Teoria, por Gustavo Gollo

Teoria, por Gustavo Gollo

Se perguntássemos: qual a maior de todas as obras do espírito humano?, as respostas divergiriam amplamente. Uns evocariam grandes construções, como as pirâmides, outros elegeriam uma música extraordinária, filmes, maravilhas tecnológicas, como aviões ou computadores; uma vasta diversidade resultaria certamente das respostas. O resultado da pergunta seria, de certo, longa uma lista, conforme gostos variados e preferências subjetivas. Quanto a mim, eu escolheria as teorias científicas.  

Entre os leigos, a palavra “ciência” costuma estar associada à experimentação, ainda que a “grande ciência”, aquela verdadeiramente espetacular, capaz de causar enorme espanto e admiração seja a ciência teórica. 

Talvez por isto, a ciência teórica, aquela advinda de mentes brilhantes como em uma espécie de delírio criativo, é quase desacreditada, fato atestado pela expressão pejorativa “ciência de gabinete”. Se o leitor tentar relembrar o nome de físicos famosos, no entanto, provavelmente, só listará físicos teóricos, “cientistas de gabinete” que nunca fizeram experiências, como Einstein, Bohr, Heisenberg, Planck e tantos outros.

Já relembrei, no ggn, aquele que considero o grande momento da humanidade, aqui: 

https://jornalggn.com.br/fora-pauta/o-grande-momento-da-historia-por-gustavo-gollo 

Contarei um outro, não menos espantoso. 

Em 1905, Einstein teve um grande delírio e vislumbrou a teoria da relatividade. Tratava-se de uma visão de mundo completamente despropositada, um contrassenso total que subvertia tudo o que se pensava sobre todas as coisas. Em uma só tacada, Einstein reformulou as concepções de espaço, tempo, massa e energia, alterando todas as coisas materiais, revolvendo tudo, ampla e drasticamente.  

Esse delírio não tinha pé nem cabeça, tinha brotado sub-repticiamente na mente do cara, e só acabou sendo levado a sério por duas ou 3 razões: no mesmo ano de 1905, Einstein havia proposto uma explicação estranha e revolucionária para o efeito foto-elétrico, um fenômeno anômalo que desafiava a compreensão dos físicos da época. Embora mirabolante, pressupondo que a luz fosse constituída por pipoquinhas que Einstein denominou “fótons”, a explicação se encaixou tão perfeitamente ao fenômeno que não pôde ser negada, e acabou por lhe valer o prêmio Nobel, anos depois. 

No mesmo ano, Einstein tinha explicado, também, o movimento browniano, um fenômeno enigmático conhecido havia várias décadas e que desafiava a compreensão. Para isto, Einstein pressupôs a existência de pedacinhos de matéria bombardeando as minúsculas partículas sobre a superfície da água, originalmente grãos de pólen, ressuscitando assim, ou fortalecendo, a ideia de átomos, um antigo conceito sempre ressurgente, mas muito duvidoso, na época.  

As duas façanhas descomunais davam certo respaldo ao delírio relativístico proposto pelo mesmo autor. 

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A existência prévia de umas equações conhecidas como “transformações de Lorentz” também contribuíram para que alguns levassem o delírio a sério. Tais equações, aliás, devem ter tido um papel na irrupção do arrebatamento delirante.

De qualquer forma, o delírio de Einstein decorreu de um postulado absurdo: a constância da velocidade da luz, um pressuposto incompatível não só com a mecânica newtoniana, mas com nossas concepções usuais de tempo e espaço. Para que a velocidade da luz independa completamente de velocidades relativas entre fontes de luz e observadores, tempo e espaço devem sofrer estranhas alterações, comportando-se de maneiras francamente bizarras. Os absurdos consequentes de tal pressuposto costumam ser ilustrados em quase todas as divulgações da teoria. 

  

A relatividade 

A tarefa a que Einstein se propôs talvez possa ser descrita assim: Considerando-se que a velocidade da luz seja invariante, como tem que ser o mundo? Então, partindo deste pressuposto, Einstein construiu um mundo surpreendente e bizarro que lhe pareceu muito mais belo e bem acabado que o mundo idealizado por Newton, este, bastante similar às concepções usuais, à maneira como todos nós vemos o mundo.  

A audácia de Einstein foi extrema, ninguém, exceto loucos completamente desvairados, jamais havia ousado propor teoria tão herética, tão profunda e amplamente descompassada de tudo o que se acreditasse até então. É provável que a maior virtude de Einstein tenha sido sua coragem.  

Notemos que Hendrik Lorentz, um dos maiores físicos de todos os tempos, já havia composto o “esqueleto” matemático da relatividade, as transformações de Lorentz, tendo sido, no entanto, incapaz de interpretá-las literalmente, e acreditar na realidade de algo tão profundamente destoante de todas as crenças comuns. 

