4 de junho de 2026

Os bons tempos da caderneta, por Carlos Motta

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Os bons tempos da caderneta

por Carlos Motta

Todas as semanas o Banco Central divulga o Boletim Focus, que traz projeções do mercado financeiro para uma série de indicadores econômicos. O último profetiza que a taxa básica de juros, a Selic, vai fechar o ano em 7,25%, uma queda de 0,25% em relação ao prognóstico anterior.

Já na economia real, o juro médio anual do cartão de crédito chegou a 399,1% em julho, marcando a segunda alta seguida.

E a taxa média de juros das operações de crédito, pessoas físicas e jurídicas, subiu em julho para 46,6% ao ano.

Vale lembrar que a atividade econômica está fraquinha, fraquinha, no Brasil, o que justifica o esforço do Banco Central em reduzir a Selic, mas contraria a lógica no caso das instituições financeiras, que vêm aumentando os juros.

Seja como for, o fato é que as taxas cobradas em nosso país são, para não dizer muito mais, indecorosas.

A ganância dos banqueiros é algo para se pensar. 

E como uma coisa puxa a outra, acabei me lembrando justamente do oposto, de comerciantes que conheci que sabiam tratar seus fregueses de modo especial – e nem por isso deixaram de lucrar com eles.

Na Jundiaí da minha juventude, lá no início dos anos 70, existiam várias pessoas assim. Me recordo particularmente de duas delas, o Cassiano, dono do Urso Branco, um bar ao qual íamos todas as noites depois do fechamento da edição do “Jornal de Jundiaí” – eu, o saudoso Afrânio Bardari, secretário de redação, Celso de Paula, batalhador incansável das artes e da cultura da cidade, repórter dos bons, e vários amigos que deixo de nominar justamente porque foram muitos.

O Cassiano, além de fazer sanduíches de primeira e não se importar de ficar aberto até a madrugada, ainda marcava na caderneta a nossa conta quando, por motivos alheios à nossa vontade, estávamos duros. 

Sei que nunca demos calote. Podíamos atrasar um pouco, mas ele, educadamente, nos cobrava quando sentia que havia perigo à vista.

Caso ainda mais grave de negociante que me levava às alturas com o tratamento dispensado era o Paulinho Copelli, da Casa Carlos Gomes, notável estabelecimento situado à Rua Barão de Jundiaí, que se encarregou, durante décadas, de levar o melhor da música aos jundiaienses.

O Paulinho era incrível. 

Além de oferecer o fino da MPB, do rock e do jazz, ainda tinha um sistema de crédito inacreditável.

Eu levava a pilha de LPs que escolhia até a sua mesa, tirava a ficha da loja do bolso e ele me perguntava, invariavelmente, depois de somar a compra:

– Quanto é que você quer pagar este mês?

Isso mesmo! 

Era eu que decidia de quanto seria a prestação. Comprei discos assim durante vários anos. Quando parei – e acertei o débito com o Paulinho – tinha uma coleção de mais de 1.500 LPs, boa parte deles da Casa Carlos Gomes.

Claro que ressuscitar o sistema da caderneta é algo impensável nos dias de hoje. Mas convenhamos: soltar rojões por uma taxa de 7,25% de juros ao ano, só mesmo sendo idiota.

Cassiano, Paulinho Copelli… 

Existiu mesmo esse país onde nós fizemos tantos bons negócios?

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

1 Comentário
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  1. Maria Luisa

    29 de agosto de 2017 5:57 pm

    O mundo é sonho, fantasia, desengano, alegria, sofrimento…

    Lendo ou ouvindo essas historia fico saudosista de um tempo que não cheguei de conhecer (um pouco dos anos 80), porém do qual tenho ouvido muito falar nesses tempos de tristeza pelo Brasil sem futuro proximo. 

    [video:https://youtu.be/GzPaCoTr_uo%5D

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