11 de agosto de 2026

Osun: a poesia dos olhos, por Carolina Maira Morais

A estética de Oxum não ilustra sua história, a estética é a própria história, escrita em outro alfabeto

O Festival das Águas em Ilé-Ifè celebrou Orixás ligados aos rios e terminou com homenagem a Oxum em 30 de julho.
O Festival de Osun-Oshogbo, a 48 km de Ilé-Ifè, teve seu ápice em 7 de agosto no Bosque Sagrado de Oshogbo.
A estética iorubá nas vestes e adornos das devotas expressa a história e significado de Oxum sem uso de palavras.

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Osun: a poesia dos olhos

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Estética iorubá, festival Oxum e a arte que fala sem palavras

por Carolina Maira Morais

Entre o fim de julho e o início de agosto, as águas voltaram a transbordar na Nigeria. Em Ilé-Ifè, o Festival das Águas reuniu, ao longo de dias, a celebração de diversos Orixás ligados aos rios, às nascentes, ao mistério do que corre e do que espelha, encerrando-se em 30 de julho com a homenagem a Oxum, a que precede e sucede todas as outras divindades das águas doces. Poucos dias depois, a cerca de 48km quilômetros dali, o Festival de Osun-Oshogbo— chegava ao seu ápice em 7 de agosto, reafirmando o Bosque Sagrado de Oshogbo como o lugar onde Osun habita de corpo presente, não apenas de memória. O Festival atravessa duas semanas de rituais, cortejos e reencontros à margem do rio Osun, que nasce em Ekiti e atravessa 4 estados até desembocar no oceano Atlantico.

Há algo, nesses festivais, que ultrapassa o gesto religioso e se torna também um gesto estético. Basta observar as mulheres que caminham em cortejo: os panos amarrados com precisão calculada, as tranças que desenham geometrias no couro cabeludo, os colares de contas dispostos em camadas, cor sobre cor, significado sobre significado. Nada ali é acaso. A maneira de trançar o cabelo obedece a uma gramática tão antiga quanto os próprios orikis cantados às margens do rio; a escolha das contas, suas cores, seu número, sua disposição no pescoço e nos braços, é também uma forma de linguagem, um alfabeto que se lê no corpo antes de se ouvir na voz.

Esse vocabulário do corpo não nasceu com as devotas de hoje: ele ecoa diretamente da arte iorubá clássica. As esculturas de Iya Osun, figuras em madeira entalhada, hoje dispersas entre museus europeus e acervos nigerianos, muitas delas afastadas de seu contexto original pelo mesmo processo colonial que tentou apagar o que representam, trazem, talhadas na madeira, exatamente essa estética: a coluna ereta, os seios que anunciam fartura e maternidade, as marcas rituais no rosto, os adornos que cobrem pescoço e cintura como se fossem também escrita. O paralelo entre a mulher que se veste hoje para o cortejo e a talha que a representa há séculos é continuidade. A estética não decora Oxum: ela a define, a nomeia, a reafrima…

Dessa maneira admirar vestes e comportameto das sacerdotisas e devotas de Oxum a beira do rio em Oshogbo, e como ler uma poesia cujo o interlocutor precisa saber ou dominar o idioma para apreciar completamente. Oxum é a poesia dos olhos. Porque há mensagens que não precisam de palavra alguma para serem didáticas. Um pano bem amarrado, uma trança que se repete de geração em geração, um colar de contas amarelas e douradas dispostas numa ordem precisa, tudo isso ensina, para quem sabe olhar, sobre fartura, sobre doçura que também é força, sobre feminilidade que é também autoridade. A estética de Oxum não ilustra sua história, a estética é a própria história, escrita em outro alfabeto: o do corpo enfeitado, cujo olhar atento é capaz de ler sem que uma única palavra seja pronunciada.

Carolina Maira Morais é historiadora, filha das águas de Ile Ife, cofundadora da The African Pride e apresenta o podcast seminal Viva África, na TV GGN.

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