
Por Sebastião Nunes
No meu tempo de aprendiz, havia, na Zona Sul de Belo Horizonte, um contista por metro quadrado. Eu era, orgulhosamente, um deles.
Embora no resto do Brasil e do mundo o usual fosse começar escrevendo versos ou letra de música, em BH reinava soberano o sentimento de eu-sou-contista-porra!, que alimentava longas discussões em mesas de bar. Poetas, músicos e cineastas eram mal vistos e aceitos de nariz torcido. Poetas, por serem uns pobres coitados que ninguém lia; músicos, porque ganhavam dinheiro, além de aparecer muito no rádio e na tevê; cineastas, porque jamais dirigiam filmes e só tinham como prova de trabalho rascunhos de roteiros. Se você encontrar contradições nessas ideias, não se preocupe: era assim mesmo.
Durante cinco ou seis anos escrevi, árdua e fervorosamente, um total de nove contos, sempre os mesmos. Quando terminava o nono (datilografado em três vias, que eu julgava definitivas), relia o primeiro e o achava uma merda. Então reescrevia esse primeiro para que não envergonhasse o nono. Relia o segundo e o reescrevia para que ficasse à altura do primeiro. Relia e reescrevia o terceiro, o quarto, o quinto… até que chegava mais uma vez ao nono e o achava uma merda. Eu o reescrevia, voltava ao primeiro e recomeçava, mordendo meu próprio rabo literário. Era uma vida de bandeirante tardio, procurando – sem nunca encontrar – nove pepitas de ouro no asfalto.
LEITURAS VARIADAS
Os pretendentes a escritor se dividem em algumas poucas categorias: os que se bastam a si mesmos e numa leem outros autores; os que leem apenas best-sellers e se consideram capacitados a escrever bem; os que usam como parâmetro letristas de música popular, transformando seus próprios textos em canções sem melodia; os que só leem contemporâneos, já que desprezam raivosamente o passado e, finalmente, os que sabem que para se tornar um bom escritor é preciso ler o máximo possível, de todos os tempos e em todas as línguas. Sem bom conhecimento dos desafios do passado e das armadilhas do presente não se vai longe. Eu me incluía – pobre de mim – na última categoria. E como me esforçava!
ENCRUZILHADA
Meus gurus em conto eram Clarice Lispector, Franz Kafka e Dalton Trevisan. Três autores de altíssimo nível sem nada de comum entre eles. Se acrescentarmos a essa santíssima trindade serafins e beatos como Anton Tchekhov, Machado de Assis, Rubem Fonseca, Jorge Luis Borges, Simões Lopes Neto, Hemingway, Faulkner, Camus, Ray Bradbury, Sherwood Anderson, Scott Fitzgerald, Julio Cortázar e alguns poucos outros teremos os anjos da guarda que deveriam me proteger de tropeçar em poste.
Muita gente boa, não é mesmo? Meu problema talvez fosse gente boa demais me protegendo. E foi assim que enterrei a carreira de contista quando, talvez pela vigésima vez, reescrevi os nove contos e não gostei: continuavam ruins. Dei uma banana para os contistas e decidi ser poeta.
O CANTO DA SEREIA
Eu era um paciente leitor de tudo, inclusive de poesia. Mas nunca pretendera ser poeta até desistir de ser contista, como desistira de ser pintor, teatrólogo, cartunista e fotógrafo. Meu lema era simples: ser bom em alguma coisa ou não ser nada. E ser bom, do meu ponto de vista, era não me envergonhar de mim mesmo.
Poetas? Sim: eu lia aqueles que todos liam na época e mais alguns: Drummond, João Cabral, Bandeira, Augusto dos Anjos, Joaquim Cardozo, Oswald e Mário, Quintana, Mauro Mota. Lá de fora, Borges, Rimbaud, Eliot, Prévert, Baudelaire, Cummings, Ginsberg, Corso etc. Os gurus da minha devoção.
O CONCURSO NA UFMG
Certo dia, o diretório acadêmico da faculdade de Direito instituiu um concurso de contos e poesia, aberto a todos os alunos. Não conhecia ninguém, mas sabia que havia muito escritor lá dentro. Tímido como um louva-a-deus, via aquela patota andando pra lá e pra cá, bebendo em grupinhos e discutindo como se de sua decisão dependesse o destino do mundo.
Resolvi encarar o concurso. Conto? Era só escolher um dos nove, “o menos pior”. Difícil era o poema, pois eu não passava de um iniciante, que tateava aqui e ali, copiando de uns e de outros, pastichando, plagiando e misturando em busca da minha fórmula pessoal.
Mas o tempo era curto, curtíssimo. Escrevi então um poema relativamente longo, um pastiche múltiplo de Drummond, Cabral e Joaquim Cardozo. Achei legal e acreditei, com toda a ingenuidade do mundo (e a cegueira dos principiantes), que eu era poeta e não contista.
Ganhei os dois concursos. O de contos porque, ainda que fosse ruim, não era pior do que os concorrentes, todos iniciantes que nem eu. O de poemas, porque ninguém da comissão julgadora (que era de bom nível) foi esperto o suficiente para desatar os nós do complicado pastiche.
Nunca mais me meti em concurso, mesmo porque depois de alguns anos copiando e colando parti para a poesia experimental, buscando meu próprio caminho, no qual trabalhei 20 longos anos até parar, dando por concluída a obra: fechei a porta, joguei a chave fora e me rotulei ex-poeta. Se é burrice ser poeta no Brasil, pior é ser poeta experimental.
CONSELHO AOS PRINCIPIANTES
Caro neófito: aproveite a experiência dos velhos cansados. Se quiser escrever poesia a sério, ainda mais se dado a experimentações verbo-cinético-visuais, não se inscreva em concursos. É perda de tempo. Acho que foi McLuhan quem disse que qualquer obra se torna ininteligível se contiver 20% ou mais de originalidade. Mas se você é chegado a um feijão-com-arroz-temperado-com-alho-e-sal, vá em frente. Apenas não se pavoneie se ganhar. Aprecie os cumprimentos e elogios, mas resista à tentação de subir ao pódio do orgulho. Pode ser que você tenha vencido não por ser o melhor, mas por ser “o menos pior”.
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A ilustração é uma colagem sobre desenho de Castro Alves por Fausto Prats.
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