4 de junho de 2026

O que pensa e o que sente o povo da periferia?, por Reginaldo Moraes

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Foto: Janssem Cardoso

por Reginaldo Moraes

Está no ar uma nova pesquisa da Fundação Perseu Abramo: Percepções na periferia de São Paulo”. Você pode ler os resultados neste endereço: (http://novo.fpabramo.org.br/…/percepções-na-periferia-de-sã…). O site da FPA traz ainda uma série de artigos em que Jordana Dias Pereira, Matheus Tancredo Toledo e Wiliam Nozack comentam os resultados.

O alvo da pesquisa é mais do que atual. E, ao mesmo tempo, é sempre renovado.

Há quase 100 anos, o Partido Comunista da União Soviética, PCUS publicou uma coletânea de artigos de Lenin com o titulo de “Sobre os sindicatos”. Vários desses artigos insistiam em um tema chave da esquerda: como os enfrentamentos diários com os patrões e o governo formavam aquilo que podemos chamar de “consciência de classe”. Mais do que a propaganda, as escolas de quadros, a agitação da imprensa sindical e partidária, “a vida ensina”, como dizia o título de um desses artigos.

A vida ensina muitas lições e nem sempre aquelas que queremos aprender ou aquelas que julgamos que os “aprendizes” deveriam aprender. E se os enfrentamentos formam a consciência, também essa consciência é afetada pela ausência de enfrentamentos, quando a luta política é substituída pela “cooperação entre as classes”.

A vida ensina, também, através de um meio silencioso e aparentemente “neutro”: o bombardeio das urgências cotidianas, o tempo consumido pela batalha da sobrevivência em condições de super-exploração. Uma das hipóteses da pesquisa indica esse fator – e ela foi derivada de observação anterior sobre as condições de vida da massa trabalhadora. Difícil pensar quando o tempo nos oprime. A classe trabalhadora das grandes cidades brasileiras vive um cotidiano em que ä jornada de trabalho de 9 ou 10 horas se junta uma “jornada adicional” de várias horas em trânsito, amassada em transportes coletivos similares a cadeiões e presídios. Difícil classificar como “tempo livre” aquelas horas em que o cidadão sacode em um trem ou ônibus. Caso imagine ler um jornal ou livro, o aperto já o impede. A angustia da situação – aperto, e desconforto, risco de roubo, temor de atraso – logo apaga qualquer possibilidade de devaneio reflexivo.

A vida ensina – ensina, inclusive, a não apreender. Ou a aprender, apenas, a ter reflexos condicionados, a ter medo, a ser obediente e acomodado, a suportar o que existe pela falta de alternativas.

Se um cidadão está habituado a ver os serviços públicos fundamentais para sua vida – escola, saúde, transporte, energia e saneamento – como mercadorias a comprar, pagar e receber, não devemos estranhar que utilize essa forma mental para encarar candidatos a gerir tais recursos. São “gestores” mais ou menos eficientes de “mercadorias”.

Ao lado desses fatores ditos objetivos, somam-se alguns outros condicionadores do comportamento e das ideias que podemos chamar de fatores subjetivos. Entre estes, destacam-se as diferentes agencias sociais como a escola, a família, a igreja, os meios de comunicação. São agentes formadores de ideias, sentimentos, valores e, por isso, de comportamento, escolha, decisão.

Os grandes momentos de medida das decisões – como as votações – sempre nos chamam atenção. Mas é preciso olhar para a as decisões e escolhas pontuais, cotidianas, pulverizadas. Quando um cidadão escolhe um candidato porque personifica tais e tais valores, é preciso perguntar por que tais valores se tornaram critério para a escolha. E como. Aí, mais do que nos grandes momentos, como as campanhas eleitorais, reside o poder dos meios de comunicação, das igrejas e dos hábitos cotidianos.

A pesquisa da FPA mostra um desses componentes, fundamental no cotidiano das massas trabalhadoras – o manejo dos medos e das crenças, das inseguranças e das esperanças, a afirmação “superior” do que é bem e do que é mal, em um mundo em que tudo parece instável, confuso, pouco confiável. Já houve tempo em que nas periferias das cidades espalhava-se uma teologia da libertação, da esperança de um novo tempo, mais justo e igualitário. Ela foi paulatinamente substituída por uma teologia da prosperidade – mas também do castigo, da punição, do olho por olho. Está mais do que na hora de pregar uma nova ressurreição, a ressurreição da esperança e da crença numa vida construída na luta coletiva, no sonho coletivo.

