Bolsonaro e o Centrão: tudo a ver
por Antonio Lassance
Se engana quem pensa que Bolsonaro e o famigerado Centrão são como água e óleo. Sabe de nada o inocente que acha difícil o presidente fechar acordo com o bloco do “é dando que se recebe” (mantra de um dos pais fundadores do Centrão, o deputado Roberto Cardoso Alves). A operação não é nenhum bicho de sete cabeças. O bolsonarismo já tem até um discurso de arroz de festa para jogar quando Bolsonaro e o Centrão saírem de mãos dadas.
Em primeiro lugar, é bom lembrar que o Centrão já estava no governo Bolsonaro desde o início, com os três mosqueteiros: Onyx Lorenzoni, Luiz Henrique Mandetta e Osmar Terra.
Certamente, ninguém do Centrão reivindicava a paternidade e se dizia satisfeito quanto a quaisquer dessas indicações. De fato, o dia em que o Centrão se disser satisfeito com os cargos que tem, já não será mais o Centrão. Mas o bloco manifestou seu desagrado quando Onyx Lorenzoni foi deslocado da Casa Civil para o Ministério da Cidadania. Osmar Terra foi defenestrado, mas curiosamente seu empenho em agradar Bolsonaro só fez aumentar. Mandetta foi lançado aos tubarões, mas seu o ex-chefe de gabinete foi nomeado na Anvisa, atendendo a pedido do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM).
Em seus quase 30 anos como deputado federal, Bolsonaro passou por seis partidos, todos do Centrão, antes de pular para o PSL: PPR (1993-95), PPB (1995-2003), PTB (2003-2005), PFL (2005), PP (2005-2016) e PSC (2016-2017). Pode-se dizer que Bolsonaro sempre foi Centrão ou, na melhor das hipóteses, sempre soube exatamente como lidar com ele, por dentro. Note que, só no Partido Progressista (PP), partido de Maluf, Ciro Nogueira, Arthur Lira, Eduardo da Fonte, Pedro Corrêa, entre outros expoentes, Bolsonaro passou mais de uma década.
Detalhe importante: na Câmara, onde fica o botão que aciona a máquina do “impeachment”, mais de dois terços dos parlamentares “terrivelmente evangélicos” habitam hoje justamente o Centrão.
É um senhor cacife e uma bela desculpa para se propor namoro, noivado e casamento ao Centrão em tempo recorde. O mais bacana é que, na entrevista coletiva lá na grade do Alvorada, o “affair” não seria anunciado como troca-troca, e sim, dízimo, para os aplausos e “améns” da claque.
A propósito, da última vez em que o botão do “impeachment” foi acionado, quem comandava o Centrão e ditava a agenda do país, a partir da Câmara dos Deputados, era um senhor de nome Eduardo Cunha (MDB-RJ). Além de Centrão, Cunha era o maior expoente justamente da bancada evangélica daquela legislatura. Acabaria preso e acusado, entre outras coisas, de ter dinheiro de propina e também um Porsche em nome de uma empresa chamada “Jesus.com”.
Atualmente, dos 200 deputados que se calcula integrarem o Centrão naquela casa, mais de 26% (cerca de 52 deputados) são da bancada evangélica. Ou seja, em cada quatro deputados desse bloco que é sempre o fiel ou o infiel de qualquer balança, um é evangélico (vide tabela ao final).
Em suma, Bolsonaro e o Centrão não estão longe de um acordo. Os dois se conhecem e sabem do que estão falando. A questão só tem um enrosco: não é tão fácil alinhar essa narrativa às preferências de todos os parlamentares do bloco, mesmo dentro da bancada evangélica. A Bíblia do Centrão, na verdade, chama-se Diário Oficial.
Fonte: tabela do autor com base em dados do Diap, Radiografia do Novo Congresso: Legislatura 2019-2023. Brasília-DF : DIAP, 2018. 164 p. Disponível em: https://www.urbanitariosdf.
Obs1: ao contrário do que é mais comum entre os analistas, o DIAP não costuma incluir o MDB no Centrão. Historicamente, o Centrão era uma aliança que reunia setores de direita de vários partidos, tendo alguns de seus principais expoentes parlamentares do PMDB, como Expedito Machado (PMDB-CE), Luis Roberto Ponte (PMDB-RS) e Daso Coimbra (PDMB-RJ).
Obs 2: A respeito da história do Centrão, leia o excelente artigo de Antônio Augusto de Queiroz (o Toninho do Diap), “Centrão: passado, presente e futuro”. Disponível em https://congressoemfoco.uol.
