4 de junho de 2026

O que é uma teoria?, por Gustavo Gollo

Duas características principais podem distinguir e dar relevo a uma teoria: sua generalidade e sua têmpera.

O que é uma teoria?, por Gustavo Gollo

A palavra “teoria” pode ser usada para se referir a qualquer suposição. Podemos, por exemplo, nos referir à teoria de que a tesoura esteja guardada em uma gaveta, e tal uso da palavra é adequado, embora banal.

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A palavra, no entanto, ganha corpo quando se refere às grandes teorias científicas, não às trivialidades.

E o que são as grandes teorias científicas?

Duas características principais podem distinguir e dar relevo a uma teoria: sua generalidade e sua têmpera.

A importância da generalidade é bastante óbvia; a teoria sobre a localização de uma tesoura, como no exemplo acima, talvez seja relevante para alguém no instante em que a procura, mas não tem interesse para o restante das pessoas. Grandes teorias dizem respeito a tudo e a todos.

Já a têmpera de uma teoria merece mais esclarecimentos. A palavra foi aplicada originalmente por Karl Popper e ganha relevância no contexto de sua própria concepção de ciência. Segundo ele, uma teoria prova sua têmpera ao ser testada. Testes de uma teoria são tentativas de refutá-la. Ao sobreviver a um teste, a teoria prova sua têmpera e, de certo modo, se fortalece, ao menos a nossos olhos.

Boas teorias científicas, então, são teorias gerais que têm provado suas têmperas ao passar por sucessivos testes com potencial para refutá-las.

Aos olhos de uma pessoa comum, tentativas de refutação de teorias podem parecer um contrassenso, mais valeria, pensa ela, provar a teoria. Por longos anos, todos pensaram assim, sendo a negação dessa possibilidade a grande contribuição de Popper (que, de fato, retomou ideia de David Hume, em um contexto mais espinhoso).

Considerações de ordem lógica impedem que teorias empíricas gerais possam ser provadas pelos fatos. Nenhum número de observações confirmando a tese de que todos os corvos são negros pode garantir a impossibilidade de descobrimento futuro de um corvo de outra cor, garantia que provaria a teoria. Uma observação contrária à hipótese, no entanto, é suficiente para refutá-la.

Boas teorias científicas, então, são aquelas que apesar de enorme generalidade, nunca foram refutadas. (A precisão das teorias também as enriquece, em especial por expô-las tanto mais francamente às refutações, provando sua têmpera).

Todo o exposto acima, de qualquer modo, consiste em banalidades. As teorias científicas, no entanto, podem se apresentar sob o véu da grandiosidade, como será visto.

Creio que o melhor exemplo de uma teoria científica popperiana seja a relatividade, ainda que ‘virtualmente ninguém’ a compreenda. (É interessante notar que o teste empírico da teoria pode ser efetuado mesmo que não se compreenda a teoria, bastando utilizá-la como uma ferramenta para a obtenção de previsões. Convém ressaltar também que, ao contrário da formulação ortodoxa da teoria quântica que não pode ser compreendida, Einstein insistia que as teorias devem ser compreendidas).

A teoria de Einstein

A relatividade surgiu de um delírio de Einstein. Não decorreu de considerações pragmáticas de qualquer tipo, nem de correções de erros anteriores. Os livros didáticos posteriores costumam se referir a um conjunto de idiossincrasias eventualmente apontadas como erros que de algum modo confrontavam a física anterior à virada do século XIX para o XX. Tais excentricidades, no entanto, impunham-se no âmbito do micromundo, não havendo, na época, objeções significativas que impusessem a substituição das teorias clássicas por outra, considerando-se o macromundo relativístico. Umas objeções levantadas posteriormente por supostas contradições relativas ao éter resolvem-se com a hipótese óbvia de que a Terra arrastasse o éter.

Minhas afirmações acima relativas à ausência de refutações da física clássica no âmbito considerado serão, naturalmente, contraditadas por outros. A irrelevância de eventuais refutações para a gênese da relatividade, no entanto, foi seguidamente salientada por Einstein, que não pretendia estar corrigindo erros previamente apontados, tendo ele simplesmente vislumbrado uma formulação mais… err… maravilhosa que a anterior. Assevero ter sido o deslumbramento que guiou Einstein na construção da relatividade, não uma tentativa de corrigir uma estrutura notadamente imperfeita.

Aos olhos de Einstein, a mecânica newtoniana certamente parecia magnífica, ou ele não teria se tornado um físico. A contemplação de obra tão magistral, no entanto, longe de intimidá-lo, compeliu-o a busca ainda mais extraordinária. Tal façanha é corriqueira para músicos, arquitetos e artistas em geral, não se esperando que tais seres emudeçam ante a contemplação de novidades encantadoras, presumindo, ao contrário, que a fascinação de tais visões os estimule a engendrar algo ainda mais extasiante.

Do mesmo modo, não foram os problemas da física anterior que levaram o jovem Einstein a elaborar um remendo que os corrigisse, tendo sido a inspiração de algo ainda mais extraordinário que a concepção anterior que o levou a propor a teoria da relatividade.