O eclipse de 19 

Pessoas comuns costumam conectar umas coisas a outras, mas apenas de maneiras fracas e vagas. A matemática, em contraste, permite estabelecer conexões extremamente precisas, de modo a conectar com absoluta exatidão coisas muito distantes, destituídas, eventualmente, de qualquer ligação aparente entre umas e outras.   

Uma das raras predições relativísticas passíveis de confirmação, na época, consistia na inferência de que, nas proximidades do sol, as estrelas se apresentariam de uma forma diferente da usual, devido a uma deformação do espaço causada pelo sol, expectativa que não teria o menor sentido à luz de outras teorias. Esta profecia poderia ser testada durante um eclipse total, quando a lua impede que os raios solares iluminem a atmosfera e ofusquem as estrelas. 

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Em 1919, nenhum fato, ainda, havia sido observado que confirmasse o delírio de Einstein, ocorrido 14 anos antes. Nada atestava o desvario revolucionário que subvertia tudo o que se imaginava sobre coisas materiais, lugares e momentos. Em tal circunstância, parecia um contrassenso apostar em tamanho absurdo. Uns poucos aventureiros, no entanto, preferiram desconsiderar o bom senso e apostar no desatino do gênio, idealizando duas expedições, uma para a África, outra para o Brasil (Sobral, CE), onde ambas as equipes tiraram fotografias do fenômeno no momento em que a lua encobria o sol, permitindo comparações posteriores com o mesmo quadro. Tais comparações revelaram a estranha contração do espaço, mostrando que o aparente delírio de Einstein constituía, de fato, um vislumbre profético assombroso (a maioria minimiza o fato chamando-o de predição, ou cálculos; considero o fato espantoso, digno da mais alta reverência de todas as mentes que o rememoram). 

Penso que a maioria tem dificuldade em vislumbrar e admitir a força de uma teoria, de imaginar qualquer relação possível entre considerações sobre a constância da velocidade da luz e a posição das estrelas em torno do sol, como se tal profecia se assemelhasse a algum tipo de predição astrológica sem pé nem cabeça. Permitam-me ressaltar: tratava-se de uma predição exclusivamente teórica, contrária a todas as observações anteriormente efetuadas.

Ficção e teoria 

Do meu ponto de vista, teorias são ficções, mas de um tipo especial. Escritores fantásticos, como Andersen, Lovecraft e Tolkien construíram mundos maravilhosos em seus devaneios, mas mundos meramente fictícios, sem nenhum referente real, apenas o metafórico; os cenários onde  Cthulhu e Gandalf teriam vivido não existem no mundo real. Embora ainda mais fantástico, mais surpreendente que tais mundos, o delírio de Einstein adquiriu o status de uma ficção realista ― ou de uma teoria científica, o que é o mesmo ―, ao ser comprovado pelo eclipse de 19, e por inúmeras outras evidências, desde então; GPSs, por exemplo, não seriam tão precisos sem correções relativísticas. Fossem encontradas ruínas análogas às de Cthulhu, e Lovecraft seria alçado à categoria de cientista teórico. 

  

Ciência e teoria 

Os que conhecem a grandiosidade das teorias desenvolvidas no séc. XIX, como a do eletromagnetismo, do calor, e outras, tendem a se decepcionar profundamente com os desenvolvimentos ocorridos nas últimas décadas, apesar da imensa disseminação recente da profissão de cientista, tanto nos grandes centros, quanto em países populosos como China e Índia, grandes centros de pesquisa científica atuais. Embora o número de cientistas tenha se multiplicado enormemente nos últimos 90 anos, e apesar da explosão de verbas destinadas à pesquisa científica, desde então, nada como a maravilhosa revolução incendiada por Einstein tem se repetido em todo esse tempo. A estagnação científica sob a qual temos vivido desde então corresponde a uma profunda decepção. Tente repassar as últimas décadas em busca de teoria emergente minimamente comparável à de Einstein, ou às do século anterior a ela, e perceberá a pobreza de nossos tempos. (Embora venha sendo desenvolvida muita tecnologia ― lembrando que ciência não gera patente). 

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Tratei desse tema aqui, referindo-me à estagnação científica contemporânea ― consideração incontestável tendo-se em mente as magníficas criações do passado ―, sem atentar para o fato de que poucos têm noção do que sejam as teorias: 

https://jornalggn.com.br/fora-pauta/ciencia-em-um-mundo-aberto-por-gustavo-gollo

Teorias são criações mentais maravilhosas, delírios especialíssimos, capazes de minimizar as sinfonias mais altissonantes.

