4 de junho de 2026

Caso Henry: em vez de Truman Capote, a cobertura lembra filmes da Marvel, por Luis Nassif

Tudo bem, ainda se está em cima da bucha, do crime sendo apurado. Mas a mesmice das pautas mostra a enorme dificuldade da mídia em recuperar as ferramentas básicas do grande jornalismo.
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Truman Capote e a cobertura dos grandes crimes

O problema das campanhas midiáticas, em cima de fatos de impacto – como a morte do menino Henry – é a desconsideração de qualquer nuance. Todos os suspeitos têm que ser tratados como criminosos frios e calculistas.

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Tem um criminoso doente na história, o tal vereador. Mas os demais personagens estão sendo jogados na mesma vala, a mãe, a avó, a babá, a empregada. Não há a menor curiosidade em traçar perfis mais elaborados, em falar da dependência financeira das esposas acossadas. Do receio intemporal das pessoas humildes, em afrontar os poderosos (no caso um vereador influente, ligado às milícias). Das razões que levam uma mãe e uma avó amorosas – como se depreende das mensagens – a minimizar as agressões ao menino. Do menino se recusando a admitir as agressões com receio do que o vereador poderia fazer com a mãe.

Mesmo o tal dr. Jairinho mereceria um perfil elaborado por um grande repórter, um doente que só namorava mães de crianças para a prática sistemática do sadismo. E mesmo a questão da violência contra crianças em lares de classe média, um tema escondido por pudores de classe.

Lembro-me do caso Richthofen, a moça que convenceu o namorado a ajudar no assassinato dos pais. Crime horrendo, sem dúvida. Mas apenas uma publicação, a revista Época, se não me engano, traçou um perfil psicológico das relações familiares de Susana com os pais, os conflitos, as pressões sobre a adolescente. Depois se calou para sempre, para não ser mal interpretada pelo homo bobos – o leitor médio dos jornais.

Ora, um tema de tal dramaticidade exige uma reportagem à altura, um Truman Capote de “A Sangue Frio” no roteiro, não o roteirista de um filme da Marvel. Não se trata de absolver o criminoso, minimizar o crime, mas de fazer jornalismo de alto nível, humanizar os criminosos – que não significa tratá-los com condescendência, mas como criminosos de carne e osso, não vilões de histórias em quadrinhos.

Tudo bem, ainda se está em cima da bucha, do crime sendo apurado. Mas a mesmice das pautas mostra a enorme dificuldade da mídia em recuperar as ferramentas básicas do grande jornalismo.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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