Por Cleusa Slaviero Luersen
Then Again, I Failed. De repente, chega-me às mãos esse livro de título em inglês. Seria literatura estrangeira? Não! A história ali relatada nada tem de distante. Trata-se de um drama que vem ocorrendo com bastante frequência em diversos lugares do mundo, inclusive no Brasil.
A imigração é um dos maiores dramas deste jovem século. Devido às guerras ocorridas desde 2001 e à crise de 2008, milhões estão neste momento sem destino, à procura de um novo lugar para começar a vida. Nessa jornada, alguns morrem e muitos se perdem.
O livro Then Again, I Failed, do escritor Marcio Ribeiro da Silva, brasileiro de Minas Gerais, tem potencial para se tornar um importante adendo ao debate sobre a migração. Muitas vezes, não nos lembramos do papel central que o Brasil tem na imigração mundial. Milhares de famílias, à procura de melhor condição de vida, rumam para os Estados Unidos todos os anos. Outras milhares acorrem ao Brasil, fugindo de conflitos na África e no Oriente Médio, além dos migrantes econômicos oriundos dos vizinhos sul-americanos.
Nessa história, acompanhamos um deles: Denisio da Silva, que, após imigrar para os Estados Unidos, enfrenta uma série de problemas comuns aos que lá chegam. É especialmente tocante a forma como ele luta diariamente por liberdade, combatendo a intolerância e a xenofobia. Falar mais seria revelar detalhes da trama. Não podemos, no entanto, não reconhecer nesse livro um apelo às autoridades do mundo para repensarem as políticas de migração.
Devido à burocracia e ao ódio xenófobo, famílias estão sendo separadas. Pessoas honestas estão sendo impedidas de levar a vida pacificamente, contribuindo para o desenvolvimento da sociedade, em que escolheram viver, com o seu trabalho.
Ribeiro da Silva é uma dessas pessoas. Filho de uma região mineira que ficou conhecida como exportadora nacional de mão de obra barata, porque a maioria dos desempregados emigra para os Estados Unidos, o autor é um brasileiro entre um milhão e 400 mil que moram nos Estados Unidos.
Seu romance cadencia ficção com realidade, conjugando o drama dos imigrantes com o das prisões, traçando um paralelo entre o sistema penal americano e o brasileiro, com a pobreza, a falta de oportunidade e a mão pesada do Estado. Mas não é só o personagem da trama que sofre os percalços impostos por um sistema discriminatório: durante o governo Obama, o autor foi preso pelo serviço de imigração e teve a oportunidade de viver sob o guarda-chuva legal das premissas de liberdade por questão humanitária. Depois disso, dois acontecimentos mudaram sua vida: o nascimento de sua filha Giovana e a eleição de Donald Trump. A filha tornou-se a razão de sua vida e Trump chegou para lhe tirar a paz. Entrou no país ilegalmente, pela fronteira. Por isso, sem nenhum outro motivo, é perseguido com uma ordem de deportação arbitrária, sem que possa ir à frente de um juiz de imigração justificar que, se for deportado, será definitivamente separado de sua filha. Marcio não vive com a mãe de Giovana, que é legalizada.
O autor passa pela realidade desesperadora de milhares imigrantes: não se separar dos filhos. Foi por esse motivo que escreveu o romance que abraça a causa dos imigrantes, registrando com toda a sua alma o que vive e o que vê outros viverem, como carta aberta contra o autoritarismo que cresce nos Estados Unidos, no Brasil e no resto do mundo.
É hora de superar os falidos orgulhos nacionais e começarmos a construir relações verdadeiras, apoiadas não em uma bandeira de país, mas nos laços que une a todos nós como seres humanos.
Essa história tem de chegar às mãos de muitos leitores. Essa história tem de chegar às mãos de quem pode alterar os fatos positivamente: as autoridades migratórias das nações poderosas.
*Cleusa Slaviero é jornalista e editora
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