27 de junho de 2026

O medo e o esgoto, ou de como chegamos a isso, por Luciano Mendes

Penso, com a maioria, que as nossas energias devem ser dirigidas às ações para sairmos DISSO.
MIGUEL SCHINCARIOL/AFP/Getty Images

O MEDO E O ESGOTO, ou de como chegamos a ISSO

por Luciano Mendes

É difícil achar palavras para nomear o que estamos passando e, boa parte de nós, brasileiros e brasileiras, sentindo. Os dicionários da língua, ou das línguas, são insuficientes. Não há neles, infelizmente, pelo menos do meu ponto de vista, hoje, signos que nos permitam expressar/construir/simbolizar isso. Mas é preciso continuar. É preciso bordejar a fissura.

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Assisti, bestializado, ao vídeo incentivando a retirada máscara e a exposição do so-riso,. Mais do que o dito – cantado – as performances são impactantes. A propaganda da morte, a banalização da vida, o espetáculo grotesco da insensibilidade pela dor do outro. Como chegamos a isso?

Penso, com a maioria, que as nossas energias devem ser dirigidas às ações para sairmos DISSO. Mas, enganam-se aqueles e aquelas, acho, que pensam que saídas são necessárias apenas para frente, para um futuro menos doído e mais cuidadoso. Essa é certamente a prioridade, mas igualmente é preciso que alguma energia seja jogada – a palavra aqui não é aleatória – para entendermos como chegamos ao isso.

Sei que há, em mim, algo que grita pelas nossas responsabilidades nisso. Sou educador há quase 40 anos, historiador da educação há mais de 30 e professor, especificamente, há um quarto de século. Com muitos e muitos colegas sei, no corpo e no espírito (pensamento? conhecimento?) que chegamos a ISSO por longos e tortuosos caminhos que não podem ser esquecidos.

A construção dessa insensibilidade face a vida e à dor des outres foi uma ação positiva (ativa) de muitos investimentos, foi teatralizada na tragédia cotidiana a que assistimos (literalmente, assistimos) nas mídias e que nos fez, sensivelmente, recolher, esconder, escolher…

Nós…eles… o medo a espreita. O medo como conselheiro é o pior dos conselhos. Somos uma sociedade que cultiva o medo; sempre fomos. E o medo, como a água presa, não apenas quer ficar parado, mas busca entrâncias, quer encontrar saídas, quer esgotar-se… O esgoto é uma saída.

O esgoto do autoritarismo, na demanda por violência, da prática da tortura, das políticas de morte, dos canalhas dos parlamentos e das canalhices de que os/as sustenta lá, da eleição de um Presidente miliciano e doentiamente perverso e cujo projeto é a destruição de tudo que lembra VIDA. De nossas fendas fétidas saem todos os nossos medos e todas as nossas perversidades buscam saídas.

Ontem li um conto de Rubens Alves sobre a necessidade de se ensinar a tristeza. Hoje penso que é preciso uma educação sobre a pedra, sobre a noite, sobre o medo. E sobre a falta que as palavras nos fazem.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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2 Comentários
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  1. carlos elisioc

    19 de janeiro de 2021 6:27 pm

    Chegamos bem no fundo da merda mesmo:
    https://jlcoreiro.wordpress.com/2021/01/19/presidente-do-ipea-quer-que-o-brasil-volte-a-ser-uma-grande-fazenda/

    Caso de pendirar um estrume deste pelo saco.

  2. Roberto Agnaldo

    19 de janeiro de 2021 11:25 pm

    O bom de se chegar ao fundo do poço – oremos para que exista um fundo -, é que só resta subir.

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