam. E, além disso, com essa crítica também ajudamos os fundos de investimentos a captar recursos para aplicar em renda variável. Enfim, esse “artigo” do Wolf cai como uma luva para nós. Nossos leitores e patrocinadores irão adorar.

    Ah…, como é bom envelhecer. E ser menos besta. Ou será que essa tradução mal feita e que cai como uma luva para os interesses do jornal e seus parceiros é um mero lapso? Se eu fosse mais novo, até ficaria cogitando essa possibilidade. Mas, como não sou. Só tenho a dizer, como é bom…
    Para encerrar. Continuo tendo dúvidas. Infinitas. Porém, não em relação a quem conheço a tanto tempo, por vivência e nos livros de história que, por sinal, me fizeram ver mais longe e reconhecer que isso é assim desde longa data.

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