Bolsonaro e o Centrão: tudo a ver, por Antonio Lassance

Em seus quase 30 anos como deputado federal, Bolsonaro passou por seis partidos, todos do Centrão, antes de pular para o PSL

Foto BBC

Bolsonaro e o Centrão: tudo a ver

por Antonio Lassance

Se engana quem pensa que Bolsonaro e o famigerado Centrão são como água e óleo. Sabe de nada o inocente que acha difícil o presidente fechar acordo com o bloco do “é dando que se recebe” (mantra de um dos pais fundadores do Centrão, o deputado Roberto Cardoso Alves). A operação não é nenhum bicho de sete cabeças. O bolsonarismo já tem até um discurso de arroz de festa para jogar quando Bolsonaro e o Centrão saírem de mãos dadas.

Em primeiro lugar, é bom lembrar que o Centrão já estava no governo Bolsonaro desde o início, com os três mosqueteiros: Onyx Lorenzoni, Luiz Henrique Mandetta e Osmar Terra.

Certamente, ninguém do Centrão reivindicava a paternidade e se dizia satisfeito quanto a quaisquer dessas indicações. De fato, o dia em que o Centrão se disser satisfeito com os cargos que tem, já não será mais o Centrão. Mas o bloco manifestou seu desagrado quando Onyx Lorenzoni foi deslocado da Casa Civil para o Ministério da Cidadania. Osmar Terra foi defenestrado, mas curiosamente seu empenho em agradar Bolsonaro só fez aumentar. Mandetta foi lançado aos tubarões, mas seu o ex-chefe de gabinete foi nomeado na Anvisa, atendendo a pedido do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM).

Em seus quase 30 anos como deputado federal, Bolsonaro passou por seis partidos, todos do Centrão, antes de pular para o PSL:  PPR (1993-95), PPB (1995-2003), PTB (2003-2005), PFL (2005), PP (2005-2016) e PSC (2016-2017). Pode-se dizer que Bolsonaro sempre foi Centrão ou, na melhor das hipóteses, sempre soube exatamente como lidar com ele, por dentro. Note que, só no Partido Progressista (PP), partido de Maluf, Ciro Nogueira, Arthur Lira, Eduardo da Fonte, Pedro Corrêa, entre outros expoentes, Bolsonaro passou mais de uma década.

Detalhe importante: na Câmara, onde fica o botão que aciona a máquina do “impeachment”, mais de dois terços dos parlamentares “terrivelmente evangélicos” habitam hoje justamente o Centrão.

É um senhor cacife e uma bela desculpa para se propor namoro, noivado e casamento ao Centrão em tempo recorde. O mais bacana é que, na entrevista coletiva lá na grade do Alvorada, o “affair” não seria anunciado como troca-troca, e sim, dízimo, para os aplausos e “améns” da claque.

A propósito, da última vez em que o botão do “impeachment” foi acionado, quem comandava o Centrão e ditava a agenda do país, a partir da  Câmara dos Deputados, era um senhor de nome Eduardo Cunha (MDB-RJ). Além de Centrão, Cunha era o maior expoente justamente da bancada evangélica daquela legislatura. Acabaria preso e acusado, entre outras coisas, de ter dinheiro de propina e também um Porsche em nome de uma empresa chamada “Jesus.com”.

Atualmente, dos 200 deputados que se calcula integrarem o Centrão naquela casa, mais de 26% (cerca de 52 deputados) são da bancada evangélica. Ou seja, em cada quatro deputados desse bloco que é sempre o fiel ou o infiel de qualquer balança, um é evangélico (vide tabela ao final).

Em suma, Bolsonaro e o Centrão não estão longe de um acordo. Os dois se conhecem e sabem do que estão falando. A questão só tem um enrosco: não é tão fácil alinhar essa narrativa às preferências de todos os parlamentares do bloco, mesmo dentro da bancada evangélica. A Bíblia do Centrão, na verdade, chama-se Diário Oficial.

Fonte: tabela do autor com base em dados do Diap, Radiografia do Novo Congresso: Legislatura 2019-2023. Brasília-DF : DIAP, 2018. 164 p. Disponível em:  https://www.urbanitariosdf.org.br/wp-content/uploads/radiografia_do_novo_congresso_-_legislatura_de_2019_a_2023.pdf

Obs1: ao contrário do que é mais comum entre os analistas, o DIAP não costuma incluir o MDB no Centrão. Historicamente, o Centrão era uma aliança que reunia setores de direita de vários partidos, tendo alguns de seus principais expoentes parlamentares do PMDB, como Expedito Machado (PMDB-CE), Luis Roberto Ponte (PMDB-RS) e Daso Coimbra (PDMB-RJ).

Obs 2: A respeito da história do Centrão, leia o excelente artigo de Antônio Augusto de Queiroz (o Toninho do Diap), “Centrão: passado, presente e futuro”. Disponível em https://congressoemfoco.uol.com.br/opiniao/colunas/centrao-passado-presente-e-futuro/

Obs3: Atualmente, não todo o MDB, mas uma parcela importante – e certamente a parte evangélica do MDB – tem se articulado em torno desse bloco informal conhecido pelo nome de Centrão. Por isso esses parlamentares aparecem na tabela.

Antonio Lassance é cientista político.

 

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