Obs3: Atualmente, não todo o MDB, mas uma parcela importante – e certamente a parte evangélica do MDB – tem se articulado em torno desse bloco informal conhecido pelo nome de Centrão. Por isso esses parlamentares aparecem na tabela.
Antonio Lassance é cientista político.

Vladimir
30 de abril de 2020 10:04 amNão podemos nos deixar enganar por essa gente. Discussões a respeito de ocupação de Espaços,digamos assim,sempre houve e sempre haverá,mesmo que um partido alcance a maioria absoluta dos assentos dentro do parlamento,pois,dentro de um partido,assim como em qualquer área de ossa vida,existem as correntes de pensamento,afinidade,etc,etc.
Ocorre que,mais uma vez,a mídia golpista do país,que por algum motivo não está satisfeita com as grosserias do grosso que ajudou a eleger para a presidência da república,tentar dar uma nova roupagem para os “apoiadores” do governo.
Será que alguém se lembra de quando a chamada reforma da previdência (na verdade usurpação dos direitos previdenciários do trabalhadores) foi aprovada por ampla maioria a mídia ter se referido a essa gente da forma pejorativa como centrão? Alguém viu,ou ouviu que o responsável por essa reforma era um bicudo emplumado?De um partido que diz não fazer parte do governo? Alguém pode dizer quais foram os “espaços” negociados nessa transação?
Pois é,essa e a realidade.Não nos deixemos enganar. O bloco que deu um golpe de Estado contra uma presidenta legitimamente eleita que impediu o presidente Lula de concorrer a ganhar as eleições,que calou-se diante das fake news,que após o golpe sucateou o país,retirou os direitos trabalhistas,aumentou o desemprego e a informalidade,que é o responsável direto pelas mortes da pandemia do coronavírus,sentindo que dizimou a oposição,agora,acha que pode dividir-se e disputar o poder entre eles.
Não nos deixemos enganar. Tem alas no campo progressista que acham que acenos dessa gente seria de arrependimento. Não! Os acenos dessa gente são para tentar acabar com o que restou de nossas forças democráticas.São acenos no sentido de manter a hegemonia de mais de 500 anos e diretamente responsável pelo atraso inexplicável de nosso país.
Não nos deixemos enganar!
Lucinei
30 de abril de 2020 10:19 amEssa articulação em torno do “mito” se dará com o baixo clero do centrão, que é o lugar específico da trajetória parlamentar do boçalnaro 00.
Com o alto clero do centrão o jogo SEMPRE foi muito além do cargos no Executivo, nas estatais e no Judiciario, a conversa era sobre arrecadação e repartição dos fundos de campanha. Era assim que os caciques mantinham suas bancadas em ordem unida. Uns gostam de chamar o acordo em torno disso de “horario eleitoral”, “tempo de televisao”, etc; outros gostam de acreditar. O fato é que nessa chacrinha toda o financiamento empresarial foi embora. Aumentaram o fundo eleitoral e partidário pra tampar o buraco, mas a coisa é diferente…
Essa é a infraestrutura, por assim dizer, da aquisição e do exercício do poder que vigorou durante a nova República. Agora a bola é nova. A arrumação do quadro partidário ainda está acontecendo nesta nova ordem. A tentativa de criar um partido fascista não vingou até o momento. Uma possibilidade é que surja desta movimentação atual. Não dá pra dizer que seja um projeto consciente e articulado ainda. Mas não descarto que se deparem com isto no decorrer do período. A ver.
Somebody
30 de abril de 2020 10:52 amEstá errado chamar de “centrão” parlamentares que não têm nada a ver com idéias ou comportamentos de “centro”. O que vocês estão chamando de “centrão” são parlamentares que na verdade seriam o equivalente a mercenários, que fazem qualquer serviço (ou apoiam qualquer coisa) pelo preço certo.
Carlos Elisio
30 de abril de 2020 11:54 amAproveitando o post segue extrato uma nota publicada hoje numa pequena coluna do jornal o Dia. O colunista é apoiador do bozo.
Segundo o sujeito a pf estaria interrogando um tal Luciano Mergulhador que teve contayo com Adelio antes da Fakeada. Florianopolis.
Ainda segundo a coluna, o tal mergulhador, que estaria no servico de proteção a testemunha , em algum momento teve contato com Jean Willys.
Ainda segundo o colunista, politico do tal Phodemos pede a presença de Willys no brasil (a coluna nao explícita ligação entre os dois eventos pois coloca em notas diferentes).
Pelo visto parece que foi Willys quem elegeu o bozo, rs..