4 de junho de 2026

Por que temo a guerra?

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Venho alertando para o perigo de uma guerra mundial há anos. Esse receio se baseia em um fato que deveria ser evidente, mas que está sendo escamoteado pelos meios de comunicação: a mudança de poder no mundo.

Estamos acostumados com o predomínio americano, habituados a vê-los mandando em tudo, determinando todas as regras do mundo, tem sido assim há décadas. Quando a segunda guerra mundial acabou, a Europa se encontrava em ruínas, a destruição havia se abatido sobre esse continente, levando também a Ásia, o Norte da África e, de resto, virtualmente todas as regiões desenvolvidas. A reconstrução do mundo foi feita sob o controle dos americanos, que determinaram praticamente todas as regras que vigem em nosso mundo. Duas condições impuseram essa determinação: o poderio militar e o poderio econômico dos EUA, ambos gigantescos, muito superiores a todos os demais.

Recentemente, no entanto, o poderio econômico americano foi superado. Essa afirmação parece excessiva; nossos meios de comunicação não aprovam essa afirmação, continuam divulgando a supremacia americana, fingindo não perceber o agigantamento da economia chinesa. Ao contrário do que se depreende de uma olhada superficial sobre as notícias, a economia chinesa já superou a americana, embora seja necessária certa argúcia e ainda maior empenho para constatar esse fato. De qualquer modo, a divulgação da verdade, nesse momento, ainda não é de interesse nem de americanos, nem de chineses. Americanos esforçam-se drasticamente para continuar parecendo os maiores do mundo, sua economia depende disso. A economia americana situa-se hoje fundada, quase exclusivamente, em símbolos, sustentada apenas por crenças. A descrença no dólar demolirá toda a economia americana, será como uma avalanche.

Acredito que isso ocorrerá com a explosão da próxima bolha. Bolhas, aliás, são crenças infladas meramente por outras crenças, como sonhos. A economia americana foi transformada nisso, em uma imensa bolha. Toda a campanha eleitoral do presidente americano se baseou nisso e na promessa de corrigir a situação retornando a um passado no qual a economia americana tinha estofo, era sustentada por máquinas, indústrias e por uma produção real de coisas palpáveis, não apenas por sonhos.

Aquele que detém o poder determina as regras, dá as ordens, estabelece o funcionamento de todas as coisas. O poder tem duas faces muito significativas, a econômica e a militar. A riqueza pode comprar exércitos, enquanto os exércitos podem destruir a riqueza dos outros. Por essa razão, essas duas faces costumam caminhar juntas, sendo o mais rico o mais poderoso, e o mais poderoso o mais rico.

Nesse momento, no entanto, encontramo-nos em um momento ímpar, e altamente explosivo, no qual a economia chinesa já superou a americana, embora o poderio bélico americano ainda continue maior que o do rival. A dissociação entre os poderes é instável, e os novos ricos quererão impor novas regras e novas determinações, enquanto os decadentes pretenderão manter sua hegemonia indefinidamente. Serão tentados, assim, a enfiar o porrete nos novos ricos sempre que contraditados. Foi o recado do presidente americano, em seu discurso de posse: a América primeiro. Anunciava o propósito de continuar mandando, ditando as regras que quisesse, pouco importando o que pensassem os outros. Tinha percebido que a China estava mudando o jogo. Não sabia, no entanto, que havia chegado tarde.

O presidente americano tinha um plano de guerra: pretendia impor aos chineses, e ao mundo, condições inaceitáveis, com o intuito de reverter, entre outras coisas, seu gigantesco e crescente déficit comercial, pretendia resolver isso no porrete: a América primeiro.

Sob essa diretriz, enfatizada por vários de seus principais assessores, o presidente americano iniciou o seu mandato anunciando um aumento astronômico no orçamento militar do país, anunciando também que faria uma comunicação bombástica em seu discurso no senado, ocasião em que mudou seu tom, provavelmente ao se tornar ciente de que o poderio militar chinês era muito maior do que supunha anteriormente, capaz de retaliação considerável após “ataque preventivo”. O discurso no senado, ao contrário do anunciado, assemelhou-se ao de todos os outros presidentes americanos anteriores.

Novo refugo relativo a outra decisão de iniciar uma guerra ocorreu posteriormente, quando a Casa Branca convocou todos os senadores para uma conferência sobre a Coreia do Norte. A convocação dos senadores tinha por objetivo aprovar um ataque americano, talvez nuclear, contra os coreanos, acabou se assemelhando mais a “um show de pôneis e poodles”, nas palavras de um dos senadores presentes. A decisão de abortar o ataque à Coreia – o presidente americano já declarou que quer voltar a ganhar guerras – se deveu, creio, à admissão de que, em caso de ataque, a Coreia do Norte será respaldada pela China.

