A passeata dos 100 mil, ocorrida em 26 de junho de 1968, abalou os alicerces da ditadura https://pt.wikipedia.org/wiki/Wikip%C3%A9dia:P%C3%A1gina_principal e levou-a a adotar medidas ainda mais duras contra seus adversários. Refiro-me especificamente ao AI-5, que seria imposto pelos militares em 13 de dezembro de 1968.
Artistas e políticos que ainda deixam marcas profundas na cultura e no cotidiano brasileiro estavam na passeata dos 100 mil. A visibilidade que eles ganharam foi conquistada durante aquele ato de resistência aberta à ditadura.
Uma nova passeata dos 100 mil está ocorrendo neste momento, mas ela não tem qualquer visibilidade em virtude de estar fragmentada nas centenas de milhares de filas de desempregados. O mercado exigiu a Lava Jato e o Estado brasileiro esmagou empresas e trabalhadores para atender a ditadura de ninguém http://www.msn.com/pt-br/dinheiro/economia-e-negocios/odebrecht-demite-mais-de-100-mil-em-3-anos/ar-AAlrOaB.
Estes 100 mil brasileiros são, porém, uma pequena fração dos 12 milhões de desempregados produzidos pelo golpe de 2016. A operação Lava Jato, a imprensa golpista e Michel Temer e seus aliados criaram um verdadeiro exército de invisíveis, cujas vidas histórias pessoais serão esquecidas.
Os desempregados não atraem a atenção dos veículos de comunicação e não despertam compaixão dos deputados e senadores que revogam programas sociais e direitos previdenciários. Nenhuma “pessoa importante” (para usar a linguagem de Michel Temer) atribui a eles qualquer relevância social ou política.
Os desempregados estão aqui, mas não fazem parte do nosso mundo cultural. Eles foram banidos do cotidiano assim como tem sido exilados pela política. Mas eles estão aqui e são muitos. Tantos que não poderão ser contidos pelas polícias quando os supermercados começarem a ser saqueados.
Se a violência é a parteira da História como dizia Marx, a fome e o desespero são os padrastos da tragédia. A ditadura política produziu um inimigo visível: os militares e seus lacaios. A ditadura de ninguém sob a qual o Brasil se curvou é difusa. Os 12 milhões de desempregados não tem um inimigo que possa ser nomeado e localizado. Em razão disto, o perigo da barbárie generalizada e maior hoje do que jamais foi durante a ditadura militar.
Crise econômica, ausência de legitimidade governamental, aproximação do mercado deliberadamente programada por governantes que querem se distanciar do povo, extinção de garantias sociais, revogação de direitos previdenciários, desemprego, desespero e fome não estão preparando o terreno para uma modernização do nosso país. Quando irromper a barbárie será apenas o fruto maduro da semente que foi plantada pela Lava Jato e irrigada pela imprensa e pelo governo Temer.
Os alertas de Hannah Arendt sobre o “governo de ninguém”, ou seja, sobre o abismo que existiria entre os burocratas e a população caso uma governança mundial fosse adotada, já não fazem muito sentido. Ninguém mais é capaz de alimentar esperanças num governo mundial. De fato, a ditadura do mercado está inviabilizando qualquer tipo de governo ou de governança dentro dos Estados nacionais. Este será o caso do Brasil em 2017.
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