5 de junho de 2026

Profecias apressadas do caos e coisas que virão, por Gilberto Maringoni

De forma crescente, as pregações ortodoxas ganham tinturas de irresponsabilidade epidêmica, com suas políticas de ajuste, encolhimento do papel social dos Estados e supremacia mercadista.

Profecias apressadas do caos e coisas que virão

por Gilberto Maringoni

O CAPITALISMO NUNCA SE REFORMOU a partir de boas ideias, mas a partir de grandes disputas e gigantescas catástrofes. A História mostra que os abalos resultantes desses enfrentamentos moveram camadas tectônicas da hegemonia global e foram capazes de criar novas ordens internacionais.

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O processo que se inicia na Revolução Americana, passa pela Revolução Francesa, pela Revolução Haitiana e desemboca nas guerras napoleônicas (1776-1815) deslocou o eixo dinâmico do capital das Províncias Unidas (Holanda) para o Império Britânico, no início do século XIX. É o que Polanyi nos ensina em ‘A grande transformação (1944). Essa nova ordem duraria um século, seria marcada por cem anos de paz, a imposição do liberalismo econômico em escala planetária e pelo padrão-ouro.

AQUELE MUNDO SERIA ABALADO e destruído pela Segunda Guerra dos Trinta Anos (Losurdo), que compreende a I e a II Guerra Mundial e a crise de 1929. Nesse processo, inclui-se a destruição do padrão-ouro, a Revolução Russa, o fim de cinco impérios e a disseminação da gripe espanhola. Esta última foi marcada tanto por seu caráter global quanto letal (infectou um quarto da Humanidade e matou 50 milhões de pessoas em menos de um ano). O mundo que daí emerge tem seu centro de comando localizado em Washington.

É cedo, muito cedo para dizer que a catástrofe sanitária sem fronteiras do coronavírus irá alterar a ordem global, que hoje pode ser entendida como o deslocamento do eixo hegemônico mundial dos EUA para a China. A história está em curso e é irresponsabilidade fazer tal afirmação categoricamente.

MAS HÁ SINAIS, FORTES SINAIS, como percebe o arguto observador da cena política, J. M. Eymael. A China não apenas está conseguindo reverter a curva ascendente da contaminação – graças a um regime sanitário executado com mão de ferro e agora imitado pela Itália e outros países europeus -, como ganha autoridade política e moral ao realizar acordos de cooperação solidária com partes do Velho Mundo e da América Latina, o que inclui pactos com governadores brasileiros.

De forma crescente, as pregações ortodoxas ganham tinturas de irresponsabilidade epidêmica, com suas políticas de ajuste, encolhimento do papel social dos Estados e supremacia mercadista. Uma lógica de quase meio século está trincada. Ao longo das últimas semanas ficou claro que só se sai da crise com aumento do gasto estatal a fundo perdido e com emissões monetárias e de títulos da dívida pública. Austeridade tornou-se sinônimo de terraplanismo econômico.

NO ENTANTO, HEGEMONIA vai bem além de autoridade política e moral. Há o lado força a ser vencido. Trata-se não apenas de capacidade de coação militar, mas de coação e consenso financeiro. O dólar segue como moeda universal. Essa é a última e mais poderosa e complexa cidadela da supremacia imperial estadunidense.

É muito cedo para conclusões categóricas. Há que se atentar para as mudanças aceleradas na conjuntura global. É muito cedo para avaliar. Mas, repetimos, há sinais, fortes sinais…

P. S. A expressão “Coisas que virão” do título é uma tradução literal de “Things to come”, filme inglês de ficção científica, produzido em 1936 por Alexander Korda, com direção de William Cameron Menzies e roteiro de H. G. Wells. A fita mostra – três anos antes da deflagração da II Guerra – a destruição de Londres, o império da barbárie e a reconstrução do mundo um século depois. No Brasil, o título foi traduzido para “Daqui a cem anos”. Está inteirinho no Youtube e vale super a pena assistir na quarentena. Má notícia: a cópia não tem legendas.

Gilberto Maringoni

Gilberto Maringoni de Oliveira é um jornalista, cartunista e professor universitário brasileiro. É professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC, tendo lecionado também na Faculdade Cásper Líbero e na Universidade Federal de São Paulo.

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3 Comentários
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  1. Anônimo

    22 de março de 2020 5:11 pm

    É muito cedo mesmo para saber exatamente o que está acontecendo. E não é de agora, pois acho que o ponto de inflexão foi 2008, a crise que nunca se resolveu.
    Uma hipótese é que o eixo de poder esteja se deslocado do Ocidente (EUA e Europa com Japão associado) para a Eurásia, sob comando econico e militar de China e Rússia. É a hipótese que Maringoni coloca na mesa.
    Há outra hipótese: o que estamos vivendo pode ser a crise final do capitalismo, por conta das contradições da produção de valor, que exige cada vez mais máquinas e menos trabalho humano. Neste aspecto, o sucesso da China seria enganoso, pois ela nunca poderia se tornar um país desenvolvido: com PIB per capital alto e bem distribuído. Seria rica mas não desenvolvida. Aliás, os países desenvolvidos é que estão se achinesando, aumentando a pobreza relativa de seus povos por conta dos desenvolvimentos do capital. ISto sem falar no problema ecológico, impossível de se resolver sob o capitalismo, que exige aumento constante da produção de mercadorias objetivando o crescimento do PIB e do lucro.
    Muitas vezes já foi anunciada equivocadamente a morte do capitalismo, mas talvez dessa vez ele já esteja maduro (ou podre) para cair – por conta de suas pŕoprias contradições. E não seria uma queda indolor, para ninguém…

  2. pedro de A. Figueira

    22 de março de 2020 7:20 pm

    Seu artigo mais insinua do que qualquer coisa. Mas talvez seja bom pensar o que, mesmo sem coronavírus, a realidade vem insinuando, dando fortes sinais. Engels dizia que a partir de certo momento as relações burguesas começaram a penetrar nos poros da sociedade feudal e a alargá-los. O coronavírus, com sua face trágica e contraditoriamente socialista, está a arrebentar os poros desta sociedade que outrora foi capitalista. E a verdade é que do capitalismo só nos resta uma tragédia muito bem retratada por Jean Ziegler em seu último livro que seria, nesse momento, de leitura obrigatória.

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