Pouquíssima atenção tem sido dada a um fato importantíssimo: o aborto das provocações FONOPS. Logo no início do mandato, o presidente americano, conforme promessa de campanha, havia ameaçado endurecer as atividades no Mar da China, enviando uma esquadra de guerra composta por porta-aviões e escolta para a execução de provocações FONOPS em torno das ilhas recentemente ocupadas pelos chineses. Tais provocações consistiriam na passagem temerária da frota de guerra e do sobrevoo de bombardeiros e outros aviões de guerra sobre território chinês. O presidente recém-empossado costumava criticar seu predecessor acusando-o de bondade excessiva para com os chineses, especialmente no caso da vista grossa relativa à ocupação das ilhas. Acho difícil acreditar na bondade de um presidente responsável por milhares de assassinatos cometidos com brinquedos aéreos, entre outros. A mim parece mais plausível que os chineses já viessem confrontando a frota americana, especialmente seus aviões, conforme ameaça chinesa. Sabe-se que os chineses clonaram os melhores aviões americanos após hackear seus projetos. Baseados nas pistas recém-construídas no Mar da China, e com auxílio de foguetes de defesa instalados também nesses locais, os chineses talvez sejam capazes de encarar as provocações da frota americana quando realizadas em suas costas, razão pela qual as provocações FONOPS comandadas pelo atual presidente, assim como as anteriores, acabaram não sendo realizadas. Não tenho informações sobre confrontos recentes, exceto se considerado o sobrevoo de uma esquadrilha chinesa composta por 13 aviões de guerra, 6 bombardeiros inclusos, nos arredores de Okinawa, Japão, onde se situam bases americanas. A especulação de que as forças armadas chinesas estariam conseguindo confrontar as americanas na região explicaria a desistência inusitada das provocações FONOPS e a aparente bondade de assassinos. Aludo, novamente, aos milhares de assassinatos terroristas cometidos com a autorização do presidente americano, executados com drones, além de inúmeras outras incursões guerreiras.

Esse fato, aliás, reforça a acusação do presidente norte-coreano de que um fantoche patrocinado por americanos teria tentado envenená-lo. Em um mundo mais razoável, tal acusação deveria ser imediatamente descartada como delírio de um louco, ou um ato de propaganda tola. Em nosso mundo, não. A menos que consideremos muito diferentes as formas de assassinatos cometidos com o uso de brinquedos voadores e o de envenenamento hi-tech, não podemos desconsiderar a denúncia, bastante plausível, dada a consideração que os governantes americanos dão à questão do assassinato de estrangeiros. A América primeiro, significando um desrespeito radical por todos os outros, certamente é uma determinação antiga e generalizada, apenas explicitada de modo mais claro recentemente. A moralidade em nosso mundo deveria merecer atenção.

Enquanto isso, os sul-coreanos iniciam uma eleição presidencial na qual a questão central será o modo como deverá ser  tratado por eles o presidente americano. O Trump’olho havia empurrado um sistema de mísseis à Coreia do Sul que gerou temores e sanções econômicas da China; além da vizinha, enfureceu ainda mais a irmã, Coreia do Norte. Depois de iniciar o funcionamento do sistema que transforma o país em alvo primário de um possível ataque chinês ou norte-coreano, o americano anunciou a cobrança de 1 bilhão de dólares pelo  presente de grego, tendo em seguida abdicado da cobrança. Mas exasperou os parceiros com a leviandade disparatada. Tem sido essa a sina do presidente americano, enfurecer os aliados com quem lida.

Os sul-coreanos sabem que seus irmãos rebeldes do norte estariam quietos, não fossem as ameaças dos americanos  a cutucar o vespeiro. Os sul-coreanos conhecem bem os seus irmãos, sabem que nada ocorrerá se não mexerem com eles, mas que revidarão ferozmente se o fizerem. Por essa razão, o principal temor dos sul-coreanos, no momento, é a presença  do americano imiscuindo-se nas questões locais, fator que determinará suas eleições após um golpe similar ao efetuado aqui.

Apesar de tudo, creio que o momento é menos alarmante do que pode parecer. A solução das querelas relativas às ilhas chinesas no Mar da China é extremamente auspiciosa, deve consistir no término de desavenças que poderiam ter se tornado bastante explosivas. Merece atenção a extrema habilidade da diplomacia chinesa no feito. A Coreia do Norte, por seu turno, não tem, nenhum interesse em atacar quem quer que seja, mas tenta se defender, desesperadamente.

Por que, então, escrevo esse texto? Por que temo a guerra?

Além do improvável, mas possível, descontrole disparado pela presença de inúmeras tropas rivais compartilhando a mesma região, temo, de fato, a mudança de poder prestes a ocorrer.

A solução das questões relativas à ocupação das ilhas chinesas consiste em uma demonstração de que os chineses já estão substituindo os americanos na hegemonia mundial. Nas redondezas da China esse fato está sendo evidenciado pela ocupação pacífica das ilhas chinesas.

Não creio, no entanto, que os americanos permitam que a troca de poder se efetue sem luta, é esse o meu temor. Existe um agravante nessa mudança: seria de dificílima deglutição, penso, para os americanos, que canadenses ou ingleses viessem a comandar o mundo em substituição a eles, mudando as regras do jogo, ajustando-as a suas próprias conveniências, e não mais às americanas. Já as modificações propostas pelos chineses, nem ao menos serão compreendidas, complicando ainda mais o problema.

É por essas razões, em vista da troca de poder prestes a ocorrer no mundo, que temo uma guerra mundial apocalíptica.

Acredito que, em breve, a explosão de uma bolha dispare uma reação em cadeia, detonando todas as outras bolhas, incluindo a bolha mãe, a bolha do dólar. Isso significará a derrocada do dólar e a ruína do ocidente. Após a crise brutal em que o mundo mergulhará, despontará uma China exuberante propondo a recuperação econômica mundial sob sua batuta. Mas as forças armadas americanas são fortíssimas, se oporão às novas determinações. Também é possível um ataque preventivo americano, se antecipando a tudo isso, caso em que o pretexto Norte-Coreano viria sob encomenda.

Temos de estar cientes de tudo isso para, em nenhuma hipótese, apoiarmos o agressor.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados