10 de junho de 2026

“Deixa cada um se foder”, senhor Ministro da Economia?, por Alexandre Filordi

O assustador no registro da fatídica reunião ministerial de 22 de abril é a recepção de seus comparsas com a normalidade de toda violência chocada como vingança delirante e de aplicação banal.
(Extraído de https://vermelho.org.br/editoriais/o-descaso-de-bolsonaro-diante-das-necessidades-do-povo-e-do-pais/)

“Deixa cada um se foder”, senhor Ministro da Economia?

por Alexandre Filordi

Mais uma jovem recebe um tiro na cabeça pelo poder policial tanocrático do Rio de Janeiro. Semana passada dois adolescentes morreram assim. Todos compõem o número de vítimas do que eu denomino de quadrilátero PPPM – periféricos, pobres, precarizados e negros. Também hoje, comparando-se março de 2019 com março de 2020, sabemos que, apesar da pandemia, o Brasil registra aumento de 11% de assassinatos. Na sexta-feira passada, em estado de choque, tivemos ciência da alcova pútrida, nojenta e abjeta que conduz o país para o charco da aberração civilizatória.

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

O assustador no registro da fatídica reunião ministerial de 22 de abril é a recepção de seus comparsas com a normalidade de toda violência chocada como vingança delirante e de aplicação banal.

De saída, a violência está estampada na logomarca do Governo Federal – Pátria Amada Brasil – cenário que compõe a reunião, não apenas por ser uma “colagem” de imagem disponível no Freepik, fartamente utilizada em outras propagandas no mundo, mas por tipificar a criança brasileira completamente fora de sua realidade racial, econômica, alimentar, social etc. e de suas demandas.

A violência também se encontra em uma configuração de poder convergente ao homem branco, heteronormativo, colonizador e amigo dos gestos violentos. Naquela alcova, os negros não existem para o poder nem as mulheres, a não ser que sejam submissas a eles.

Mas a violência não deixa de estar encarnada na gramatologia do poder vulgar. A norma da convenção deste tipo de poder é todo residual de uma consciência que não consegue se articular. Por isso é preciso o poder xingar, danar, combinar chilique racista, faccioso, passando por cima de contextos sócio-históricos, pois tal poder é autoritário e, como tal, ele pode tudo.

No final da reunião, uma fala, contudo, deixa transparecer o ápice da violência, sintetizando-a. Aderindo-se à defesa da presença de cassinos no Brasil como fonte de investimento, o senhor Ministro da Economia disse: “deixa cada um se foder”. Tratava-se de demover a preocupação da Ministra Damares com relação à prostituição, ao tráfego de drogas, à lavagem de dinheiro e à evasão de divisas que acabam tocando o submundo da jogatina.

O “deixa cada um se foder”, contudo, poderia ser a frase sumária não apenas daquela reunião, porém, de toda plataforma política do atual Governo Federal. A frase converge para uma série violenta de modus operandi doravante revelados: aproveitar a pandemia, leia-se, a morte de milhares, para “mudar o regramento”, defendido pelo Ministro do Meio Ambiente, para “passar as reformas”; “definir a Nova Ordem Mundial” do Ministro das Relações Exteriores, talvez coincidindo com o “viajando e vendendo o Brasil”, de Onyx Lorenzoni; manter a PEC do teto dos gastos públicos, conforme Roberto Campos; prender prefeitos e governadores, na pauta do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (sic); o ódio colérico do Ministério da Educação, para quem, “a gente veio aqui pra acabar com tudo isso”, de verdade, em plena realização.

Mais do que tudo isso, o “deixa cada um se foder”, perpetrado pelo Ministro da Economia, é o início, o meio e a finalidade desse governo. Os mortos que se somam à pandemia são efeitos colaterais dessa proposta; as crianças e jovens assassinados outra consequência; o sucateamento da educação, da saúde e da seguridade também compõem a pauta do “deixa cada um se foder”. Encontram-se também aí a privatização como colete salva-vidas de uma economia que mata se afundando, porque marginaliza e excluí; a aniquilação de povos – isso mesmo, POVOS – indígenas, quilombolas e ribeirinhos para dar lugar ao agronegócio, às mineradoras e à gentrificação de territórios rurais; de igual modo, aí se circunscrevem as comunidades periféricas largadas ao deus dará de seus destinos, desidratadas de cuidados sociais: iluminação, moradia adequada, saneamento básico, escolas, hospitais etc. Aí estão você, eu, nós: cada um entregue à sua própria sorte.

O mais curioso em tudo isso é o Messias dizendo que Deus faz parte de suas bandeiras. Neste caso, o seu governo não deixa de ser condizente com a sinceridade do diagnóstico de Cristo acerca dos fariseus, que também defendiam Deus: “Raça de víboras, como podeis falar coisas boas, se sois maus? Porque a boca fala daquilo de que o coração está cheio” (Mateus 12, 34).

Uma voz, contudo, foi dissonante naquela reunião de fariseus, e não está mais no Governo, em decorrência de sua recusa de se compor com o “deixa cada um se foder”. Trata-se de Teich, que na boa-fé, dizia: se “a gente não mostrar para a sociedade que a gente tem o controle da doença, da saída dela, qualquer tentativa econômica vai ser ruim, porque o medo vai impedir que você trate a economia como uma prioridade.” Teich não sabia que a doença são eles e, como nós, foi entregue ao mote governamental: “deixa cada um se foder”. Deixaremos?

Alexandre Filordi (EFLCH/UNIFESP)

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

3 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Alexandre Filordi

    26 de maio de 2020 11:31 am

    Onde se lê PPPM é PPPN. Perdão no erro de digitação.

  2. Rui Ribeiro

    26 de maio de 2020 8:02 pm

    Tinha notado. De qualquer forma, muito obrigado

  3. Machado

    27 de maio de 2020 8:22 am

    Não há muito o que acrescentar à sua análise. É isso. Autoritarismo, ódio aos indígenas, aos chineses, aos pobres, à diversidade, à justiça, à democracia, à inteligência. Deus é apenas uma máscara que reduz o impacto de suas horrendas feições. Todos os dias teremos que demonstrar as incoerências desse governo tão evidentes a olho nú? Força nessa cansativa batalha.

Recomendados para você

Recomendados