Do ponto de vista usual de uma pessoa culta e capaz de compreender as linhas gerais da façanha de Einstein, de acompanhar as superficialidades apresentadas nas divulgações em geral, a teoria de Einstein é um completo despautério, o mais absurdo conjunto de disparates já levado a sério, conclusão a que o leitor provavelmente já chegou, e que pode conferir em qualquer site sobre a teoria da relatividade, se acaso desconhece por completo o tema.

 https://archive.org/details/SCHONBERGPierrotLunaire-NEWTRANSFER/01.Mondestrunkenmoon-drunk.mp3#

Pierrot Lunaire, de Arnold Schönberg, 1912: áudio

 

Penso haver certo paralelo entre Einstein e Picasso que em 1905, quando Einstein apresentava sua teoria da relatividade, trazia à luz ‘A família de arlequim’. Não creio que Picasso estivesse, com isso, tentando corrigir qualquer coisa. Penso que o artista vislumbrara umas imagens, direções, ou sabe-se lá que metas que o impeliram adiante, sem tentar remendar qualquer erro do passado, mas buscando despojar-se de tudo o que o prendesse a tempo anterior.

Também penso que os pudores de Einstein tenham sido ainda menores que os de Picasso, podendo-se considerar a ousadia e a coragem como principais distintivos de sua teoria.

Einstein deparara-se com a mecânica de Newton, o mais grandioso construto humano, até então – e talvez até hoje –, o que o fez sonhar extasiado. Em meio à obsessão e estudo da teoria, Einstein percebeu que a formulação de Newton pressupunha algo análogo a uma grade rígida acoplada ao observador newtoniano, definitória de seu referencial, e idealizou uma estranha alternativa ainda mais bela que a original, embora distorcida, como as imagens de Picasso. Einstein engendrou então uma espécie de grade elástica a acompanhar o observador, estrutura que, de algum modo, se via atada à velocidade da informação – velocidade limite a que trafega também a luz.

Difícil imaginar o que se passava nas mentes, embora possamos eventualmente perceber o que não ocorreu com elas. Einstein era um cientista teórico, um pensador que fazia uso da matemática como ferramenta. Nunca fez experiências e pouco se preocupou com tais inconveniências, atentando mais para a beleza e criação das teorias.

A concepção de Einstein, a relatividade, diz respeito a todas as coisas que se movem, a tudo aquilo que tenha qualquer estofo, qualquer materialidade. Todas as coisas que possuem existência material foram abarcadas pela concepção relativística. A generalidade de tal teoria é espantosa. Dela se excluem apenas sonhos, se é que algum ficou mesmo fora dela.

Teoria! {Alegricissimo}

As grandes teorias científicas são profecias luminosas capazes de resistir às mais ferrenhas tentativas racionais efetuadas com o intuito de refutá-las. O caráter profético das grandes teorias evidencia-se com nitidez nas surpreendentes revelações obtidas através do ferramental propiciado por elas para a descoberta de novidades inusitadas, algumas simplesmente desconhecidas anteriormente, outras radicalmente contrárias a expectativas anteriores.

A primeira revelação relativística veio à luz somente em 1919, um século atrás, tendo esperado 14 anos desde a publicação da teoria, em 1905, para a confirmação da alusão profética. Correspondeu à constatação da deformação do espaço ocasionada pelo Sol, passível de observação durante os eclipses, através da deformação da posição aparente das estrelas presentes no fundo celeste, próximas ao grande astro.

Muitas outras profecias relativísticas foram confirmadas desde então, a maioria delas atestadas por precisões assombrosas, como as utilizadas para a correção de coordenadas para localização de telefones celulares.

Um enorme conjunto de profecias discrepantes das antigas profecias newtonianas adveio de tal oráculo.

De qualquer modo, a magnificência da teoria da relatividade, sua extraordinária grandiosidade, só pode ser avaliada tendo-se em mente tratar-se ela de uma elaboração da mente, de uma construção mental, um sonho, devaneio, delírio ou qualquer nome que se dê – o mais usual é teoria –, a esse tipo de ficção profética que se desvela no próprio mundo material.

A teoria da relatividade, assim como todas as teorias verdadeiramente magnificentes, consistiu em um fruto livre de uma mente, como uma obra de arte, mas uma obra profética que se materializou no mundo tendo sido originada na mente de Einstein.

Ave!

Mundo aberto, um adendo

O mundo é aberto, ou seja, não existem limites para a criatividade que não os de nossas próprias mentes. Em vista disso, artistas científicos – os grandes cientistas –, devem buscar dar corpo aos mais ousados delírios que conseguirem vislumbrar, especialmente ao tomarem a beleza como guia, essa notável cornucópia.

O grande cientista age de modo similar ao grande pintor, ou compositor e não se acanha em se inspirar no centroavante em busca do gol, comparação que me traz à mente a antiimagem da caixa de Pandora a jorrar estupendos e multivariados atributos até finalizar a ação performática com a libertação da vibração do gol! Gol!

Leia também:

https://jornalggn.com.br/artigos/o-grande-momento-da-historia/

https://jornalggn.com.br/ciencia/teoria/

Assista:

Não consigo publicar a chamada para esse outro vídeo, não menos importante que o anterior:

https://youtu.be/Qw_S3T25pBc

Gustavo Gollo é multicientista, multiartista, filósofo e profeta!

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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