Exorto os jovens para nunca perderem de vista a grandiosidade das teorias; ao fazer ciência, engendrem suas próprias obras com espírito grandiloquente, delirem e componham os mais belos mundos com os quais consigam sonhar. O que Einstein vislumbrou foi um mundo mais belo que o pintado por Newton, foi a consideração estética que garantiu ao gênio a confiança na veracidade de sua criação.

Tenho muito orgulho de ter criado este, permitam-me mostrá-lo. Deliro, ainda hoje, com sua beleza: 

https://jornalggn.com.br/fora-pauta/como-surgiu-a-reproducao-sexual-por-gustavo-gollo

Esse também é belo: 

https://jornalggn.com.br/fora-pauta/teoria-da-evolucao-por-gustavo-gollo

Um mais simplinho:  

https://horia.com.br/fora-pauta/por-que-os-insetos-sao-atraidos-pela-luz-por-gustavo-gollo

Séculos atrás, em tempos religiosos, Gottfried Leibnitz, um grande filósofo e matemático considerou que sendo o criador onipotente, teria sido capaz de criar o melhor dos mundos, e por ser sumamente bom, teria que ter criado exatamente tal mundo, sendo o nosso, portanto, o melhor de todos os mundos possíveis. 

Raciocínio análogo levaria à conclusão de ser o nosso o mais belo dos mundos, garantindo que o mais belo mundo pintado por uma teoria se aproximará do real. Talvez não valha crer em tal metafísica por suas razões, mas se assim for, aposte nela em nome da alegria; aposte na beleza dos mais maravilhosos mundos que consiga criar e delire o mais grandiosamente que puder. Delire como se buscasse um gol! 

 

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4 comentários

  1. no país das maravilhas

    ” Bem, na nossa terra – disse Alice, ainda um pouco ofegante, – é costume chegar-se a outro sítio quando corremos muito depressa durante muito tempo como nós fizemos.
    – Que terra tão lenta! – exclamou a rainha. – Aqui, como vês, é preciso corrermos o mais depressa possível para ficarmos sempre no mesmo lugar. Se quiseres chegar a outro sítio, tens de correr pelo menos ao dobro desta velocidade”

    Alice no país das maravilhas – Lewis Carroll

    Embora Einstein tenha conquistado o imaginário popular a teoria cientifica de maior sucesso e já comprovada pela humanidade é a mecânica quântica que explica o mundo para escalas iguais ou menores que a atômica. Na escala do muito pequeno são verificadas bizarrices, totalmente comprovadas, como o fato das particulas se comportarem como ondas,  da comunicação entre particulas instantaneamente a qualquer distância.

    Diferentemente do que alega o autor novas e miraculosas teorias surgiram no século XX. Entre elas a teoria das cordas e a teoria M. Teorias que preveem multiplas dimensões do espaço e multiplos universos. O que tem emperrado o avanço cientifico é justamente a falta de tecnologia para comprovar as novas teorias.   

  2. Falsa ciência

    Vamos sonhar, vamos teorizar, mas não esqueçamos da realidade, isto é, que este é um mundo caído, amaldiçoado, tenebroso, com começo, meio e fim, embora no princípio não tenha sido criado assim. Quanto ao futuro da humanidade e da terra, este será glorioso, mas não o será por causa do progresso da ciência humana (ou alienígena) cuja fonte é a árvore do conhecimento do bem e do mal. O futuro da humanidade e da terra será glorioso por causa da árvore da vida que é Cristo! “Tu, porém, Daniel, cerra as palavras e sela o livro, até o fim do tempo; muitos correrão de uma parte para outra, e a ciência se multiplicará.” Daniel 12:4 “Ó Timóteo, guarda o depósito que te foi confiado, evitando as conversas vãs e profanas e as oposições da falsamente chamada ciência;” 1 Timóteo 6:20 “O amor jamais acaba; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá;” 1 Coríntios 13:8

     

    • Popper perdoai -o, João não sabe do que fala.
      Mais um fundamentalista! As bases da ciência são gregas. Vide o Organon de Aristóteles. Esta condenação a ciência está envolta num paradoxo, o Novo Testamento foi escrito em grego. Ademais, a ciência do bem e do mal também é grega – Ética à Nicomacos, de Aristóteles.

  3. Ciência

    Claro, claro, mas como citado acima, havendo ciência, desaparerá! A árvore do conhecimento, presente em Gêneses, não é vista na consumação do plano eterno de Deus, no final da Bíblia, no último capítulo de Apocalipse, apenas a árvore da vida e o rio da água da vida.

    A árvore do conhecimento é o fundamento da Babilônia, a grande, isto é, da civilização humana caída como a conhecemos, nos seus aspectos material, científico, político e religioso, enquanto que o fundamento da Nova Jerusalém, a cidade de Deus, é a árvore da vida, o Cristo, o Cordeiro.

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