4 de junho de 2026

GGN Covid: Entenda a manipulação dos dados para justificar o tratamento alternativo

Se algum médico vir a brandir algum indicador de cidade bem sucedida no enfrentamento da doença, que usou tratamento alternativo, pode ter certeza de que é embuste estatístico, manipulação das relações reais de causa e efeito.

Há muitos fatores a serem considerados na análise do combate à pandemia em cidades. A diferença nos índices de mortalidade podem ser função dos protocolos médicos adotados, ou da maior ou menor eficiência com que foi feito o isolamento social. Ou ainda da maior ou menor exposição da cidade a visitantes.

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Por isso mesmo, a tática usada por defensores do tratamento precoce consiste em identificar – entre as diversas cidades que adotaram a cloroquina e ivermectina – aquelas que eventualmente tiveram melhor desempenho, para apresentá-las como a prova viva da eficácia do tratamento.

Vamos conferir o desempenho de algumas cidades campeãs do tratamento precoce.

Para evitar oscilações no gráfico, que dificultem as conclusões, usamos a seguinte metodologia;

  1. Calculamos o acumulado de casos e óbitos nos 28 dias anteriores à data mencionada no gráfico.
  2. Depois, dividimos os óbitos pelos casos, para se chegar aos índices de mortalidade.

Confira.

Em Minas Gerais, Uberlândia, Governador Valadares e Ipatinga se vangloriavam dos bons resultados com o tratamento precoce. 

De dezembro para cá, houve crescimento sistemático na taxa de mortalidade das três cidades.  Nos dois últimos meses, Ipatinga ficou nitidamente acima da média do estado de Minas Gerais; Uberlândia ficou abaixo em fevereiro, mas explodiu nos 30 dias até 18 de março.

Itajaí (SC) foi celebrada como a primeira cidade a utilizar intensivamente o tratamento alternativo. O índice de mortalidade ficou sistematicamente acima da média do estado e de outras cidades de tamanho similar.

O mesmo ocorreu no Paraná com Foz do Iguaçu, a cidade que mais aderiu ao tratamento alternativo. Seus índices de mortalidade ficariam sistematicamente acima da média do estado e, em muitos momentos, acima dos índices de outras cidades de tamanho similar.

Esses dados não permitem dizer que o uso do tratamento alternativo aumenta a mortalidade. Mas, sim, que não reduz.

Assim, se algum médico vir a brandir algum indicador de cidade bem sucedida no enfrentamento da doença, que usou tratamento alternativo, pode ter certeza de que é embuste estatístico, manipulação das relações reais de causa e efeito.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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