5 de junho de 2026

Mito, logo minto. Ouvir o canto da sereia é morrer, por Alexandre Filordi

Em torno do mito, a morte se revela como face banal e ordinária de uma sedução mortífera. Os que estão a aclamá-lo são cúmplices inevitáveis com o afogamento social que está em curso.
(Charge de Nando Motta. Extraída da página do autor https://www.instagram.com/desenhosdonando/?hl=pt-br)

Mito, logo minto. Ouvir o canto da sereia é morrer

por Alexandre Filordi

Bolsonaro se jogando no mar e nadando na direção dos acólitos, que também não estão nem aí, fez-me lembrar de um mito: o das sereias.

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Na mitologia, as sereias possuem cantos lindíssimos, mas fatais. Quem os ouvisse seria hipnotizado e se lançaria mar adentro para encontrar tamanha sedução, porém, morrendo afogado.

Na Odisséia, Homero relata a astúcia de Ulisses para atravessar o mar habitado por sereias. Para proteger seus marujos, Ulisses os orienta a entupir os ouvidos com cera. Impedidos de ouvir o canto fatal, continuariam são e salvos. Por sua vez, Ulisses se amarra no mastro do navio. Impedido de se soltar, embora ouvindo a sedução mortífera, conseguirá seguir a sua viagem.

Há muito tempo Bolsonaro lançou seu canto e seduziu muita gente. Há os que ainda correm ou nadam em sua direção. Ignoram, contudo, os aspectos mortíferos que estão em curso nesse ato. Em torno do mito, a morte se revela como face banal e ordinária de uma sedução mortífera. Os que estão a aclamá-lo são cúmplices inevitáveis com o afogamento social que está em curso. Ignorar a ronda da morte faz parte de uma mentalidade que não sabe distinguir realidade de mitologia, fato de fake news, consequências político-econômicas de médio e longo prazo com prazer imediato.

Mas há um detalhe perverso para esses navegantes desprotegidos e fascinados pelo canto do mito, e que persistem a dar ouvidos a ele: quando a morte cobrar o preço da sedução, não serão atendidos nos melhores hospitais do país; quando o desemprego bater à porta, não terão cheques polpudos depositados milagrosamente na conta de seus familiares; quando precisarem de amparo social, ouvirão que receber auxílios são coisas de comunista ou de vagabundo; quando virem o próximo tocado pela pandemia ou a si mesmo, sentirão o peso da realidade que não se dribla com likes, self ou pulando sete ondas.

Esses não são como os Ulisses seduzidos, os astutos com poder e mando, que puderam se amarrar no mastro a fim de sobreviver ao canto sedutor da morte. Aqui, os Ulisses são a oligarquia, a plutocracia, a elite, o empresariado, a política de ligeireza proverbial seduzida pela esperança mitológica, mas que desde sempre não abrem mão de estar do lado de seu papel social: locupletarem-se com o poder vigente. Esses precisam continuar a explorar os incautos; eles fazem da morte uma redução de custos do sistema público de garantias sociais; eles estão do lado do fascínio, pois trata-se do poder de ordenar, de explorar, de comandar e de monopolizar as informações. Os Ulisses podem ouvir o canto da sereia pois, independentemente de suas apostas no mito, estão, há mais de 500 anos, dominando a epopeia chamada desigualdade brasileira.

Mais do que isso. Esses Ulisses não se atiram em águas rasas e povoadas como o populacho o faz; eles os veem de longe, de seus iates, depois de chegarem na marina de helicópteros  – sem pagar IPVA por eles, é claro; eles estão em suas ilhas ou em condomínios que funcionam como ilhas; eles também ganham com a morte – como sempre – pois fizeram os seduzidos acreditar que o melhor é obedecer e servi-los sob quaisquer condições; afinal, eles também são a voz de Deus acima de tudo. Seja como for, não são eles que vão até o mito, mas é o mito que precisa deles para fazer justificar o canto que mata. Enquanto isso, os pobres seduzidos, nem donos do mar ou das nobres embarcações, nos termos de Adorno e Horkheimer, “reproduzem a vida do opressor juntamente com a própria vida”, fascinados que estão pelo canto da morte.

