4 de junho de 2026

A elite política do Rio de Janeiro perdeu o juízo, por Sidney Rezende

Embora o Rio de Janeiro tenha muitos problemas a resolver, a elite política perdeu o juízo ao virar as costas para a população e olhar para o próprio umbigo
Wilson Witzel, governador do Rio de Janeiro. Foto: Reprodução
A elite política do Rio de Janeiro perdeu o juízo
por Sidney Rezende, do SRzd.com

 

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A explicação mais imaginativa que ouvi sobre a razão do Rio de Janeiro estar sempre atado às suas amarras é a que acredita ser uma praga espiritual dos escravos que viveram ali sofrimento incomparável. Os africanos amontoados nos navios negreiros, ao chegarem nesta cidade maravilhosa, eram castigados brutalmente por seus senhores. O seu sangue virou a prova da necessidade de maldição sem data para acabar.

O nosso eterno consolo se traduz numa frase poética do antropólogo, Darcy Ribeiro: “Deus fez o Rio de Janeiro a mão”. O mesmo estudioso que não se cansava de afirmar que “o povo brasileiro é muito melhor do que sua elite”.

O Rio é o milagre ao contrário, o vinho abundante se transforma na mão do homem em vinagre. Como é possível que um paraíso na terra tendo abrigado a Família Real portuguesa e a sua corte em 1808,  capital do Reino de Portugal e de seu vasto império ultramarino, possa se transformar num retrato do que não deveria ser? A explicação não é simples. Mas provavelmente é resultado das escolhas das nossas elites.

Os mesmos dirigentes negligenciaram, por falta de planejamento, o uso do espaço urbano. Atualmente, existem quatro favelas para cada bairro residencial. Ainda que a esquerda romantize isto com clássica afirmação “favela não é problema, é solução”, a verdade é que os morros viraram amontoados de seres humanos sem o mínimo respeito aos direitos básicos.

O andar de cima trocou cortiços como forma de tratamento para o nome menos dolorido: “habitações sub-normais”. Mas injustiças e a ausência de direitos continuam lá, intactos.

Por que chegamos onde estamos? A ida da capital para Brasília em 21 de abril de 1960 arrebentou com o Rio de Janeiro. Dali para cá as elites dirigentes tomaram um porre e nunca mais voltaram à sobriedade.

O governador Chagas Freitas tornou-se o símbolo do clientelismo nacional: uma bica d’água em troca de votos. Leonel Brizola, mesmo tendo exercido dois mandatos não contínuos, foi bombardeado pelo poder econômico durante as duas administrações. Apesar da justa prioridade à educação, a opção sábia pelo ensino integral, há quem o responsabilize pelo descontrole da segurança pública.

Moreira Franco brigou com o presidente José Sarney. Marcello Alencar governou sob suspeita de práticas heterodoxas de seus filhos que o auxiliavam na máquina pública. Anthony Garotinho, Benedita da Silva e Rosinha marcaram um período confuso com a insegurança carcomendo a paz do cidadão.

Sérgio Cabral condenado a 200 anos por corrupção variada fala pela sua folha corrida. Luiz Fernando Pezão, em seguida, eleito pelas mãos de Cabral, fez a administração da paralisia pela falência generalizada.

Vivemos agora os dias do juiz que abandona a toga, e contra todos os prognósticos, chega ao Palácio Guanabara. Estamos falando de Wilson Witzel. Surpreendentemente, em pouco mais de um ano, o capital político do ex-magistrado começa a ser dilapidado rapidamente.

O pior, tudo isso acontece em meio a dor física que vitima milhares pela doença do século. Witzel, o seu secretário de Saúde, o prefeito de Duque de Caxias e o de Queimados estão infectados pelo coronavírus. O certo seria repouso e isolamento incondicional para todos. Mas o governador preferiu não abandonar o trabalho e está despachando, ainda que virtualmente, do Palácio Laranjeiras.

Pelas ruas, a direita conservadora já pede em diversas manifestações sua queda. Na Alerj, já não é escondido o desejo de seus ex-aliados em achar um caminho para pedir o impeachment do Governador. Sem antes, sangrar seu governo politicamente.

Os seus ex-companheiros não perdoam Witzel por confrontar o presidente Jair Bolsonaro. “Traidor” é a palavra mais elegante com que tratam o ex-aliado na intimidade. “O governo dele não dura 6 meses”, disse um deputado com certeza da sua afirmação.