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11 Comentários
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  1. Morales

    4 de abril de 2017 3:11 pm

    Tarefa de um Partido da Classe Trabalhadora: Forjar Consciência!

    Lendo artigo sobre essa pesquisa da Fundação Perseu Abramo, só me vem à mente aquela propaganda do PT, elaborada pelos seus “jênios” empresariais de “marketing” eleitoral, aquela do “país de classe média”.

    O oportunismo eleitoreiro, assim como as alianças espúrias com os PMDBs e Temers, com os inimigos de classe, para efêmeros ganhos institucionais, substituiu a necessária construção da consciência de classe.

    A burguesia nunca renunciou à disputa de consciências. Pelo contrário, por anos, foram só eles que tiveram a mais ampla liberdade, com o seu incontestado monopólio dos meios de produção de desinformação e de formas de pensar, para fazê-la. pois o PT abandonou esse campo de disputa para se adaptar ao discurso que dava votos e solapava a solidariedade de classe. O discurso fácil de se adaptar à correlação de forças em vez de mudá-la.

    Esse é o resultado!

     

     

  2. Marcos K

    4 de abril de 2017 3:25 pm

    Lendo o artigo e olhando a

    Lendo o artigo e olhando a pesquisa fica mais do que claro o quanto o PT errou na sua estratégia de comunicação. Deixou o campo aberto para a Globo e quejandos semear o pensamento neoliberal imbecilizante entre os mais precisam e dependem do Estado.

    O PT não tem só que pensar em sua sobrevivência. Deve rever urgentemente todas as suas estratégias se quiser alguma coisa da vida.

    1. rdmaestri

      4 de abril de 2017 5:52 pm

      Marcos, desculpe-me, porém o discurso do PT é um discurso ……

      Marcos, desculpe-me, porém o discurso do PT é um discurso social-liberal. A direita que é muito burra e que não notou! Acham que é um discurso socialista.

  3. WG

    4 de abril de 2017 4:32 pm

    É a pura verdade, a população


    É a pura verdade, a população vive um massacre diário, não só físico e mental. Como adquirir consciência social nesse inferno sem fim. A esquerda precisa evoluir muito para atingir o coração e as mentes desses prisioneiros do sistema. É urgente conceber novos instrumentos, novos meios, novas idéias, novos conceitos para mobilizar as periferias.

  4. Neo Tupi

    4 de abril de 2017 4:50 pm

    Propagar distribuição de renda é conscientizarjj
    Aquela propaganda foi super conscientizadora porque desenvolve o sentimento de exigir melhor distribuição de renda. Para classe média que sempre teve coisa de rico pode achar a propaganda fútil, mas para quem nunca teve bem estar é ilustrativo entender que não tinha porque não havia governo que representava seus interesses. As falhas dos governos do PT foram outras, como passar 3 governos sem fazer um plebiscito sequer. Faltou desenvolver a consciência do poder popular.

    1. rdmaestri

      4 de abril de 2017 5:50 pm

      Consciência popular em que direção?

      É fácil dizer que “Faltou desenvolver a consciência do poder popular.” O difícil é definir o que é esta consciência popular.

      1. Pedro ABBM

        4 de abril de 2017 6:05 pm

        Definindo a consciência popular

        Dizer ao povo o que ele deve pensar.

  5. rdmaestri

    4 de abril de 2017 5:47 pm

    Voltando ainda mais as origens.

    Acho que a interpretação de Morales acima é perfeita, porém para entender mais a dinâmica do processo é necessário retroceder um pouco mais do que as campanhas da formação do “país de classe média” algo que talvez seja bem mais desagradável do que culpar os marqueteiros do partido.

    Grande parte dos militantes do PT, logo na sua formação eram originários de grupos formados pela “teologia da libertação” quem tem no Brasil como expoentes Leonardo Boff e Frei Beto, e o próprio Lula declara claramente que a sua base era por um lado a CUT (sindicalistas) e por outro lado a base da Igreja Católica, se alguém não concorda com isto que ouça das próprias palavras de Lula.