Em Estudos sobre a personalidade autoritária, Adorno aponta a anti-intracepção como um dos índices que caracterizam a personalidade autoritária. Anti-intracepção é a incapacidade de ser compassivo, aflorando atitudes e comportamentos de impaciência e de desrespeito. Tanto a impaciência e a falta de compaixão com a preservação da vida têm evidenciado o quão de autoritário existe quando um presidente da República se mostra incapaz de manifestar sobriedade sobre as águas agitadas pelas quais estamos a atravessar, sem respeito algum pelas mortes ocorridas.

Isso importa, contudo? Claro que não, porque estamos diante do próprio mito, com tudo que ele porta e anuncia. Ademais, é próprio de todo mito o direito de mentir, pois o mito é história inventada: mito, logo minto. Quantos mortos a mais contaremos em 2021? Veremos, em breve, o peso da verdade no lugar do mito.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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5 Comentários
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  1. Daniel

    3 de janeiro de 2021 9:41 am

    É impressionante como todos as matérias, todos os comentários e análises, inclusive da oposição, fazem o jogo do bozo, de tirar o foco do principal.
    O fico deve ser a atuação desse incompetente em relação ao País que ele deveria administrar, PONTO FINAL.
    Cade as compilações de dados ? As comparações de desempenho com governos anteriores no que se refere a crescimento de PiB, emprego, renda, saude , educação, infraestrutura ??
    É por aí, e só por ai que a oposição terá alguma chance de retornar ao Poder.
    Parece que querem fazer o jogo bizarro do proprio adversário.
    Será que está todo mundo louco ou burro mesmo ?

  2. Zé Sérgio

    3 de janeiro de 2021 11:52 am

    30 anos de Luiz Zveiter. 30 anos de TJ / RJ. 30 anos de STJD. 30 anos de Monopólio da RGT sobre o Futebol. 30 anos de Ricardo Teixeira. 30 anos de farsante Constituição Cidadã. 30 anos de pseudo Partidos Progressistas PSDB e PT. 30 anos entre FHC, Lula e Dilma. Que fizeram as Olimpíadas e Copa do Mundo de ‘Bilionários Elefantes Brancos’ da RGT. Quem deu mais de 10 tiros na Juíza Patrícia Aciolly? E quem ficou assistindo a tudo? Zveiter, seu Superior, negou Proteção Policial à Magistrada. ‘Não havia necessidade’. Percebemos. Ela também percebeu. Será que a Sociedade Civil Brasileira entendeu o recado velado? Teixeira, Havellange, Lula, Dilma, FHC, Zveiter,… morrerão nas suas camas. Aposentados de suas Abastadas Funções Públicas ou Protegidas. Qual é o final de quem ousa enfrentar estes Estado Ditatorial e Absolutista, diga para Nós Juíza Patrícia? Diga para Nós, caro Nassif? Coincidentemente, somente agora o CADE começa a extinguir tal Monopólio. Depois de 30 anos. Durante o Governo Bolsonaro. Assim como Zveiter, se afasta de todas suas Funções de Proteção, extorsão, conluio e cumplicidade com todo restante da Elite Parasitária deste Estado Esquerdo-Fascista quase secular. Somente agora?! Quanta coincidência?! “…Veremos, em breve, o peso da verdade no lugar do mito…” Veremos somente agora a tal ‘Verdade’? Então, o que enxergamos nestes 30 anos? Somente as Mentiras? Pobre país rico. ‘Hipócrita, primeiro tire o tronco de sua vista, para depois, retirar o cisco do olho de seu irmão’…É obesceno de tão óbvio…’ Mas de muito fácil explicação.

    1. Zé Sérgio

      3 de janeiro de 2021 8:53 pm

      ‘…É obsceno…

  3. Zé Sérgio

    3 de janeiro de 2021 2:35 pm

    ??????

  4. Machado

    4 de janeiro de 2021 12:21 am

    Excelente análise, gostei muito da associação dos mitos que levam à morte pela sedução, mas a julgar pela incompreensível manifestação do Zé Sérgio, deve ter despertado a ira de algum robô ou do Carlos Bolsonaro, que andava adormecido.

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