5 de junho de 2026

Depois do coronavírus, por Leonardo Boff

Enquanto crescer o aquecimento global e aumentar a devastação de habitats naturais não teremos imunidade: os animais nos transmitirão mais vírus

A Terra É Redonda

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Muitos já sentenciaram: depois do coronavírus não é mais possível levar avante o projeto do capitalismo como modo de produção nem do neoliberalismo como sua expressão política. O capitalismo é somente bom para os ricos; para os demais é um purgatório ou um inferno e para a natureza, uma guerra sem tréguas. O que nos está salvando não é a concorrência (seu motor principal), mas a cooperação, nem o individualismo (sua expressão cultural), mas a interdependência de todos com todos.

Mas, vamos ao ponto central: descobrimos que a “vida” é o valor supremo, não a acumulação de bens materiais. O aparato bélico montado, capaz de destruir por várias vezes a vida na Terra se mostrou ridículo perante um inimigo microscópico invisível, que ameaça a humanidade inteira. Seria o Next Big One (NBO) do qual temem os biólogos, “o próximo Grande Vírus”, destruidor do futuro da vida? Não cremos. Esperamos que a Terra tenha ainda compaixão de nós e nos dê apenas uma espécie de ultimato.

Já que o vírus ameaçador provém da natureza, o isolamento social nos oferece a oportunidade de nos questionarmos: qual foi e como deve ser nossa relação face à natureza e, em termos mais gerais, face à Terra como Casa Comum? Não são suficientes a medicina e a técnica, por mais necessárias. Sua função é atacar o vírus até exterminá-lo. Mas se continuarmos a agredir a Terra viva – “nosso lar com uma comunidade de vida única”, como diz a Carta da Terra (Preâmbulo) – ela contra-atacará de novo com pandemias mais letais, até uma que nos exterminará.

Ocorre que a maioria da humanidade e dos chefes de Estado não tem consciência de que estamos dentro da sexta extinção em massa. Até hoje não nos sentíamos parte da natureza e nós humanos a sua porção consciente; nossa relação não é para com um ser vivo – Gaia – que possui valor em si mesmo e deve ser respeitado, mas de mero uso em função de nossa comodidade e enriquecimento. Exploramos a Terra violentamente a ponto de 60% dos solos terem sido erodidos, na mesma proporção as florestas úmidas e causamos uma espantosa devastação de espécies, entre 70-100 mil por ano. É a vigência do “antropoceno” e do “necroceno”. A continuar nesta rota vamos ao encontro de nosso próprio desaparecimento.

Não temos alternativa senão fazermos – nas palavras da encíclica papal “Sobre o cuidado da Casa Comum” – uma “radical conversão ecológica”. Nesse sentido o coronavírus é mais que uma crise como outras, mas a exigência de uma relação amigável e cuidadosa para com a natureza. Como implantá-la num mundo montado sobre a exploração de todos os ecossistemas? Não há projetos prontos. Todos estão em busca. O pior que nos pode acontecer seria, passada a pandemia, voltarmos ao que era antes: as fábricas produzindo a todo vapor mesmo com certo cuidado ecológico. Sabemos que grandes corporações estão se articulando para recuperar o tempo e os ganhos perdidos.

Mas há que conceder que esta conversão não pode ser repentina, mas processual. Quando o Presidente francês Emmanuel Macron disse que “a lição da pandemia era de que existem bens e serviço que devem ser colocados fora do mercado” provocou a corrida de dezenas de grandes organizações ecológicas, tipo Oxfam, Attac e outras pedindo que os 750 bilhões de Euros do Banco Central Europeu destinados a sanar as perdas das empresas fossem direcionados à “reconversão social e ecológica” do aparato produtivo em vista de mais cuidado para com a natureza, mais justiça e igualdade sociais. Logicamente isso só se fará ampliando o debate, envolvendo todo tipo de grupos, desde a participação popular ao saber científico, até surgir uma convicção e uma responsabilidade coletiva.

De uma coisa devemos ter plena consciência: enquanto crescer o aquecimento global e aumentar a população mundial devastando habitats naturais e assim aproximando os seres humanos aos animais, estes transmitirão mais vírus. Seremos seus novos hospedeiros, situação para a qual não estamos imunes. Daí pode surgir pandemias devastadoras.