O ex-deputado Roberto Jefferson, presidente nacional do PTB, postou um tuíte dizendo que “no Estado do Rio, do governo Witzel, já é voz corrente entre políticos e fornecedores do estado, que a corrupção é desenfreada. Muitos falam em saudades do Sérgio Cabral, pois sabiam quanto davam e para quem. O Rio virou um mar de piranhas, todos mordem.”

A volta de Jefferson não é por acaso, depois que ele desapareceu por um bom tempo das redes sociais. Ele escolheu a dedo a oportunidade de retornar à cena: ano eleitoral onde a temperatura sobe e tudo ganha projeção.

A bola da vez é André Moura

Na política do Rio, tem outro nome que tem sido repetido quase ao mesmo tempo da projeção do presidente do PTB: Eduardo Cunha. O que dizem é que Cunha estaria de volta e comendo pelas beiradas. O ex-presidente da Câmara dos Deputados que pavimentou o impeachment de Dilma Rousseff está em casa em prisão domiciliar. Mas dizem, ativo e atento.

O seu nome voltou ao noticiário porque um dos seus amigos do passado, o ex-deputado por Sergipe e atual Secretário da Casa Civil, André Moura, estaria escalando degraus estratégicos, e com autonomia, no Governo Estadual. Justo no momento em que outro protagonista, este amigo pessoal de Witzel,  o Secretário de Desenvolvimento, Lucas Tristão, está mais recluso. Em resumo, nos bastidores da política fluminense, tudo o que acontece de ruim no governo Witzel está caindo na conta de Moura.

Curiosamente, não é da esquerda que vêm os ataques mais pesados contra o governador. É a direita que tem produzido farto material contra André Moura. São cards, prints com acusações e vídeos. O movimento mais nítido é o de emparedar o governador. A tese dos conservadores é que “não vai demorar e a polícia baterá na porta de corruptos que hoje pensam estar impunes”, disse um deputado estadual.

Os acusadores garantem que há corrupção no Detran e na utilização de recursos para a saúde sem licitação. Procuramos o líder do Governo na Alerj, Marcio Pacheco, que rechaçou de pronto tudo o que está sendo exposto e, saiu em defesa do secretário: “André Moura é uma pessoa fundamental. A liderança está afinada com ele. É um parceiro efetivo”. E sobre suspeita de desvios,  e qual tem sido a resposta do Governo, Pacheco foi direto: “O governador não é obrigado a saber de tudo, de cada detalhe. Ele delega e cobra resultados. Mas quando chega qualquer denúncia mais séria, imediatamente, ele ordena a Polícia Civil para investigar, e se houver culpados, estes serão punidos”.

Problemas é que não faltam

Impeachment, acusações de corrupção, desvios de conduta, desemprego, falta de recursos para administrar a dívida do estado e da capital, queda do preço do petróleo, redução dos royalties, pandemia de coronavírus, risco de atraso de salários dos servidores, queda brutal de arrecadação, aumento da pobreza, problemas sociais graves e insolúveis no curto prazo, índices de criminalidade ainda altos, violência urbana, intolerância religiosa, de gênero e racial…Certamente a lista de problemas continua. Por tudo isso, as autoridades do Rio deveriam estar unidas para dar solução aos reais problemas do povo, mas, ao optar pelo próprio umbigo e virar as costas para a população resta a constatação óbvia: a elite perdeu o juízo.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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9 Comentários
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  1. Orides

    19 de abril de 2020 10:25 am

    Como é possível se perder o que nunca se teve?

  2. Henrique Martins

    19 de abril de 2020 10:35 am

    Compartilhem esse raciocínio na internet se concordarem..

    Jair Bolsonaro disse ontem que 70 por cento da população será infectada na pandemia. Ele age para que todos se contaminem de uma vez.
    Está morrendo no Brasil cerca de 5 por cento dos infectados sem o sistema de saúde totalmente colapsado. Com o sistema de saúde colapsado é difícil até fazer uma estimativa de quantas pessoas poderão morrer.
    Os tais 70 por cento representam 150 milhões de brasileiros.
    Jair Bolsonaro não entende que a questão não é a população ser infectada. O problema é ela ser infectada ao mesmo tempo.

    Diante desse raciocínio a pergunta é a seguinte: o presidente da república quer que no mínimo 7 milhões e meio de brasileiros morram para salvar a economia?

    1. peregrino

      19 de abril de 2020 11:30 am

      os fortes a que Bolsonaro se refere são os mais ricos…
      tudo indica que já foi informado de que quem mais se contamina são os ricos, mas quem está morrendo mais são os pobres

      pode conferir

    2. Carlos Elisio

      19 de abril de 2020 11:35 am

      Assim caminha a reforma da previdência.

