Se você mora em São Paulo e nunca foi à festa de final de ano na Avenida Paulista, deveria fazer a experiência, pelo menos uma vez. Para entender o choque das madames e dos madamos, das famílias de bem. Ou melhor, das famílias de bens.
Faz uns dez anos que isso está crescendo. A “mais paulista das avenidas” era assim chamada porque refletia o o orgulho grã-fino dos Jardins, a tradicional zona chique da cidade. Aos sábados e domingos, nas suas largas calçadas, jovens, maduros e idosos desfilavam com roupas de ginástica de marca, óculos ray-ban e cachorrinhos elegantes. Massinha cheirosa.
Na festa de 31 de dezembro a paisagem era um pouco diferente, mas ainda assim dominada por jovens da chamada classe média bem vestida. Daí acontecem as conexões do metrô, os corredores de ônibus. E tudo isso foi trazendo os “manos e minas” dos quatro pontos distantes, dos bairros periféricos ao leste, norte, sul e oeste. Juventude bem vestida, mas a seu modo, um modo que choca a antiga platéia. A elite agora encara a patuléia no seu jardim. Roupas muito coloridas, saias justas, bijouterias espalhafatosas e abundantes, baton forte, cabelo arrepiado. E, principalmente, um comportamento efusivo de novo tipo, escandaloso para os padrões de antes. Gente diferenciada, aquele tipo que a gente de família ironizava com a expressão “churrasco na laje”. Invadiram a praia paulistana mais famosa, reino dos bancos e corporações durante a semana, passarela de poodles e chiuauas nos domingos.
Para exasperar ainda mais o velho público da praia, a prefeitura resolve que a avenida feche para veículos aos domingos. Convida ao churrasquinho da gente diferenciada. Muitos dos antigos frequentadores devem pensar em seus gatinhos fritando sobre as brasas dos novos comensais. Que horror! Barbárie! Onde isso vai acabar?
Sim, piorou. Afinal, nos finais de ano a avenida até que podia ser tomada pela patuléia. Paciência. A nobreza saía da cidade. Para a praia, as montanhas, os ressorts. Mas, agora é todo final de semana? Como diz o príncipe de Higienópolis, portavoz do andar de cima: assim não dá, assim não pode!
O que acontece ali, na “mais paulista das avenidas” é um retrato meio torto mas representativo do que se expandia no resto do país e, em alguns lugares, já era visto com pavor. Faz tempo, Brizola começou a abrir caminhos para as praias e a plebe da zona norte vazou para Copacabana e Ipanema. Loiros e loiras se espantaram. Alguns guris e gurias se enturmaram, é verdade, começaram a jogar futebol com os “pivetes”. Mas o ranço local ferveu, resmungou e, volta e meia, explode em chamamentos à ordem fardada. Coisa parecida aconteceu em outros cantos – Marcelo Deda é até hoje amaldiçoado, mesmo depois de morto, por ter aberto uma pista para a praia, por onde fluíram os pobres periféricos de Aracaju.
Retrato do Brasil, não apenas nas praias e locais de laser. Retrato do Brasil com a chegada dessa gente bronzeada no terreno outrora privativo da juventude dourada, dos maduros endinheirados e da velha guarda temerosa. Os manos e as minas, bem como seus pais, tios e avós, agora chegam a universidades, aeroportos, shopping centers. E, para piorar, alguns deles acham que têm direito a opinar sobre a cidade e o país. Deus sabe onde isso vai parar!
O freio de arrumação está agora anunciado. O pessoal da Casa Grande, devidamente alinhado com a Casa Branca, resolveu que a festa acabou, antes de esquentar. Primeiro nas “reformas” para acabar com essa estória de “viver acima dos meios”. Austeridade, sacrifício… seletivo, é claro, que a sala de jantar dos palácios está bem frequentada. Depois, podemos ter certeza, chega a vez das avenidas e praias. Vamos acabar com essa estória de Avenida Paulista sem carros, vamos acabar com pivetes nas praias. Os manos e minas que voltem para suas cavernas, o lugar que lhes cabe. Gente fina é outra coisa.
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