O ponto essencial e irrenunciável é a nova concepção da Terra, não mais como um mercado de negócios colocando-nos como senhores (dominus), fora e acima dela, mas como um super Ente vivo, um sistema autoregulador e autocriativo, do qual somos a parte consciente e responsável, junto com os demais seres como irmãos (frater). A passagem do dominus (dono) a frater (irmão) exigirá uma nova mente e um novo coração, isto é, ver de modo diferente a Terra e sentir com o coração a nossa pertença a ela e ao Grande Todo. Junto a isso o sentido de inter-retro-relacionamento de todos com todos e uma responsabilidade coletiva face ao futuro comum. Só assim chegaremos como prognostica a Carta da Terra a “um modo sustentável de vida” e a uma garantia de futuro da vida e da Mãe Terra.

A atual fase de recolhimento social pode significar uma espécie de retiro reflexivo e humanístico para pensarmos sobre tais coisas e a nossa responsabilidade diante delas. O tempo é curto e urgente e não podemos chegar tarde demais.

*Leonardo Boff, ecoteólogo, é autor, entre outros livros, de Como cuidar da Casa Comum (Vozes, 2018).

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Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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5 Comentários
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  1. Marvado

    27 de abril de 2020 9:38 pm

    Caro Frei, somos grandes demais, numerosos demais e também comemos demais. Não bastasse, com o senhor bem disse, arrancamos tudo da terra, mas não nos sentimos parte dela, tanto que rejeitamos nossos irmãos indios simplesmente porque são os que mais se parecem com ela.

  2. peregrino

    27 de abril de 2020 11:07 pm

    e pensar que as formas de vida são várias
    e pensar que todas são importantes para a condução, ou continuação, de qualquer uma delas
    e pensar que uma sempre foi anterior a outra
    e pensar que tudo existe por nenhuma ter perdido a sua proteção natural
    .
    .
    …gostei dele ter chamado a atenção da gente para a importância de todas terem habitado o planeta de forma continuada ou dependentes umas das outras, enfim, sem nada pronto e acabado em qualquer uma delas……………………………

    ando às voltas por esse mundão da internet, à procura de uma filmagem microscópica do deslocamento de formas de vida para longe de uma outra estranha, hostil a todas elas, quando simplesmente contornam, desviam, esquecem de si mesmas, se alteram, e voltam a se unir, se ramificam novamente, mas não diferentes para qualquer uma delas, apenas diferentes para a forma hostil

    1. Rui Ribeiro

      28 de abril de 2020 8:54 am

      “E pensar que as formas de vida são várias
      e pensar que todas são importantes para a condução, ou continuação, de qualquer uma delas…”

      Até os ácaros são importantes para a condução e/ou continuação de todas as demais formas de vida?

      Como?

      Eu tava pensando em extinguí-los ontem à noite.

  3. peregrino

    27 de abril de 2020 11:29 pm

    e pensar que as formas de vida são várias
    e pensar que todas são importantes para a condução, ou continuação, de qualquer uma delas
    e pensar que uma sempre foi anterior a outra
    e pensar que tudo existe por nenhuma ter perdido a sua proteção natural
    .
    .
    …gostei dele ter chamado a atenção da gente para a importância de todas terem habitado o planeta de forma continuada ou dependentes umas das outras, enfim, sem ter nada pronto e acabado em qualquer uma delas……………………………

    ando às voltas por esse mundão da internet, à procura de uma filmagem microscópica do deslocamento de formas de vida para longe de uma outra estranha, hostil a todas elas, quando simplesmente contornam, desviam, esquecem de si mesmas, se alteram, e voltam a se unir, se ramificam novamente, mas não diferentes para qualquer uma delas, apenas diferentes para a forma hostil

    hei de encontrar o que perdi, para novamente fotografar em partes, como tentei em arremedos de poesia…………………….talvez dessa vez eu consiga em haicais de vidas que necessitem apenas de água e um pouco de sol

    isso, se eu não endoidar de vez antes, ou me livrar do que nunca quis ou pedi para ter

  4. luiz francisco da cruz

    28 de abril de 2020 3:32 pm

    ECOLOGIAchega de tratar a natureza,como se fosse uma inimiga,temos que ter consciencia de quanto de necessario é a fauna e flora.Estamos vendo os mares serem invadidos por detritos,sem nenhuma providencia cabivel.somos fruto dos tempos de consumismo desenfreado e sem noção.Mais gritante é perceber que elegemos cidadãos insanos,sem nenhum preparo.

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