    [video:https://youtu.be/efkaaNgNI_c align:center] 

    Pois bem, se vê claramente que nesta base de Lula a esquerda política não é incluída e os poucos que se aliaram estrategicamente ao PT foram aos poucos despejados do partido.

    O problema é que no momento que se associa a uma estrutura como a Igreja Católica, fica ao humor de seus comandantes (no caso o Papa), se o Papa é progressista a base fica motivada, porém no momento em que figuras conservadoras ou ultra-conservadoras como João Paulo II e Bento XVI assumem o poder, toda a base é desmanchada e pior, como não há a mínima experiência em formações de quadros o partido ficou órfã de ideologia, indo cada um para seu lado.

    No momento que os Papas conservadores assumiram o poder, a “opção preferencial pelos pobres” foi posta a deriva e as igrejas evangélicas que já estavam em ofensiva, a bancada da Bíblia trocou o livro de mãos, passando dos católicos aos protestantes, ou seja nenhuma novidade!

    Nos dias atuais, depois do desastroso mandato dos Papas conservadores, que simplesmente esvaziaram as igrejas na América Latina e não colocaram nenhum fiel a mais dentro das igrejas do primeiro mundo, chegando parte delas a começarem a fechar, há de novo a colocação de um Papa progressista, simplesmente para pelo menos conservar parte dos fieis latinos, porém se um partido e um líder fica a reboque de uma igreja e não adota o Estado Laico como política pública, todo um movimento popular fica a reboque da mesma, principalmente em termos de ideologia.

    Agora a pergunta que faria ao Morales. Qual seria a orientação política a ser pregada pelo PT? Todos irem a igreja ao domingo e comungarem?

  6. Ronaldo Ferreira Vaz

    5 de abril de 2017 1:51 pm

    Texto de apresentação ridículo.

    Texto de apresentação da pequisa é ridiculo e fraco, não sei a pesquisa, vou le-la depois. 

    O texto acima é fraco, pois é generalizante por não conduzir a análise mediante dados do IBGE!.

    Consciência de classe? O pauperrismo situa uma pessoa necessariamente na classe trabalhadora:? Donas de apenas, apenos isso, velhos, crianças e adolescentes pertencem vendem força de trabalho, dispoem força de trabalho no chão de fábrica e no setor de serviços 

    Que questionário? O questionário, reitoro que ainda vou ler os dados e as perguntas, foi elaborado a partir de qual pespectva ontológica? Materialista, segundo Ellen Wood expoem a formaçao de consciencia de classe em “Democracia contra Capitalismo – a renovação do materialismo histórico”? Ou idealista, pelo que se observa pela citação e preferencia da teologia da libertação ante a da prosperidade. 

    Povo alianigena? Ou pesquisadores estranhos ao povo? Que se deva guarda distância do objeto, Weber em “A Objetividade do Conhecimento nas Ciências Sociais”, já adveritira, e para nós – não a neutralidade. Contudo, pergunta-se – os pesquisadores não se sentem a parte ou alheio ao povo? Será esse povo, o de Moísés ruma a terra prometida? 

    Materalisat é Baruch Spinoza, pois seu deus é criação humana. Spinoza advete no “Tratado Teológico Político” e na “Ética” que a esperança nasce do medo. Paulo fixou em Corintios (1, 13-13), a esperança como virtude teológica cristã. A esperança, portanto, é uma desgraça, aquilo que torna a vida triiste e sem graça. Para se encontrar com a vidade e agirmos sobre ela, segundo a “VIRTU” maquiavelica, devemos acatar a sugestão de Drumond de nos depurarmos de deus, de Paulo Freire com sua “Pedagogia da Esperança e “Pedagogia do Oprimido”. Se a teologia da prosperidade prospera, é porque o “povo” que se indivudar, não ser boi e vaca nos rebanhões do carnaval e caresma.

     

    Fica, portanto, a provocação.

    1. Ronaldo Barros

      5 de abril de 2017 5:01 pm

      Já entraram na seita?

      A seita que doi menos. 

  7. Marcelo33

    5 de abril de 2017 7:48 pm

    Resultado, tem um monte de

    Resultado, tem um monte de pobre brincando de ancapista e que merecese fuder !!!

     

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