  3. Carlos Elisio

    19 de abril de 2020 10:51 am

    Sou carioca. Estou nesta terra há quase 7 décadas e me sinto bem à vontade para comentar.
    Primeiro: o rio de Janeiro nunca possuiu uma elite. Apenas um amontoado de dondocas, almofadinhas e filhinhos de papai que formam uma burguesia fedida, e que só aprenderam isso, olhar para o próprio umbigo.
    Segundo: nunca foi praga de sangue escravo. Quem sofre injustiças raramente odeia, nao tem tempo para isso.
    Mas este extrato do seu texto: “… um paraíso na terra tendo abrigado a Família Real portuguesa e a sua corte em 1808,  capital do Reino de Portugal e de seu vasto império ultramarino, possa se transformar num retrato do que não deveria ser” este texto responde exatamente a questão sobre nossas mazelas. Afinal, esta familia veio para cá acovardada, se escondendo atrás de uma potência, e na ocasião se utilizou do subterfúgio que hoje nossa “elite” politica usa descaradamende: vender/doar nossas riquezas para as “nações amigas”.
    Até hoje descendentes desta “familia real”, amostra fiel de uma elite fedorenta, continuam decepcionando. Ou não se aliaram ao que há de pior no pais?

  4. Paulo Dantas

    19 de abril de 2020 11:15 am

    Nós os moradores do RJ que somos os culpados elegendo esta gente.
    Simples assim.

  5. Boeotorum Brasiliensis

    19 de abril de 2020 11:24 am

    Provavelmente, Sidney Rezende reside no Rio. Para quem olha o estado do Rio de Janeiro de fora há muito entendeu que não, somente uma dita elite, seja lá o que diabo isso for, mas, toda a burguesia carioca é o simbolo da insensatez. Uso o termo burguesia para tentar estender o alcance da responsabilização para um espectro mais amplo e incluir o pequeno comerciante, o professor do ensino fundamental, o jornalista, o barnabé e todos os que compartilham desse mesmo pensamento retrógrado. Como regra colocam-se à parte do problema, como se dele não fossem elementos ou para com ele não contribuíssem. Quando não estão em busca de um culpado, estão negando realidades. É trágico e ridículo.
    Não cabe adentrar pela análise da antropologia e sociologia do estado do Rio. Dá apenas para afirmar que a única maldição que sofrem é a maldição da ignorância política. Não esqueçamos, que além de agentes locais, pela força do simbolismo da cidade do Rio e sua projeção, os cariocas foram exportadores dessa ignorância para outros lugares no Brasil. Embora, é claro não criaram nem possuem a exclusividade da ignorância politica.
    É possível supor a revolta contra essa ignorância como mote para Sidney Rezende escrever e publicar no Facebook, em novembro de 2015, o texto “Chega de notícias ruins”. Denunciava o ambiente de ignorância política que reinava e reina nas redações. A sua lucidez e coragem custaram-lhe o emprego de mais 20 anos na Globo.

  6. Sidnei

    19 de abril de 2020 12:17 pm

    Nossa!, cada nome!
    O desgaste político é precedido pelo sangramento…e quem sangra é a sociedade!
    Meu! É muito nome forte! Cunha, BOZO, Wietzel…faltou o principal nome, aquele que explica tudo: GLOBO….que cheiro!
    E eu viajo, nessa alegria sem comparação. Penso, alucinado, na seleção marcando um gol!
    E ouço aquela vinheta da maravilhosa Globo, depois que o Galvão gritou:
    – goool….( como se estivesse com desenterra).
    Daí a vinheta, ma ra vi lho da:
    – BRAZIL !
    e repete:
    – BRAZIL!

  7. Sidnei

    19 de abril de 2020 12:19 pm

    Nossa!, cada nome!
    O desgaste político é precedido pelo sangramento…e quem sangra é a sociedade!
    Meu! É muito nome forte! Cunha, BOZO, Witzel…faltou o principal nome, aquele que explica tudo: GLOBO….que cheiro!
    E eu viajo, nessa alegria sem comparação. Penso, alucinado, na seleção marcando um gol!
    E ouço aquela vinheta da maravilhosa daGlobo, depois que o Galvão gritou:
    – goool….( como se estivesse com desenteria).
    Daí a vinheta, ma ra vi lho sa:
    – BRAZIL !
    e repete:
    – BRAZIL!

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